Edição 274 | 22 Setembro 2008

Brasil será atingido pela crise mundial

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Patricia Fachin

Turbulência no mercado financeiro irá afetar a economia real, mas não há risco de recessão econômica, assegura André Filipe Zago de Azevedo. Para ele, a desaceleração das grandes economias “pode contribuir para aliviar o segundo problema”.

A economia mundial enfrenta dois problemas sérios: “menor ritmo de crescimento econômico, especialmente das economias desenvolvidas” e “o aumento da inflação devido ao incremento dos preços das commodities agrícolas e minerais, impulsionados pela manutenção de elevadas taxas de crescimento nos países asiáticos”. A avaliação é do economista e professor da Unisinos André Filipe Zago de Azevedo.

Em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, o economista afirma que, embora o mercado financeiro tenha sido alvo de inseguranças e turbulências, não há motivos para pânico. Segundo ele, a desaceleração das grandes economias “pode contribuir para aliviar o segundo problema”, ou seja, “o aumento de preços das commodities, reduzindo a pressão da demanda sobre alimentos e petróleo”. Em breve avaliação do cenário latino-americano, Azevedo garante que o Brasil também será afetado pela crise. “Os países latino-americanos irão sofrer devido redução dos preços das commodities agrícolas e minerais, que já está ocorrendo. Como boa parte de suas exportações consiste desses produtos, o valor de suas exportações será afetado pela crise”.

Azevedo é graduado e mestre em Economia, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), e doutor em Economia, pela University of Sussex, Inglaterra. É coordenador do Programa de Pós-Graduação em Economia na Unisinos.

IHU On-Line - Como podemos compreender a crise no sistema financeiro internacional?

André Filipe Zago de Azevedo - Ela é resultado, em grande parte, da crise surgida no mercado imobiliário norte-americano, no ano passado. A crise surgiu no mercado de crédito chamado de subprime,  quando a inadimplência cresceu significativamente. As causas deste crescimento da inadimplência estão associadas a três fatores principais: 1) elevação da taxa básica de juros nos EUA (80% dos empréstimos subprime estão atrelados a taxas flutuantes); 2) queda dos preços dos imóveis a partir de 2006, com a conseqüente redução do efeito-riqueza; 3) regulação ineficiente do sistema de crédito imobiliário, especialmente no mercado subprime.

IHU On-Line - Além da crise financeira americana, que outros motivos têm contribuído para a insegurança do sistema financeiro internacional?

André Filipe Zago de Azevedo - A economia mundial vem enfrentando dois problemas sérios, atualmente. O primeiro se refere ao menor ritmo de crescimento econômico, especialmente das economias desenvolvidas, provocado justamente pela crise imobiliária norte-americana que teve início ainda em 2007, afetando o sistema financeiro e comprometendo o crescimento do consumo e investimento na maior parte dos países desenvolvidos. O segundo está relacionado ao aumento da inflação devido ao incremento dos preços das commodities agrícolas e minerais, impulsionados pela manutenção de elevadas taxas de crescimento nos países asiáticos, que continuam a pressionar a demanda por esses produtos. Um efeito positivo da redução do ritmo de crescimento das economias avançadas é que ele pode estar contribuindo para aliviar o segundo problema mencionado, relacionado ao aumento de preços das commodities, reduzindo a pressão da demanda sobre alimentos e petróleo.

IHU On-Line - O que explica uma crise internacional como essa? A crise poderia ou devia ter sido prevista com antecedência?

André Filipe Zago de Azevedo - A crise se propagou porque os bancos e financeiras norte-americanos emprestaram o dinheiro das hipotecas do tipo subprime e transformaram este crédito em títulos que venderam a investidores. Vários investidores (nacionais e internacionais) se dispuseram a comprar estes títulos de maior risco, pois pagavam uma taxa de juros mais elevada. Na medida em que houve o crescimento da inadimplência dos empréstimos subprime no mercado imobiliário, isto levou a um efeito cascata, levando os bancos a não pagarem os títulos, gerando uma crise de liquidez que se espalhou para todo o sistema financeiro internacional.

