Edição 272 | 08 Setembro 2008

Perfil Popular - Eva Eloí Dornelles de Lacerda, a “Tia Evinha”

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Bruna Quadros

Quando foi convidada a ser o Perfil Popular desta semana, Eva Eloí Dornelles de Lacerda já entendeu a proposta. “Minha história de vida é bem simples, mas aceito participar, porque posso contribuir com o pouco que sei para que outras pessoas se sintam motivadas”, afirmou. A “Tia Evinha”, como é conhecida entre os colegas de trabalho, é uma das responsáveis pela limpeza e preparo do cafezinho de alguns setores da prefeitura de Canoas. Engajada com o trabalho da Pastoral da Criança, no bairro Harmonia, em Canoas, onde mora, ela se emocionou ao relatar o seu maior sonho: viver em uma sociedade onde as pessoas se amem mais. A seguir, confira os relatos de vida de uma mulher que, aos 49 anos de idade, voltou a estudar, em um curso superior, e é exemplo de coragem, determinação e esperança:

 

“Meu pai, Delclécio, já falecido, era agricultor. Como não tinha terras próprias e plantava com outras pessoas, ele decidiu sair de Camaquã, onde nasci, e ir para Canoas, com a minha mãe, Mariana, e mais cinco filhos, quando eu estava com dois anos de idade.” É assim que Eva Eloí Dornelles de Lacerda, 49 anos, começa a contar a sua trajetória de vida. A vida no interior e a infância foram marcadas por algumas dificuldades. “Dos meus dois aos oito anos de idade, moramos em vários lugares, dependendo de favores de parentes e pagando aluguel. Fomos ter a nossa casinha, quando eu já tinha quase dez anos de idade. Eram duas pecinhas de casa, no bairro Estância Velha, em Canoas.”

No entanto, a rotina regada pelo sacrifício não lhe deixou marcas de tristeza, foi mais um incentivo para vencer na vida. “Posso me considerar uma pessoa abençoada, porque meus pais me educaram da melhor maneira possível. Além disso, tive um pai maravilhoso que nos dava muito carinho e amor, o que supria todas as carências que nós tínhamos.” Eva conta que hoje tem outros cinco irmãos, mas, se todos estivessem vivos, seriam 12 filhos. Da infância, ela recorda as molecagens: “A gente fugia da mãe para ir para o sol ou brincar no meio dos matos que tinha nos fundos de casa”.

Enquanto adolescente, Eva pôde freqüentar a escola até os 14 anos de idade. E só parou porque seu pai não tinha condições financeiras para dar estudo para todos os filhos. “Na época, tentei trabalhar e continuar estudando, mas foi bastante difícil, porque fiquei em uma casa de família, onde o tratamento não era muito bom. Meu pai não admitiu esta situação e preferiu que eu voltasse para casa, que ele faria o que pudesse para eu continuar estudando. Desde os 12 anos, eu trabalhava em casa de família, para ajudar o meu pai. Aos 14, trabalhei de carteira assinada pela primeira vez, em uma empresa de embalagens plásticas, onde fiquei por quase dois anos.”

Aos 17 anos, Eva decidiu construir a sua própria família. Já são 32 anos de uma união que resultou em quatro filhos: Arlei, Lisiane, Eliane e Alex. “Sempre pensei que, se casasse, minha vida ia ser diferente. Imaginava um mundo cor-de-rosa. Depois, a vida foi me mostrando que não era bem assim.” São os filhos que dão a Eva um impulso maior à vida, “um motivo para buscar sempre um pouco mais para poder passar para eles.” Mesmo casados, os filhos mais velhos mantêm vivas as relações familiares, herança dos princípios transmitidos por Eva. “Não é porque meus filhos casaram que vão se distanciar ou achar que não tem mais o vínculo com pai e mãe. Sempre passei para eles a importância de uma família unida, o que vivemos hoje e continuará sendo assim.”

