Edição 274 | 22 Setembro 2008

O que faremos com nossos ódios?

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Mario Fleig

Nesta semana, a IHU On-Line debate O futuro do ódio (Porto Alegre: CMC, 2008), de Jean-Pierre Lebrun, psicanalista francês. Para uma introdução ao seu pensamento, publicamos, a seguir, a apresentação da obra em português, realizada pelo também psicanalista Mario Fleig

Nesta semana, a IHU On-Line debate O futuro do ódio (Porto Alegre: CMC, 2008), de Jean-Pierre Lebrun, psicanalista francês. Para uma introdução ao seu pensamento, publicamos, a seguir, a apresentação da obra em português, realizada pelo também psicanalista Mario Fleig. Após esse texto, cujos subtítulos e adaptação são nossos, publicamos uma entrevista exclusiva, com Lebrun, que com suas próprias palavras explica as nuances desse fenômeno tão comum em nossos dias.

Fleig é professor do curso de pós-graduação em Filosofia da Unisinos e membro da Associação Lacaniana Internacional. Graduado em Psicologia, pela Unisinos, e em Filosofia, pela Faculdade de Filosofia Nossa Senhora Medianeira, é mestre em Filosofia, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), doutor em Filosofia, pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), e pós-doutor em Ética e Psicanálise, pela Université de Paris XIII (Paris-Nord), França. É autor de, entre outros, O desejo perverso (Porto Alegre: CMC Editora, 2008).

Devemos a Hegel  a evidência de que o encontro com o outro é sempre violento e perturbador, seja no cotidiano, seja na aproximação entre culturas diversas. Ele também nos inicia na investigação dos efeitos do encontro com a alteridade, que determinaria as figuras das formações culturais. Esse encontro, em sua diversidade e particularidade, é o que está na base tanto da estruturação de um sujeito como do fato social.

Jean-Pierre Lebrun, em O futuro do ódio, nos convida a retomar a questão do ódio em razão da afirmação de Freud  de que o ódio seria mais originário do que o amor. Lacan  esclarece que o motivo fundamental dessa precedência deve-se ao fato que o ódio é sempre primeiramente o ódio contra o Simbólico, que se instaura com um furo na consistência narcísica.

Lebrun se interroga sobre a especificidade das modalidades de ódio na pós-modernidade e nos apresenta suas hipóteses sobre as novas formas clínicas. Estas aparecem na particularidade do trabalho clínico e no discurso social, que vão desde os fracassos escolares até as toxicomanias, passando pelas crianças hipercinéticas, por todo tipo de adições, dos curtos-circuitos na elaboração psíquica com uma freqüência cada vez maior das passagens ao ato, e encontram em renovadas modalidades de ódio os articuladores de uma nova economia psíquica. Ele discute suas hipóteses com dois interlocutores qualificados: Jean de Munk e Dany-Robert Dufour.

O futuro do ódio poderia ser lido à luz de O futuro de uma ilusão, de Freud, perguntando-nos, depois de cinqüenta anos, se as análises de Lebrun dão conta das mudanças subjetivas e sociais que aconteceram nesse intervalo. Freud afirma, na introdução da obra de 1927, que a civilização abarca, de um lado, todo saber e capacidade que os homens adquiriram para dominar as forças da natureza e utilizá-la em benefício próprio e, de outro lado, todas as normas necessárias para regular os vínculos recíprocos entre os homens. Essas duas direções não se dão separadamente, mas antes se determinam reciprocamente, pois o laço social é profundamente influenciado pela satisfação pulsional que os bens existentes podem proporcionar. Além disso, o ser humano pode ser tomado pelo outro como um objeto a ser usado e explorado, tanto como força de trabalho quanto como objeto de gozo sexual. E finalmente, e aqui está o ponto específico que interessa a Lebrun, todo indivíduo, afirma Freud, “é virtualmente um inimigo da civilização”, e “a civilização deve ser protegida contra os indivíduos, e suas normas, instituições e mandamentos cumprem essa tarefa”.

Homem, inimigo da civilização

Então, o que é o ódio e por que o indivíduo se torna um inimigo da civilização? E por que voltarmos a falar do ódio na atualidade?

Aqui começa a ficar interessante a perspectiva que Lebrun introduz. Ele se propõe a examinar o que denomina de uma mutação do regime simbólico, na qual o gozo não se apresenta mais da mesma maneira. O que de fato acontece é que o lugar da exceção (o chefe, o pai, o mestre, o presidente, o rei, o deus etc.), que permitia o efetivo reconhecimento coletivo da legitimidade de cada sujeito, já não é mais evidente. Essa mutação na exceção, que funda tanto o sujeito quanto o social, determinaria, então, novas formas de ódio e de violência. Essa é, me parece, a hipótese central que Lebrun nos apresenta, a partir da qual seria possível determinar os traços específicos do ódio e da violência na contemporaneidade.

O ódio, mais do que um sentimento ou uma manifestação de explosão violenta, é um fato de estrutura: temos ódio pelo fato de falarmos, assim poderia ser enunciada a afirmação freudiana de que o indivíduo é um inimigo da civilização. A civilização nos impõe sempre um gozo a menos, uma falta, uma restrição, e a isso respondemos com ódio. A questão decisiva, então, é o que fazemos com esse ódio que nos habita pelo fato de estarmos inseridos na linguagem? Quais os destinos do ódio? A quem odiamos?

