Edição 273 | 15 Setembro 2008

Teresa de Ávila. Mulher plenamente humana e toda de Deus

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Bruna Quadros

Para Lúcia Pedrosa de Pádua, a principal luz da espiritualidade de Santa Teresa é mostrar a dimensão humanizadora da espiritualidade cristã

No dia 19 de setembro, o Instituto Humanitas Unisinos – IHU realiza a segunda e última jornada do evento Espiritualidade Cristã na Pós-modernidade: desafios e perspectivas. Na ocasião, um dos temas a serem discutidos serão as características e contribuições da espiritualidade de Santa Teresa para os dias de hoje. A Profa. Dra. Lúcia Pedrosa de Pádua, docente na PUC-Rio, irá proferir duas conferências sobre o tema. Em entrevista concedida por e-mail à revista IHU On-Line, ela afirmou que Teresa é um bom testemunho que anima uma maior audácia evangelizadora, com criatividade, justiça, amor e muita humildade. Lúcia destacou, ainda, que considera muito importante o papel dos/as teresianistas, dispostos a aprofundar na obra de uma escritora tão importante para a humanidade e a história da espiritualidade, como é Teresa de Ávila, tirando dessa vida e obra as conseqüências para a espiritualidade cristã, hoje.

Lúcia Pedrosa possui doutorado em Teologia, pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), e pós-doutorado em Teologia da Espiritualidade, pela Pontificia Università Gregoriana de Roma (Itália). Atualmente, é professora de Teologia e Cultura Religiosa na PUC-Rio, exercendo também a função de Coordenadora da Cultura Religiosa (CRE). É professora de Cristologia no Centro Loyola de Fé e Cultura, também da PUC-Rio. Coordena o Ataendi, Centro de Espiritualidade da Instituição Teresiana no Brasil e é membro da Comissão de Teólogas da América, da Instituição Teresiana.

IHU On-Line - Como foi sua aproximação e conhecimento da vida e espiritualidade de Santa Teresa de Ávila?

Lúcia Pedrosa de Pádua - Aproximei-me da vida e da espiritualidade de Santa Teresa ainda nos meus estudos de graduação em teologia, em Belo Horizonte. No que hoje é a Faje (Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia), tive a sorte de encontrar mestres que sabiam unir teologia e espiritualidade e me motivaram para os estudos da Teologia Espiritual. Na Instituição Teresiana, grupo laical ao qual pertenço, pude aprofundar os estudos a partir da Espiritualidade de Encarnação e de uma perspectiva de Teresa como “mulher plenamente humana e toda de Deus”. Considero muito importante o papel dos teresianistas, dispostos a aprofundar na obra de uma escritora tão importante para a humanidade e a história da espiritualidade, como é Santa Teresa, tirando dessa vida e obra as conseqüências para a espiritualidade cristã, hoje.

IHU On-Line - Quais são os fatos mais importantes da vida de Teresa e que marcam sua espiritualidade?

Lúcia Pedrosa de Pádua - Destacaria quatro fatos importantes. O primeiro, a sua forte experiência de amizade com Jesus Cristo, descrito por ela como Humanidade sagrada. O encontro decisivo com esta realidade do Cristo interpelador e amigo se dá quando Teresa tinha 39 anos e significou para ela uma verdadeira conversão. Mas a experiência se desenvolve, trazendo um progressivo amadurecimento na sua imagem de Deus, que, através da proximidade de Cristo, vai se revelando como amor comprometido com a humanidade. Nesta relação, Teresa passa por uma progressiva transformação de sua vida, opções e afetos. Transformação que faz dela uma mulher muito humana e capaz de amar com coragem e audácia, em meio a conflitos. Outro fato, anterior, é a fuga de casa, aos 19 anos. Teresa vai ao encontro da sua intuição profunda, do que considera o seu chamado, mesmo contra a vontade do pai. O terceiro fato é o início de sua vida como escritora, por volta de 50 anos de idade. Embora já tivesse realizado outros registros escritos, nesta época ela escreve a nova e definitiva redação do Livro da vida e assumirá sua condição de escritora com responsabilidade profética, até o fim de sua vida, aos 67 anos. Por fim, o início das fundações, aos 47 anos (até o fim da sua vida). Nelas, a sua experiência interior se explicita e adquire maior alcance eclesial.

IHU On-Line – Por que a pessoa e a obra de Teresa de Ávila é tão altamente reconhecida tanto na Igreja (o Papa Paulo VI conferiu-lhe o título de Doutora da Igreja) quanto por ateus e livres pensadores?

