Edição 274 | 22 Setembro 2008

O ódio na pós-modernidade

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Márcia Junges

Em O futuro do ódio, recém-traduzido para o português, o psicanalista francês Jean-Pierre Lebrun analisa o fenômeno nos tempos em que vivemos e conclui que o ódio ao Outro é uma de suas manifestações clínicas

“O ódio na pós-modernidade não se manifestará necessariamente de forma inédita, e mais precisamente a facilidade com a qual este poderá se desencadear que lhe é específica.” A declaração é do psicanalista francês Jean-Pierre Lebrun na entrevista a seguir, concedida com exclusividade à IHU On-Line na última semana. De acordo com ele, as intolerâncias racial, religiosa e política seriam materializações desse sentimento.

Lebrun nasceu na Bélgica, onde formou-se em medicina psiquiátrica. Atualmente, é membro da Associação freudiana da Bélgica, que reúne os membros daquele país com os da Associação freudiana, criada por Charles Melman  na França. Também é membro da Associação lacaniana internacional e autor, entre outros livros, de Um mundo sem limites (Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2004), entre outros.

Lebrun esteve no Brasil recentemente. No dia 5 de setembro, lançou seu livro O futuro do ódio (Porto Alegre: CMC, 2008), recém-traduzido para o português. Os debatedores foram o Prof. Dr. Mario Fleig, da Unisinos, organizador da obra, e o Prof. Dr. Luiz Fernando Calil de Freitas, procurador de Justiça e presidente da Fundação Escola Superior do Ministério Público (FMP). Essa é a segunda vez que Lebrun concede entrevista ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU. A primeira foi em 17-05-2007, quando falou com exclusividade às Notícias do Dia do nosso site. Para conferir a entrevista, acesse www.unisinos.br/ihu,  sob o título “O homem contemporâneo não sabe o que é desejar, só sabe o que é consumir”.

IHU On-Line - Quais são as principais manifestações do ódio na pós-modernidade?

Jean-Pierre Lebrun - O ódio na pós-modernidade não se manifestará necessariamente de forma inédita. Mas é antes a facilidade com a qual este poderá se desencadear que lhe é específica, pois é como se as barreiras que a cultura – no sentido amplo da palavra – teve desde sempre que construir contra o gozo do ódio e sua satisfação tivessem sido destruídas. O que explica, inclusive, que certas disfunções, que são somente acentuações do que sempre aconteceu, possam parecer inéditas. Foi assim que fiquei impressionado com o caso de uma criança assassina de três anos e meio.

IHU On-Line - As intolerâncias racial, religiosa e política seriam exemplos desse ódio?

Jean-Pierre Lebrun - Efetivamente. O trabalho de tolerância à alteridade que resulta do trabalho da cultura, diminuindo a partir do momento em que a pós-modernidade dedica-se ao funcionamento do imediato, só tende a sofrer desta evolução. E então a agravar-se.

IHU On-Line - Essas manifestações do ódio possuem equivalentes na forma clínica? Quais seriam essas manifestações?

Jean-Pierre Lebrun - A clínica do ódio que busca a satisfação é a clínica da criança à qual nenhum limite é colocado, e que não encontra mais o endereço que pode obrigá-la a transformar seu ódio em algo que não queira obter a satisfação destruidora. Vamos encontrar, então, neste caso, todos os sinais da perversão polimorfa da criança para os quais o recalcamento não aconteceu. Por assim dizer, vamos encontrar a clínica do ódio dirigido à mãe, a este primeiro Outro do qual não se pode separar-se.

IHU On-Line - É possível falarmos numa nova economia psíquica a partir das manifestações do ódio na pós-modernidade?

Jean-Pierre Lebrun - A nova economia psíquica é uma economia que chamo de “arrière-pays” (lugar perto da costa marítima, lugar anterior, prévio). Ou o que os analistas chamam de o pré-edipiano, mas que nossos conceitos lacanianos nos levam a chamar de outra forma. O que não muda nada nos fenômenos observados. A economia psíquica, que é privilegiada na pós-modernidade, é uma economia que se forma quando a relação com a mãe não é mais regida pelo funcionamento significante que prescreve um social centrado no pai.

IHU On-Line - A exacerbação do ódio pode ser creditada à sensação ilimitada de liberdade, ao delírio de autonomia que o sujeito experimenta?

Jean-Pierre Lebrun – Absolutamente. A prevalência do imediato que caracteriza nossa sociedade neoliberal induz a uma regressão em direção ao sentir. Freud falava do passo decisivo da civilização quando o patriarcado havia prevalecido sobre o matriarcado, “pois a maternidade é atestada pelo testemunho dos sentidos, ao passo que a paternidade é uma conjectura, é edificada sobre uma dedução e sobre um postulado”. O retorno à prevalência da sensação resulta muito desta pós-modernidade. Eu somente falaria de exaltação do ódio para designar o que pode acontecer quando esta obrigação de passar da sensação à conjectura não é mais imperativa. O ódio é então deixado a seu gozo, pois não é o ódio que deve perder seu crédito, ele somente dobra o amor, mas continua no seu gozo.

IHU On-Line - Em outra entrevista ao Instituto Humanitas Unisinos (IHU), o senhor afirmou que o homem contemporâneo não sabe o que é desejar, só sabe o que é consumir. Em que momento e por que ele perdeu esse parâmetro?

Jean-Pierre Lebrun – Certamente, eu generalizei abusivamente afirmando isso, mas o que é fato é que a economia psíquica de arrière-pays, organizada pela prevalência da sensação e do imediato, construída sobre as bases da única relação com a mãe, resulta de uma economia regida pelo signo e não pelo significante. São então as próprias estruturas deste desejar – a falta, a perda da onipotência do signo, a substituição do objeto - que se encontram contornadas. Segue-se que um sujeito que estaria inteiramente absorvido em tal funcionamento psíquico estaria na incapacidade de desejar. Por outro lado, consumir, se se tornar dependente do objeto, colar-se a ele, tudo isso é possível.

IHU On-Line - A fuga à subjetivação e a dificuldade em fazer escolhas estão ligadas ao desejo desenfreado em consumir? Em última instância, há alguma relação desse consumismo com o incremento do ódio?

Jean-Pierre Lebrun - Escolher supõe consentir perder o que não foi escolhido... É então um mesmo funcionamento que rege a atitude consumista, a ausência do que se chama desejo, o evitamento da cultura e da mediação que ela prescreve, e o evitamento de estabelecer as barreiras para a satisfação do ódio.

IHU On-Line - O que esse consumo desenfreado esconde sobre as psicopatologias contemporâneas?

Jean-Pierre Lebrun - Isto revela simplesmente o primado que parece tomar a economia psíquica que depende unicamente da subjetividade materna, quando, tradicionalmente, esta era dependente de uma economia que integrava a relação com um pai por meio da pregnância de um sistema social centrado no pai.

IHU On-Line - Como a sociedade do risco e suas incertezas fabricadas, para usar um conceito do sociólogo alemão Ullrich Beck,  está ligada a esse comportamento que não encontra limites?

Jean-Pierre Lebrun – Não conheço, infelizmente, os trabalhos deste sociólogo, mas não é difícil perceber que esta economia psíquica não pode aceitar o risco. Este último é sempre obrigado a suportar o fato de não saber tudo. Ora, este funcionamento está ligado ao poder do signo, logo, à onipotência.

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