Edição 273 | 15 Setembro 2008

Uma fé dinâmica e atualizada

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Patricia Fachin

Para Lourival Rodrigues da Silva, os jovens buscam novas formas de expressar a fé, de maneira mais dinâmica e atualizada

Motivados pela necessidade de vivenciar uma experiência sagrada, “que lhes dê sentido à vida”, os jovens de hoje se sentem mais animados a seguir uma religião, afirma Lourival Rodrigues da Silva, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. Para a juventude, a religião “é um manto protetor, de segurança e sentido frente ao mundo cheio de ameaças”, explica o especialista. Essa adesão de jovens ao mundo religioso, apontada em recente pesquisa realizada pelo Datafolha, é justificada porque “existe uma busca para preencher um vazio que passou a tomar conta das pessoas. No tempo do ‘ser’, do ‘aparecer’ todos querem ser aceitos, reconhecidos, incluídos”. Na incansável busca da realização, “terá sucesso a religião que responder às necessidades concretas das pessoas. A onda neopentecostal exerce sobre a juventude uma atração ligada a experiências afetivas e pessoais”, aponta.

Lourival Rodrigues da Silva é graduado em Direito, pela Faculdade de Educação e Ciências Humanas de Anicuns, especialista em Juventude, pela Unisinos, e mestre em Ciências da Religião, pela Universidade Católica de Goiás. Atualmente, é coordenador da pós-graduação em Adolescência e juventude no mundo contemporâneo, projeto da Rede Brasileira da Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje).

IHU On-Line - Que juventude se discute na academia brasileira?

Lourival Rodrigues da Silva - O debate sobre a juventude nas universidades segue a mesma onda em outros grupos sociais no Brasil e na América Latina. Uma pesquisa sobre o estado da arte (1999 a 2006), coordenada pela professora Marilia Sposito,  constatou que há 24 mil pesquisas só nas áreas de Educação, Serviço Social e Ciências sociais, o que aponta para o surgimento de um campo de juventude na academia brasileira. Inicialmente, estudos sobre juventude na academia ficaram em torno das questões da vulnerabilidade e violência, passando também pelas questões da inclusão social de adolescentes e jovens. Recentemente, o tema tem se ampliado com as reflexões sobre a diversidade juvenil, negritude, sexualidade, gênero, ao mesmo tempo em que cresceram visivelmente as pesquisas sobre a participação social e as políticas públicas da juventude. No entanto, muitas pautas estão inviabilizadas, com necessidade de pensar o sujeito jovem em suas condições e relações com outros grupos. Os Observatórios de Juventude surgem do acúmulo de pesquisa e articulação da tematização da juventude. Experiências de latus sensus têm sido realizadas em algumas universidades.
 
IHU On-Line - Nos anos 1960, a juventude tinha amplo apoio da Igreja nas lutas políticas e sociais. Hoje, o jovem está desamparado por uma instituição que lhe dê animo para lutar por novos sonhos e direitos, ou pelo contrário, as instituições permanecem, mas as reivindicações e os valores dos jovens são outros?

Lourival Rodrigues da Silva - Não acredito que as instituições de hoje tenham menos opção e apoio para a juventude do que nos anos 1960. Pelo contrário, observa-se um grande número de organizações, entidades, Institutos e ONGs, que têm seu foco e missão voltados para as questões da juventude, inclusive no que se refere à participação política e social.  Os valores dos jovens de hoje vêm carregados de outros valores, é inegável. A juventude tem buscado pontuar as reivindicações a partir de suas crenças, seja nas questões de estudo, trabalho, constituição de família, seja na defesa de ideologias.

IHU On-Line – Com a mudança de valores, a juventude abandonou a mística revolucionária?

Lourival Rodrigues da Silva – Seria necessário esclarecer de que juventude universitária estamos tratando, pois existem duas juventudes na universidade: uma que teve condições dignas de estudo, e que está ocupando os melhores cursos nas universidades públicas; e outra que estudou em escolas públicas de qualidade duvidosa, que organiza seu tempo para estudar e trabalhar. Existem, sim, jovens universitários que têm sonhos e acreditam em uma mística revolucionária; basta observar as manifestações diversas. Claro que não é a grande maioria – que, aliás, em época alguma foi -, o que não invalida suas “bandeiras”. Os jovens possuem muitas bandeiras, mas com a cara e rosto de hoje.

IHU On-Line – Então como ocorrem as manifestações políticas dos jovens, atualmente?

Lourival Rodrigues da Silva - Há uma visão geral de que a juventude de hoje não participa de manifestações políticas, e que a geração dos anos 1960, sobretudo 68, foi a que mais contribuiu. Pesquisas têm demonstrado que nem todos os jovens se envolvem diretamente em participação política. Todavia, a juventude deste milênio possui traços diferenciados em relação àqueles dos jovens de décadas passadas, pois sofrem influências diretas do mundo pós-moderno e globalizado. As mobilizações dos jovens dos anos 60 e 70 foram políticas. Hoje, elas são mais culturais. Os jovens têm duas posturas sobre a participação política: acreditam e sentem que ela é importante, mas, por outro lado, eles não têm disponibilidade e motivação para as formas tradicionais de se fazer política. No Brasil, a democracia representativa criou uma visão elitista no que se refere à capacidade de participar e dar opinião. Esses critérios de representação criaram um funil em que poucos são envolvidos e escutados. Os mais afetados com essa postura são os jovens dos setores de baixa renda. Eles enfrentam problemas de inserção social que refletem diretamente nas expectativas, condições socioeducacionais e de ocupação profissional. Essa condição os inferioriza nas aspirações de serem destinatários das promessas dos meios de comunicação, da escola e do sistema político. A juventude, marginalizada, tem dificuldade de participação política pela falta de formação, dificuldade de acesso a espaços em suas próprias localidades. Mesmo com todos esses desafios, os jovens têm procurado superar a autonegação, assumindo sua realidade e auto-estima.