Em 1990, Eva entrou para uma comunidade eclesial de base, o que, segundo ela, mudou muito a sua vida. “Foi um convite que recebi de uma possibilidade de ter um encontro com outras pessoas, para partilhar as dificuldades e buscar na luz da palavra de Deus uma força para vencer. Eu morava a poucos metros da Igreja, mas nunca tinha ido. Até os 14 anos, freqüentava a Igreja Católica assiduamente. Mas até os 22 me afastei. Com a visita de uma religiosa à minha casa, me senti motivada a voltar para a Igreja.” Foi então que Eva conheceu pessoas que, aos poucos, a fizeram sentir útil, valorizada e capaz de construir alguma coisa. “Aquilo foi me fazendo crescer como pessoa. Fui vendo que eu tinha possibilidade de mudar a vida que eu levava e a da minha família.”

O engajamento com os compromissos da Igreja fez com que Eva percebesse que ter fé é ter base e direção na vida. “Jesus veio ao mundo e deu a própria vida para mostrar até onde se ama de verdade. E ele nem pede que a gente faça tudo o que ele fez, só que nos amemos uns aos outros e desejemos para o irmão o mesmo que gostaríamos para a gente.” Na visão de Eva, são estes ensinamentos o maior guia para a felicidade.

Há 25 anos, Eva é líder da Pastoral da Criança - que, hoje, está em 17 países – no bairro Harmonia, em Canoas. “O município foi o segundo do Rio Grande do Sul a receber o projeto. A gente passava muita dificuldade, em relação à infra-estrutura e saneamento, devido às ocupações irregulares que existiam na época. Então, existia uma mortalidade infantil muito grande. Como nós, mulheres, já éramos organizadas em pequenas comunidades, buscamos uma forma de contribuir para reduzir os índices.” Eva destaca que trabalha desta forma voluntária para mostrar às 48 famílias atendidas que é possível ter outra vida, o que só depende da força de vontade de cada um.

As ações do trabalho consistem em visitas domiciliares mensais, com orientações sobre saúde, educação e cidadania. Também são realizados encontros semanais, onde as mulheres têm oficinas de artesanato. Para Eva, esta contribuição é mais que um trabalho. “É a busca de uma sociedade melhor, porque, no momento em que se faz algo pelas pessoas, se faz por si mesmo. Há um crescimento como pessoa e a construção de uma sociedade melhor, na justiça, na solidariedade, no amor, na igualdade.”

Atualmente, Eva trabalha seis horas na Prefeitura de Canoas, onde vai completar 17 anos de profissão, em janeiro de 2009, e faz cinco horas de estágio, para poder dar andamento aos estudos de curso superior, no Centro Universitário La Salle (Unilasalle), em Canoas. “Voltei a estudar em prol do meu povo, porque o trabalho da Pastoral também visa desenvolver uma atividade de emprego e renda para as mulheres e havia a necessidade de um conhecimento técnico na área de Nutrição, tendo em vista o trabalho na área de alimentação, dentro da Economia Solidária. Das mulheres que atuam do projeto, a que estava mais perto de alcançar esta qualificação era eu. Então, ingressei no curso de Nutrição. Estou no segundo semestre, fazendo duas cadeiras, à noite.”

Política

A visão de Eva sobre a política do país é de muita mudança. “Os interesses são individuais. Se cada um refletisse um pouquinho sobre o mundo em que a gente vive, com certeza, todos viveriam melhor.” Segundo ela, os políticos não têm entendimento para perceber que a corrupção vai refletir neles mesmos e nas próximas gerações. “Este mundo não é um momento, é um futuro.” É por isso que, emocionada, Eva revelou o seu maior sonho: conseguir viver em uma sociedade onde as pessoas se amem mais.

Momentos marcantes

A alegria das crianças que vivem longe da violência e com o pão de cada dia garantido na mesa se reflete na vida de Eva, sendo, assim, a sua maior realização. No entanto, ela lamenta ainda vivenciar momentos de tristeza, os quais ela descreve um a um. “São as injustiças, a violência, a corrupção e a falta de emprego que vemos todos os dias nos jornais.” Eva destaca que é uma pessoa feliz, com a sua família, mas a sua felicidade particular não lhe basta. “Como vou ser feliz, se vejo bem perto de mim outras pessoas sofrendo? Temos que construir o bem para todos.”

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