Lúcia Pedrosa de Pádua - A proclamação de Santa Teresa como doutora da Igreja, em 1970, é a oficialização de um reconhecimento bem anterior. Os escritos de Santa Teresa tiveram aceitação e edição ininterrupta desde a primeira edição, em 1588. Aliás, antes, durante sua vida, ela mesma já manifestava consciência de exercer um magistério, através de seus livros, no que diz respeito à vida cristã e à oração. Seu êxito junto a ateus e livre-pensadores pode ser buscado na empatia que Teresa estabelece com o leitor de todos os tempos, na relevância e verdade de seus escritos, na sua inquestionável qualidade literária, no interesse histórico de suas valiosas descrições, em sua estatura humana e por apresentar um testemunho impressionante do mistério de Deus atuante na vida humana.

IHU On-Line - Teresa trouxe uma renovação para Igreja. Quais são hoje as renovações que as mulheres cristãs deveriam realizar?

Lúcia Pedrosa de Pádua - Teresa é um bom testemunho que anima uma maior audácia evangelizadora, com criatividade, justiça, amor e muita humildade. Em relação às mulheres, penso que seja exemplo para buscar relações mais recíprocas entre homens e mulheres, baseadas no reconhecimento mútuo e na valorização das diferenças; buscar maior integração das potencialidades femininas, especialmente as de organização e governo; deslocar os limites do possível na construção de um “outro mundo”.

IHU On-Line - Seus escritos, como Livro da vida e Caminho de perfeição, revelam uma mulher apaixonada pelo mistério de Deus e mostram também sua sabedoria na comunicação e acompanhamento no caminho espiritual. Quais são as principais luzes do itinerário espiritual que Teresa propõe? Que importância elas têm para a espiritualidade cristã contemporânea?

Lúcia Pedrosa de Pádua - A principal luz da espiritualidade de Santa Teresa é mostrar a dimensão humanizadora da espiritualidade cristã. A busca de Deus significa ao mesmo tempo um encontro com uma forma de ser humano e conformar a vida de maneira cada vez mais livre, autêntica, amorosa, operativa e ética. O Livro da vida, autobiográfico, é o encontro de Teresa com o Deus-Cristo amigo que dá a Teresa o verdadeiro sentido e dimensão de sua vida, e desencadeia um dinamismo multidimensional. Este itinerário é iniciado pela oração, e esta é comparada ao ato de regar o jardim. Por isto, a vida espiritual pode ser comparada a um florescimento. Em Caminho de perfeição, vemos novamente o itinerário da oração como relação com Deus em Jesus Cristo, sempre inseparável da vida. Esta amizade é o único “caminho” por onde chegar a bom termo. Teresa oferece inúmeras “dicas” para esta relação. Também em Castelo interior ou moradas, vemos um verdadeiro tratado de antropologia indutiva, uma pergunta pela pessoa humana a partir da experiência de Deus. Este encontro entre a humanização e a experiência de Deus é muito importante para a espiritualidade contemporânea, para não cairmos em espiritualidades vazias, individualistas, egoístas ou formais.

IHU On-Line - O que esta mulher que viveu no século XVI tem a dizer para o mundo de hoje?

Lúcia Pedrosa de Pádua - Que Deus existe e Ele é amor; que Ele fala, que é possível acolhê-Lo, e que nesta relação a pessoa e a comunidade são transformadas em uma direção a mais vida, com mais justiça, mais reconhecimento, mais amor.

Saiba mais:

Teresa de Ávila nasceu em 1515, em Ávila, Castela, e faleceu em 1582. Foi uma freira carmelita espanhola famosa reformadora da ordem das Carmelitas. Canonizada por Gregório XV (1622), é festejada na Espanha em 27 de agosto, e no resto do mundo em 15 de outubro. Foi a primeira mulher a receber o título de doutora da igreja, por decreto de Paulo VI (1970). Entre seus livros, citam-se Libro de su vida (1601), Libro de las fundaciones (1610), Camino de la perfección (1583) e Castillo interior ou libro de las siete moradas (1588). Escreveu também poemas, dos quais restam 31 deles, e enorme correspondência, com 458 cartas autenticadas. Sobre Teresa, confira Teresa - A santa apaixonada (Rio de Janeiro: Objetiva. 2005), de autoria de Rosa Amanda Strausz. De Teresa, ver Livro da vida (4. ed., São Paulo: Ed. Paulus, 1983) e Obras completas (São Paulo: Loyola, 1995).

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