Edição 273 | 15 Setembro 2008

Juventude: idêntica e diferente

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Patricia Fachin

Hilário Dick avalia os resultados da pesquisa do Datafolha, sobre o perfil do jovem do século XXI

Podemos dizer que o jovem contemporâneo é conservador, acomodado? Para o pesquisador Hilário Dick, militante experiente e engajado com a juventude, a resposta é negativa. Ao comentar, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, os percentuais apresentados pela pesquisa do Datafolha, publicada no jornal Folha de S. Paulo, no mês de julho deste ano, ele afirma que os dados revelam “falta de amadurecimento”. E dispara: “Os jovens, apesar de tudo, não deixam de repetir o que a sociedade” e os “meios de comunicação social apresentam como vontade popular”.

Dick é graduado em Teologia, pela Pontifícia Faculdade do Colégio Máximo Cristo Rei, e em Filosofia e em Letras, pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos). Mestre e doutor, também em Letras, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), é coordenador do Observatório Juvenil do Vale/Unisinos. Entre seus vários livros publicados, citamos Gritos silenciados, mas evidentes - Jovens construindo juventude na história (São Paulo: Loyola, 2003) e Cartas a Neotéfilo - Conversas sobre assessoria para grupos de jovens (São Paulo: Loyola, 2005).

IHU On-Line - O senhor desenvolve trabalhos com a juventude há 35 anos. Como percebe a realidade dos jovens, atualmente? A juventude, nesse período, mudou muito a sua postura política e social?

Hilário Dick - Muitos educadores trabalham com jovens há mais de 35 anos. A novidade talvez esteja na maneira como estou nesse campo, de algum modo fora de instituições como a escola, a universidade (pelo menos como professor) e, até, como pai de família ou vigário de alguma paróquia. Embora trabalhe em instituições formais de educação da juventude, o que caracteriza a minha missão é o espaço informal, aonde os “clientes” vão porque querem, como opção pessoal e não como obrigação da sociedade, da família e do próprio sistema. Secundarizei a carreira magisterial formal para exercer o magistério de outro modo. Atrevo a chamar-me, de educador de jovens através de cursos, encontros, escritos, pesquisas, assembléias, retiros, acompanhamento de grupos e de coordenações, formação de assessores/as de jovens etc. Esta informalidade tem muito a ver com desvio social, procurando fazer o mesmo de outra forma, em desvios necessários para qualquer instituição. Essa outra forma na intervenção e no estudo de jovens faz que a percepção da realidade juvenil seja outra. Oportuniza-se a possibilidade de ouvir um outro discurso juvenil, cuja alteridade é necessária para uma visão integral.

Assim como tivemos um feudalismo, temos agora um lento (rápido?) caminho capitalista, onde os valores norteadores vão tomando feições específicas. Essa mudança vivida por todos é diferente no adulto e no jovem. Este pega o trem andando. Andamos no mesmo trem, mas as estações de embarque são diferentes. O que alguns já viram faz pensar que a “próxima estação” seja semelhante. O mesmo não ocorre com os que estão embarcando pela primeira vez.  Vêem coisas que os antigos são levados a não ver. Estar aberto a esta novidade do não visto nem vivido é um desafio que se apresenta para qualquer educador de jovens. A beleza está na capacidade de não estar carregando somente velharias ou caminhos já feitos. Assim como a eterna novidade pode ser um mal, a eterna velhice é, certamente, uma desgraça. É o que me faz pensar que a juventude é sempre o idêntico e o diferente. A história ensina que o estabelecido, o já vivido etc., tem a tendência de acomodar-se porque o novo, além de ser imprevisível e inseguro, incomoda. Mesmo que saibamos que tudo é processo, existe um gosto profundo na acomodação porque somos levados a pensar que o mistério não existe. A convivência com a juventude em ambiente informal, por isso, marcou-me e me marca e me faz, também, social e politicamente inquieto. 
 
IHU On-Line - É possível traçar um perfil único de jovem do século XXI? Em que medida as diferenças de classe criam universos juvenis diferentes?