Ações concretas

As formas de participação política da juventude estão marcadas pelas redes, as quais têm se constituído como células para construção de vínculos entre jovens que têm um mesmo desejo.
A idéia da rede carrega a leveza de uma estrutura descentralizada e com maior liberdade de diálogo entre os participantes. A Internet é o maior exemplo disso. É necessário reconhecer os jovens como sujeitos de direito, portadores de capacidades e potencialidade para a atuação, participação, intervenção, definição dos rumos de suas vidas, e não somente como dependentes das concepções e limites impostos pelo mundo adulto.

IHU On-Line - Segundo a pesquisa do Datafolha, apenas 10% dos jovens entrevistados não seguem uma religião. Qual a relevância das igrejas e das crenças na vida do jovem brasileiro?

Lourival Rodrigues da Silva - A religião para os jovens brasileiros é muito importante. Eles buscam novas formas de expressar a fé de maneira mais dinâmica e atualizada.
Considero que a juventude tem três atitudes em relação à religião: ela é importante, cabe a cada um acreditar do seu modo; acreditam e participam, se limitando a participações eventuais ou acreditam e participam ativamente dos grupos da igreja; e buscam o espaço religioso, motivados pela necessidade de vivenciarem uma experiência sagrada, que lhes dê sentido à vida. Esse sagrado é menos exigente e não institucional. A religião para eles é um manto protetor, de segurança e sentido frente ao mundo cheio de ameaças. É uma religião mais privada, sem preocupação pelas necessidades dos outros.
Existem nas igrejas - como em outros ramos da sociedade - dois tipos de jovens. O primeiro é o de contestadores, que buscam outros modelos de praticar a fé, que apresentam uma postura crítica referente aos cultos e missas. Eles acham esses eventos desinteressantes, demorados, desatualizados. Reclamam ainda da hipocrisia, das proibições dogmáticas, das cobranças, das taxas, e do autoritarismo etc. Pautam sua ação na doutrina social, atuando na perspectiva da formação processual. O segundo grupo é constituído por aqueles que defendem uma postura mais conservadora, da preservação de valores e dogmas.

IHU On-Line - As opiniões dos jovens em relação ao sexo e ao uso de contraceptivos são, em boa medida, diferentes das defendidas pela Igreja Católica. Como o senhor percebe essa opção da juventude?

Lourival Rodrigues da Silva - Há uma necessidade de abertura por partes das igrejas na forma de lidar com o corpo e a sexualidade. A religião é uma escola pessoal, na qual as pessoas querem viver o sagrado, mas desejam, por outro lado, estar livres para definirem suas práticas.

Creio que os jovens que têm mais consciência do seu corpo, dos riscos que correm, estão se protegendo, sem que isso interfira em sua fé. Eles não se sentem culpados com as proibições de bispos ou pastores.

IHU On-Line - Em contrapartida, outro fenômeno tem chamado atenção nos últimos anos: a freqüente adesão de jovens a igrejas evangélicas que prometem sucesso profissional e um futuro promissor. Essas instituições defendem ainda o sexo após o casamento. Que jovem é esse que está em busca de “valores morais”?

Lourival Rodrigues da Silva - Existe uma busca para preencher um vazio que passou a tomar conta das pessoas. No tempo do “ser”, do “aparecer”. todos querem ser aceitos, reconhecidos, incluídos. Assim, terá mais sucesso a religião que responder às necessidades concretas das pessoas. A onda neopentecostal exerce sobre a juventude uma atração ligada a experiências afetivas e pessoais.

A religião passou a adequar-se aos aspectos neoliberais e mercadológicos, prometendo melhoras materiais e de consumo. A resposta principal para este sucesso promissor está pautada em uma teologia da retribuição, em que a negociação com a divindade é a moeda de troca. Esse modelo de espiritualidade emocional e de grandes eventos é aceito pelas igrejas e reforçado como condição de sobreviver com maior número, e sem a perda de fiéis. Assim, a religião, com seu sistema de práticas, consegue influenciar no modo de ser e se comportar dos jovens, apresentando-lhes motivações e simbologias para seu existir. Algumas igrejas têm buscado responder a este apelo juvenil, oferecendo espaços mais dinâmicos aos jovens. Utilizam instrumentos musicais: baterias e guitarras. Os evangélicos e o Movimento Carismático Católico têm buscado uma “abertura” para a diversidade juvenil. Ouvem-se shows com danças e músicas de rock pop, gospel, hip hop, funk, country e até mesmo sertanejo, em contraste com os mantras dos mosteiros e os cantos reivindicatórios. Há os que desejam uma religião com centralidade nas emoções, em que a figura da autoridade é muito importante. Novamente, creio que este modelo de religião responde não só aos jovens, mas a outras pessoas que querem sentir segurança frente à realidade.

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