IHU On-Line - Essa crise no setor financeiro pode gerar uma crise na economia real?

André Filipe Zago de Azevedo - Sim, especialmente nos países desenvolvidos, como EUA,  Japão e os componentes da União Européia. Mas a crise se define como uma desaceleração do crescimento econômico e não como uma depressão econômica.

IHU On-Line - É possível isolar a economia real das conseqüências da instabilidade financeira?

André Filipe Zago de Azevedo - Isolar não, mas é possível amenizar seus efeitos na economia real, mantendo as taxas de juros nos patamares atuais (historicamente baixos nos EUA, União Européia e Japão) e promovendo ações coordenadas dos Bancos Centrais dos EUA, Europa e Japão para garantir liquidez ao sistema financeiro, como já está ocorrendo.

IHU On-Line - A crise nos EUA iniciou com o sistema imobiliário, afetou o sistema bancário e agora parece estar atingindo as seguradoras. O mundo corre o risco de viver uma crise sistêmica, ou isso já está acontecendo? Vamos assistir à quebra em cadeia de algumas instituições?

André Filipe Zago de Azevedo - Aquelas instituições mais expostas ao risco, especialmente aqueles que haviam investido fortemente em títulos ligados ao mercado subprime, já quebraram ou estão passando por dificuldades. No entanto, as medidas acima mencionadas devem evitar que ocorra uma crise sistêmica.

IHU On-Line - Como o senhor percebe a atuação do Fed de injetar U$ 85 bilhões para salvar a seguradora American International Group (AIG)? O governo pode estabilizar o sistema financeiro?

André Filipe Zago de Azevedo - O Fed parece estar agindo baseado em um critério: o de minimizar o efeito multiplicador da crise. Ou seja, aquelas instituições que a falência traria problemas para muitas outras estão sendo ajudadas e outras, onde o impacto seria mais limitado, não.

IHU On-Line - Essa crise pode ser comparada a de 29? Diferente do que ocorreu à época, hoje é possível atenuar a crise e corrigir seus efeitos?

André Filipe Zago de Azevedo - Em hipótese alguma. Aquela crise gerou uma queda de 25% do PIB e do emprego nos EUA. É impensável que isto ocorra nos dias de hoje, com todo o conhecimento que se tem sobre política monetária. Além disso, o próprio Presidente do Fed é um acadêmico com grande conhecimento das causas da crise de 1929. Portanto, não há riscos que haja algo sequer parecido com aquela crise. O que deve haver é uma redução do ritmo do crescimento em algumas nações desenvolvidas, uma ou outra entrando em recessão, mas jamais uma depressão econômica generalizada como aquela de 1929.

IHU On-Line - Alguns especialistas dizem que essa é a pior crise dos últimos 70 anos. Quais são os impactos dela para a economia latino-americana?

André Filipe Zago de Azevedo - Depende para quem. Para as empresas que pediram concordata, como o Lehman Brothers, que havia investido fortemente em títulos ligados ao mercado subprime, sem dúvida essa foi a maior crise dos últimos 70 (o banco foi fundado em 1850). Mas não se pode nem se deve generalizar. Os países latino-americanos irão sofrer devido à redução dos preços das commodities agrícolas e minerais, que já está ocorrendo. Como boa parte de suas exportações consiste desses produtos, o valor de suas exportações será afetado pela crise.

IHU On-Line - Que lições essa crise pode trazer para as instituições financeiras e para os governos?

André Filipe Zago de Azevedo - Uma regulação mais rígida em determinados mercados, especialmente o subprime nos EUA pelo governo, e um cuidado maior na concessão de empréstimos, especialmente quando há um excesso de liquidez no sistema.

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