Ora, Lebrun propõe que na atualidade encontramos novas formas de evitar o ódio, determinando então seu retorno em sintomas novos e inusitados. Se a presença efetiva do outro dá origem a nosso ódio, também acontece sem a sua presença. Nesse caso, seria determinado pelos vestígios de que o outro nos atingiu, pelo menos uma vez, determinando um traumatismo perenizado. Encontramos hoje, afirma Lebrun, soluções de convívio que de antemão impediriam o aparecimento de qualquer conflito no encontro com o outro: desde o recurso de colocar uma televisão em cada quarto, de modo que não haja mais discussão entre os pais e os filhos sobre que programa assistir no horário em que a família estaria reunida, até a modalidade de laço conjugal no qual o outro é a peça menos duradoura, substituída ao primeiro atrito. O evitamento do ódio, nesses casos, se faria por meio de uma espécie de forclusão  do encontro, determinando um modo de viver juntos, mas sem outrem. Aqui se situaria, então, uma gradativa e generalizada deterioração da consistência do outro, tanto do semelhante quanto do Outro como lugar marcado pela falta.

Lebrun se apóia na formulação lógica proposta por Jean de Munk para esclarecer a mutação do laço social: retoma o paradoxo de Russell  e mostra como passamos de um modo de funcionamento que se apresenta como consistente e incompleto (há ao-menos-um que faz exceção ao conjunto e funda sua consistência) para nos organizarmos de acordo com um regime que se pretende completo (não há exceção) e que, conseqüentemente, é inconsistente. Assim, o que hoje se privilegia não é mais a incompletude e a consistência, mas tendemos a nos referir por meio de um regime simbólico que se pretende completo e inconsistente.

É essa mudança de regime simbólico, que perturba inteiramente as referências tradicionais, assinalada pelo advento da democracia moderna. O democratismo é supor que a queda dos protagonistas que figuravam o terceiro (o rei, o deus, o pai do patriarcado etc.) significaria ao mesmo tempo o desaparecimento do lugar lógico da terceiridade. Bem pelo contrário, a linguagem impõe precisamente o lugar da exceção para o bom funcionamento de suas leis. Entretanto, a confusão entre a queda do modelo patriarcal e a pretensa queda do lugar de exceção, pela correlativa prevalência de um modelo completo e inconsistente, determina múltiplos efeitos subjetivos e sociais, próprios da nova economia psíquica.

Um exemplo, para ilustrar, se encontra na substituição do enunciado “tenho ódio de...”, por “tenho ódio!”, que encontramos com muita freqüência na boca das crianças e adolescentes. Como não há mais ponto ideal a partir do qual fazer existir o coletivo (a exceção), mas apenas senhas que valem para todos e permitem o acesso ao gozo que se pretende sem limites, também não há mais abrigo para o singular (o que lhe daria consistência), apenas o lugar para o particular que se destaca desse universal, dito de outro modo, não há mais sujeito capaz de função crítica.

Estaríamos, então, em um mundo completo, sem um lugar de exterioridade que poderia vetorizar a existência e especialmente o ódio. Na carência desse ponto vazio ao qual poderíamos dirigir nosso ódio e de onde proviria a violência como resposta ao nosso ódio, da qual estaríamos protegidos pela legitimidade que a civilização nos dá, emerge um ódio sem endereçamento, e por isso mesmo sem possibilidade de transmutar-se em trabalho cultural. Assim, por exemplo, a força da blasfêmia ou a ação de lesa-majestade se transmutam nas formas impessoais de ódio, como na fórmula do enunciado sem complemento: “estou com ódio”. Então, o ódio não está mais vetorizado, mas penetra em toda parte e não está em lugar nenhum. Só restaria administrar o ódio, na abominação do conflito e na proliferação do ódio ao ódio. Explodem então os ataques às figuras que sustentam o lugar de exceção, e do qual se esquivam rapidamente aqueles que seriam seus legítimos representantes. Por isso podemos afirmar que o ódio é um ataque ao significante e ao lugar que funda o significante, o Outro de cada um e o Outro da cultura.

Lebrun, que não se recusa a discutir suas hipóteses e entra no diálogo sem se esquivar das oposições que o interlocutor possa lhe oferecer, situa o lugar de importância que tem o ódio na vida psíquica e social. Destaca também que devemos introduzir a diferença entre o ódio e o gozo do ódio, ou seja, a satisfação que se pode tirar do fato de concentrar o ódio naquele que está encarregado do lugar de exceção e não direcioná-lo para o vazio no Outro. O assassinato e a violência são formas visíveis de gozar de seu ódio.

O que faremos com nossos ódios?

Leia mais...

Confira outras entrevistas concedidas por Mario Fleig:

* As modificações da estrutura familiar clássica não significam o fim da família. Edição número 150, de 08-08-2005, cujo tema de capa é O pai desautorizado: desafios da paternidade contemporânea;

* Freud e a descoberta do mal-estar do sujeito na civilização. Edição número 179, de 08-05-2006, cujo tema de capa é Sigmund Freud. Mestre da suspeita;

* O declínio da responsabilidade. Edição número 185, de 19-06-2006, cujo tema de capa é O século de Heidegger;

* O delírio de autonomia e a dissolução dos fundamentos da moral. Edição número 220, de 21-05-2007, cujo tema de capa é O futuro da autonomia. Uma sociedade de indivíduos?;

* “Querer fazer o mal parece algo inerente à condição humana”. Edição número 265, de 21 de junho de 2008, cujo tema de capa é Nazismo: a legitimação da irracionalidade e da barbárie.

* O pai moderno dilapidado: efeito do declínio do modelo patriarcal. Edição número 267, de 04-08-2008, cujo tema de capa é A função do pai, hoje. Uma leitura de Lacan.

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