Hilário Dick - Sem deixar de dizer que precisamos de parâmetros para a análise da realidade juvenil, a juventude não existe. Sem acreditar que se impõe a impossibilidade de falar validamente de coisas genéricas, o que faz a diferença não é só o lado econômico. É preciso ter presente – dentro de um parâmetro - os aspectos psicológico, cultural, sociológico, biológico (cronológico), o jurídico e – uma descoberta mais recente – o teológico.  Claro que há universos juvenis diferentes, mas se complementam. O “relógio da biologia” feminina, por exemplo, não é o mesmo no rapaz e na menina; uma menina ou um rapaz da periferia pobre não é o mesmo do rapaz do centro; um jovem negro ou uma jovem negra não é o mesmo de um jovem ou uma menina brancos; a geração dos anos 1960 não é a mesma da geração de 2004; o/a jovem do interior do sertão nordestino não é o/a mesmo/a do/a jovem que nasceu em Blumenau, divertindo-se com roupas típicas na Oktoberfest. A juventude é a mesma? Repito: precisamos de parâmetros.
 
IHU On-Line - 68% dos jovens entrevistados pelo Datafolha são favoráveis à criminalização do aborto, 50% defendem a pena de morte, 72% são favoráveis à criminalização da maconha. Esses percentuais demonstram que o jovem brasileiro está mais conservador?

Hilário Dick - A pesquisa apresenta a postura dos/as jovens sob vários aspectos: o aborto, a pena de morte, a maconha, a idade mínima para ir à prisão (redução da maioridade penal), o acompanhamento ao noticiário político, a postura política e sobre a importância de 11 itens (família, saúde, trabalho, estudo, lazer, amigos, religião, sexo, dinheiro, beleza e casamento), contexto em que aparecem as percentagens apontadas. Olhando esse quadro, podemos dizer que os valores que estão no topo são a família, a saúde, o trabalho e o estudo (todos acima de 90%) e que os que estão na base são o dinheiro, a beleza e o casamento (na base dos 70%). No meio desses dois extremos, um tanto perdidos, estão o lazer, os amigos, a religião e o sexo. Pode-se dizer que há discursos estranhos com relação ao significado do dinheiro e da beleza (aparência) e com relação à importância que tem o lazer, os amigos, a religião e o sexo – assuntos que mereceriam aprofundamento. Os dados citados não revelam conservadorismo; revelam falta de amadurecimento. As respostas são da “flor da pele”; não são de raiz porque foram induzidas.

IHU On-Line - Como compreender que 68% dos jovens defendem a criminalização do aborto e em contra partida, 46% são favoráveis à idade penal entre 16 e 17 anos?

Hilário Dick - Os jovens, apesar de tudo, não deixam de repetir – principalmente em assuntos como estes – o que a sociedade e o sentimento são levados a dizer e, de modo muito especial, o que os meios de comunicação social apresentam como vontade popular. Qual a opinião que eles encontram com adultos, educadores sobre este assunto? Qual a argumentação que bebem para irem amadurecendo seu posicionamento? Quem é, nesse assunto, conservador? Quem colocou no meio do campo a discussão de que a diminuição da maioridade penal seria a solução? Certos assuntos não se resolvem pela percentagem de opiniões, mas de formação de consciências.

IHU On-Line - O jovem do século XXI ainda trata questões referentes à sexualidade e ao aborto como um tabu?

Hilário Dick – Mesmo que pareça que não, há sintomas que dizem que sim. Voltando à pesquisa do Datafolha, ela fez duas perguntas para as mulheres: se elas já fizeram aborto e se alguma amiga delas já fez aborto. O resultado é estranho: se somente 4% admitem que já fizeram aborto (as que mais admitem são as que têm de 22 a 25 anos), 33% afirmam saber de amigas que fizeram e 57% dizem não ter informação sobre isso. Seria medo ou certo tipo de solidariedade, procurando esconder o que sabem? No mínimo, estamos frente a um tabu, mesmo que signifique falta de informação. Por outro lado, pesquisar a vivência sexual da maneira como se vê, também em pesquisas, muitas vezes como mera curiosidade, não é tabu?

IHU On-Line - Como o senhor percebe a atuação política dos jovens brasileiros? O fato de eles não estarem engajados com tanta veemência nos partidos políticos demonstra uma apatia política, ou pelo contrário, isso significa que eles estão buscando outras maneiras de “fazer política”?

