Edição 273 | 15 Setembro 2008

Movimento estudantil: um resquício do passado?

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Patricia Fachin

A militância está sendo substituída pelo trabalho voluntário, mas este não tem o mesmo impacto transformador e desafi ador, considera Luís Antonio Groppo

Questionado sobre quem são os jovens militantes engajados ao movimento estudantil, o sociólogo Luís Antonio Groppo é enfático: “São uma porção residual das atuais juventudes estudantis, uma minoria que pode até se tornar novamente mais influente, mais dinamizadora, mas que atualmente tem tido pouco impacto”. Em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, o pesquisador afirma que o movimento estudantil representado pela União Nacional dos Estudantes (UNE) “não é capaz de fazer reverberar os anseios das juventudes estudantis”. Por outro lado, explica, os estudantes universitários “não formam mais uma única categoria”, e tampouco têm os mesmos interesses. As últimas reivindicações universitárias foram feitas por jovens que pertenciam a cursos “menos prestigiados e em crescente precarização, de jovens oriundos de camadas sociais mais distantes das elites socioeconômicas e que ocuparão provavelmente postos de trabalho menos prestigiosos”, assegura.

Graduado em Ciências Sociais, pela Universidade de São Paulo, mestre em Sociologia, pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), e doutor em Ciências Sociais, pela mesma universidade, Groppo é docente do Programa de Mestrado em Educação, do Centro Universitário Salesiano de São Paulo. Entre suas obras, citamos A juventude: ensaios sobre sociologia e história das juventudes modernas (Rio de Janeiro: Difel, 2000) e Uma onda mundial de revoltas. Movimentos estudantis de 1968 (Piracicaba: Unimep, 2005).

IHU On-Line - Quem são os jovens engajados nos movimentos estudantis e quais são os seus anseios e bandeiras? Esse engajamento está relacionado à vivência particular de cada jovem?

Luís Antonio Groppo - Serei honesto em dizer que não tenho em mãos um perfil sociodemográfico dos atuais jovens militantes. Mas não parece exagero dizer que são uma porção residual das atuais juventudes estudantis, uma minoria que pode até se tornar novamente mais influente, mais dinamizadora, mas que atualmente tem tido pouco impacto.
Em termos estatísticos, a militância anda sendo substituída pelo voluntariado, estimulado inclusive por programas sociais governamentais, pela mídia e até mesmo pelo mercado de trabalho - que passa a considerar a disposição ao voluntariado como um importante requisito ao novo profissional. Comparativamente, o voluntariado tem muito menos impacto transformador e desafiador que a militância, mas não se pode menosprezar os desejos mais ou menos ocultos de participação, de pertencimento presentes na disposição em ser “voluntário” - mesmo que seja o interesse em se  tornar mais “empregável”. O movimento estudantil oficialmente representado pela União Nacional dos Estudantes (UNE) nada ou pouco tem de movimento. Ele se institucionalizou, perdeu muito de sua influência, de seu impacto - em especial no próprio meio estudantil. Os anseios e bandeiras deste movimento estudantil oficial pouco é capaz de fazer reverberar os anseios das juventudes estudantis. Mas há várias manifestações de descontentamento estudantil, como em diversas ocupações de reitorias nos últimos anos. Ainda que não se deva desprezar a denúncia de que houve certa manipulação por grupamentos da “extrema esquerda” dissidentes da UNE, esta cooptação, tentada e talvez em parte conseguida, não deve ocultar a insatisfação de parte importante dos estudantes que participaram das invasões.

Universitários

É preciso pensar, por outro lado, que os próprios estudantes universitários não formam mais uma única categoria, com os mesmos interesses. A diversidade do estudante universitário em muito reflete a diversidade das instituições universitárias: há estudantes de universidades públicas e privadas prestigiadas e desprestigiadas, formadoras de elites profissionais ou de mão-de-obra especializada, de cursos mais ou menos prestigiados dentro da mesma universidade etc. Para ficar num exemplo, parte importante dos estudantes que invadiram reitorias de universidades estaduais de São Paulo e federais país afora, em uma breve leitura dos acontecimentos, pertenciam a cursos das Ciências Humanas, menos prestigiados e em crescente precarização, de jovens oriundos de camadas sociais mais distantes das elites socioeconômicas e que ocuparão provavelmente postos de trabalho menos prestigiosos e menos bem pagos, tais quais a docência no ensino fundamental.

Sobre o fato da vivência particular de cada jovem ter relação com a militância, isto é sempre verdadeiro, mas, como sociólogo, consigo enxergar melhor os fatores gerais e processos mais fundamentais, que permeiam e limitam mesmo tais vivências individuais.

IHU On-Line - O apartheid social que caracteriza o Brasil de hoje faz com que os jovens de classe média fiquem acomodados, com medo de perder o padrão de vida conquistado? Essa posição justifica a escassa participação política e social dos jovens brasileiros?

