Edição 272 | 08 Setembro 2008

“É muito grande o interesse dos jovens pela Bossa Nova”

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Graziela Wolfart

Para o gaúcho Paulo Dorfman, professor de educação musical, a importância da Bossa Nova ainda vai mostrar sua face, pois há um imenso caminho por ela aberto e que permite sua aplicação na música de concerto

Em entrevista realizada por e-mail, o pianista educador musical Paulo Dorfman situa a importância da Bossa Nova, bem como sua herança no cenário musical gaúcho. Além de citar nomes de talentos do Rio Grande do Sul que continuam produzindo nesse estilo, ele ainda afirma que “em muitas cidades do interior gaúcho surgem novos músicos ligados às influências do jazz e da Bossa Nova, o que nos remete a pensar em novas formas regionais de composição”. Paulo Dorfman possui graduação em Música, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Atualmente é professor do Instituto Metodista de Educação e Cultura, de Porto Alegre.

IHU On-Line - Qual a influência da Bossa Nova para a atual música popular brasileira e para as músicas de concerto?

Paulo Dorfman - Total. Uma vez que nosso compositor atualmente mais respeitado no exterior chama-se Toninho Horta  e que é descendente direto da Bossa Nova, justifica-se plenamente a pergunta. Quanto à segunda parte, referente à música de concerto, a importância da Bossa Nova ainda vai mostrar sua face, pois há um imenso caminho por ela aberto e que permite sua aplicação na música de concerto.

IHU On-Line - O que podemos entender como a pré-Bossa Nova? Quais as principais influências musicais e culturais para o surgimento desse movimento brasileiro?

Paulo Dorfman - O período antecedente à Bossa Nova é muito vasto. Ele inicia em Bach,  passa por Chopin e vai consolidar-se através de Joaquim Callado,  Ernesto Nazareth,  Vadico, Ari Barroso, Gershwin,  Debussy,  Chet Baker,  Moacir Santos,  Custodio Mesquita,  Garoto, Newton Mendonça, entre tantos. Seu mentor musical de maior grandeza e genialidade é Luiz Eça. Essa é mais ou menos a influência musical no movimento. Na outra área de influência encontramos o movimento cinematográfico Nouvelle Vague, que tanto foi revisto pelos jovens compositores brasileiros da época, e também a renovação literária brasileira, que se deu com João Cabral de Melo Neto  e Guimarães Rosa. 

IHU On-Line - Quais as influências da Bossa Nova na produção musical gaúcha?

Paulo Dorfman - São muitas e encontram eco em Mutinho,  Luis Mauro, Cesar Dorfman, Zé Caradipia,  Everson Vargas, James Liberato, Texo Cabral, Felipe Azevedo e muitos outros.  Em muitas cidades do interior gaúcho surgem novos músicos ligados às influências do jazz e da Bossa Nova, o que nos remete a pensar em novas formas regionais de composição.

IHU On-Line - Qual a importância da Bossa Nova na Frente Gaúcha de Música Popular Brasileira?

Paulo Dorfman - A Frente foi formada por alguns dos compositores citados acima, portanto já nasceu num contexto de Bossa Nova e que procurava fazer frente ao marasmo cultural que ameaçava o país. Nesta época, fins da década de 1960, a Bossa Nova estava sendo eliminada das rádios e da indústria do disco, e nossos compositores procuravam o exterior. Então foi tomada a decisão de reunir os cultores de música popular brasileira, na época em Porto Alegre, e reuniu-se um novo acervo de composições que tinha uma conotação muito ligada com Antonio Carlos Jobim.

IHU On-Line - Como a Bossa Nova é estudada no meio acadêmico de formação musical e como os jovens estudantes de música recebem esse importante marco da música brasileira?
Paulo Dorfman
- Em Brasília, existe a Escola de Música de Brasília, a qual desenvolve em larga escala o estudo da música brasileira popular, especialmente a Bossa Nova. Em São Paulo, existem faculdades como a Tom Jobim, que também segue este caminho. Aqui no Sul, temos a escola de música da Universidade Federal de Santa Maria, a qual dá grande importância na formação da música brasileira, bem como Passo Fundo e Pelotas. É muito grande o interesse dos jovens pela Bossa Nova e podemos perceber isso na escola de música do IPA, onde nossa atuação é solicitada sempre nesta direção da boa música popular brasileira, por conseqüência a Bossa Nova.

IHU On-Line - Qual a importância dos Grandes Festivais da Canção para a entrada e a permanência da Bossa Nova no universo musical brasileiro?

Paulo Dorfman - Os festivais foram de uma influência muito grande, tanto a favor como contra. Enquanto fortaleceram e abrigaram ícones da Bossa Nova, foram impulsionadores da mesma. Veja os casos de Edu Lobo, Dori Caymmi, Baden Powell, Vinicius de Moraes, Johnny Alf. Mas, quando deram uma virada na direção de uma música mais simples e que beneficiava diretamente empresários da indústria do disco, conseguiram uma façanha incrível: que o público enorme do Maracanãzinho vaiasse ruidosamente a Antonio Carlos Jobim e Chico Buarque de Holanda, autores da vencedora "Sabiá".

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