Hilário Dick – Respondo com dados que a pesquisa oferece. Ela fez duas perguntas: uma sobre que tipo de organização o/a jovem participa e outra sobre a religião deles/as. Por um lado, vemos que 45% afirmam que não participa e, por outro, vemos que 39% participam das igrejas, 24% de trabalho voluntário, 12% de organizações ecológicas, 18% de entidades estudantis, 7% de partidos políticos etc. Para a minha matemática, estes dados significam que 55% de jovens se afirmam partícipes e ser partícipe é ser político. A apatia juvenil é afirmada por quem ainda não aprendeu ou não quer aprender a ler os discursos que os jovens fazem.

IHU On-Line – Você relacionaria essas reflexões com o que escreve em “Emergências e percepção de novos valores na juventude”?

Hilário Dick - Um desafio que se apresenta, tratando de juventude, é o da capacidade não só de saber ver emergir alguns fenômenos juvenis, mas saber perceber o significado dessa emergência. A reflexão completa que faço sobre isso pode ser encontrada no blog do Observatório Juvenil do Vale (www.observatoriojuvenildovale.Blogspot.com). O Maio de 68,  por exemplo, emergiu mundialmente de forma impressionante. Até hoje se está percebendo o que sucedeu 40 anos atrás. Trata-se de entender o discurso da juventude não só no que eles defenderam, escreveram, mas também no que fizeram e nem sabiam o que estavam dizendo. Lendo as percentagens de uma pesquisa estamos querendo ler um discurso. Por isso, na pesquisa sobre a emergência de valores na juventude de São Leopoldo (RS), intitulamos a publicação da leitura dos dados de “Discursos à beira do Sinos”;  numa outra pesquisa em andamento, estamos querendo ler a percepção dos/as jovens sobre a violência. É a importância do “discurso”. Estou convicto, além disso, de que na leitura que se faz sobre a realidade juvenil não pode faltar a vontade de entender “as sementes ocultas do Verbo” (Vaticano II, Gaudium et Spes) manifestando-se na juventude, sendo a juventude um “lugar” ou uma “realidade” teológica. Uma qualidade do pesquisador sobre juventude é estar encantado com ela, o que não rouba, mas enriquece a objetividade científica que precisa haver no estudo da realidade juvenil.

IHU On-Line - Que importância o jovem atribui à aparência? Em que medida esse percentual pode ser analisado como negativo ou positivo para a juventude?

Hilário Dick - Pela idade e pelo momento que o/a jovem vive a aparência é fundamental. Eles gostam e têm direito de aparecer para dizer que “estão aí” e que são bonitos/as. O consumo, contudo, se aproveita disso e todos vemos a importância que vai tendo o corpo. A utopia social é substituída pela utopia corpórea. A utopia sou eu mesmo; o outro/a não existe. A utopia é o próprio umbigo. É o uso ideológico do corpo juvenil. O item da aparência merece duas páginas da Folha de S. Paulo, embora tenham sido feitas somente cinco questões relacionadas à aparência e que não deixam de sair do campo do exótico: a aparência em geral, o peso, as partes do corpo dos quais o/a jovem gosta mais e menos, sobre o desejo de fazer plástica e sobre algum tipo de atividade física. Impressiona a pormenorização das partes que os jovens querem mais e menos, do cabelo aos pés. Se a auto-estima é fundamental, a auto-estima que se vê fomentada é uma desgraça.

IHU On-Line - O que esse “espírito jovem” lhe ensinou até agora?

Hilário Dick - Se entendi bem a pergunta, ela se refere ao proveito que se tira no trabalho com a juventude no espaço informal. Todos deveriam ter, na vida, uma causa. Uma causa que seja compromisso e fonte de realização. Uma causa que não seja algo externo. Ela se deve enraizar nas entranhas. Ela precisa ser “comida” e “ruminada” todo dia. Assim como nos alimentamos nela, ela nos “come” e nos “rumina”. É uma dimensão da vida que, apesar de ser vivida por um/a idoso/a, ajuda a sabermos ver, em tudo, a novidade do mistério que é o universo. O/A jovem não quer ver no adulto alguém que se iguale com ele/a, mas alguém no qual podem ler, na velhice do universo, no/a adulto/a, no avô ou na avó, que a vida é novidade. Diria que amar a juventude é uma graça e a graça não se compra nem é fruto de uma atitude meramente voluntarista.

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