Luís Antonio Groppo - Não sou muito simpático a definições taxativas, tais como caracterizar o jovem de classe média atual como individualista e acomodado. Não gosto muito de definir coletividades com qualificativos mais apropriados a individualidades. Podemos cair em simplismos, tais como aquele que um dia relegou toda a juventude pós-1968 ao rótulo “Geração AI-5”, não levando em conta a diversidade de posições e situações, e muito pouco as condições políticas e socioculturais desfavoráveis ao engajamento político naquele momento difícil para a oposição ao Regime Militar.

De todo modo, é possível pensar na hipótese de que o fechamento, hoje de caráter socioeconômico, conspira contra possíveis aspirações emancipadoras, contra engajamentos no formato da militância tradicional. Os jovens das classes populares e médias são empurrados antes a pensar no seu próprio presente e futuro próximo, inclusive em questões como sobrevivência. Mais especificamente em relação aos jovens dos estratos socioeconômicos médios, nos últimos anos tem-se registrado dados que indicam o estancamento ou mesmo o retrocesso do processo de ascensão social, registrado de uma geração a outra. Mesmo estes estratos vêem-se obrigados a permanecer mais tempo na dependência da família de origem (condição que pode se tornar permanente, ou a que se  pode recorrer em certos períodos da vida), alongando o tempo da juventude (que, de fase transitória, por vezes parece se tornar condição estável, identidade a se adotar por um período maior do que tradicionalmente se vivia).

IHU On-Line - A caravana da UNE iniciou uma campanha que trata de Saúde, Educação e Cultura. Isso demonstra que as preocupações dos jovens são outras? Pode-se afirmar que a UNE está engajada numa nova causa?

Luís Antonio Groppo - A UNE não se constitui em um movimento. É uma instituição aparelhada por um partido político de expressão pequena no cenário nacional, que inclusive se alia ao governo federal atual para conseguir também cargos e posições, compensando sua fraqueza no cenário eleitoral e na penetração entre movimentos sociais, na atualidade. Vem, inclusive, revivendo o formato das Caravanas da diretoria da UNE, talvez como paródia - pois se, a história, diria Marx, se repete duas vezes, a segunda aparece como farsa.

IHU On-Line - A juventude universitária é conservadora, se comparada a dos anos 60, 70 e 80?

Luís Antonio Groppo - Não podemos generalizar questões tão sensíveis. O que pode ser dito é que fatores socioeconômicos têm levado às juventudes das mais diversas classes, incluindo as universitárias, a buscar sua sobrevivência ou estancamento do descenso social. Diante da fratura social provocada pela crise de muitas instituições voltadas ao bem-estar social, ou à paralisia do processo de expansão dos direitos sociais, poucas instituições restaram para dar segurança e sentimento de pertença a muitas juventudes. Uma pesquisa da Fundação Perseu Abramo,  muito bem conduzida, gerando livros muito importantes, demonstrou bem isto: família e religião, em menor grau a escola, foram apontadas como as principais instituições de referência dos jovens. São instituições que tendem ao particularismo e ao conservadorismo, o que talvez possa dar a impressão de serem os jovens hoje, em geral, mais conservadores. Mas são a elas que boa parte dos jovens pode recorrer em tempos de dificuldades e de recuos das instituições e recursos públicos disponíveis às fases mais sensíveis do curso da vida (infância, juventude e velhice).

IHU On-Line - Em que sentido a atuação dos jovens da década de 1960 nos ajuda a entender a participação política da juventude contemporânea?

Luís Antonio Groppo - Cada juventude vive as possibilidades e os limites de sua época. Os jovens dos anos 1960, ou melhor, jovens universitários das camadas médias em grandes cidades do país, foram praticamente empurrados para a militância e o engajamento. Tiveram a “sorte” das circunstâncias favoráveis, da situação em que era necessário um protagonista social para responder os desafios de um tempo de contradições. Este é também nosso tempo, de contradições, ainda que diferentes das dos anos 1960. Mas não devemos julgar nem medir os jovens e suas ações (ou omissões) atuais, por modelos oriundos de outros tempos.

IHU On-Line - Como a juventude tem encarado o ProUni? Por que há tantas discordâncias, entre os jovens, sobre esse assunto?

Luís Antonio Groppo - As discordâncias têm a ver com a diversidade dos jovens, incluindo os universitários. Por um lado, ele foi instrumento usado pelo governo para ampliar o acesso ao ensino superior sem usar recursos públicos e modo de socorrer muitas instituições privadas em dificuldades, ao mesmo tempo em que trouxe apuros para instituições confessionais que já tinham isenções fiscais. Por outro, foi o meio usado por muitos jovens das camadas médias empobrecidas e populares, trazidas recentemente ao ensino médio em parte importante, para o acesso ao ensino superior.

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