Edição 272 | 08 Setembro 2008

Bossa Nova: uma revolução silenciosa

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Graziela Wolfart

Para o jornalista e músico Guca Domenico, a Bossa Nova iniciou a reação ao sentimento brasileiro de achar que tudo o que vem do estrangeiro é superior aos nossos talentos

Em entrevista concedida por e-mail à revista IHU On-Line, o músico e jornalista Guca Domenico destaca que a Bossa Nova surgiu num momento histórico muito semelhante ao dos dias de hoje, “com a economia respondendo bem, com a diferença que o pais vivia um ciclo desenvolvimentista promovido pelo habilidoso Juscelino Kubitschek, dotado de um projeto de país e não de poder”. Ao descrever o contexto do nascimento da Bossa Nova, Guca lembra a época de protestos em todo o mundo, mas, no Brasil, “restava aos jovens dos anos 1950 protestar contra o ‘velho’ modo de produzir cultura, e fazê-lo de um jeito novo, ou seja, com uma bossa diferente. É nesse ambiente que começam a surgir os primeiros talentos da Bossa Nova, renovando a tradição da música brasileira, fortificando-a contra a inexorável invasão estrangeira”. Para ele, além da Bossa Nova, “o Cinema Novo e a Poesia Concreta apontaram um caminho otimista para a nação”.

Quando Carlos Augusto Mastrodomenico tinha 11 anos de idade, seu pai começou uma coleção da Editora Abril com a história dos grandes compositores da música popular brasileira, e Guca descobriu sua vocação: ser compositor, como Noel Rosa, Dorival Caymmi e Tom Jobim. Com Laert Sarrumor, Carlos Melo e Pituco formou o grupo Língua de Trapo, nos estertores da ditadura militar. Em 1989, lançou o livro de poesias Sete poemas e uma flor, numa edição artesanal de luxo (100 exemplares). Em 1990, trabalhou como professor de Educazione Musicale, na Scuola Eugenio Montale. Em 1992, lançou o LP Veloz, com 14 canções de sua autoria e Gerson Ney França. Trabalhou como ator de publicidade e participou de mais de 50 filmes, sendo dirigido por Walter e João Moreira Salles, e Clóvis Melo, entre outros. Entre outros, lançou os romances O jovem Noel Rosa (São Paulo: Nova Alexandria, 2003), traduziu e adaptou O jovem Martin Luther King (São Paulo: Nova Alexandria, 2004) e O jovem Santos-Dumont (São Paulo: Nova Alexandria, 2005). Desde outubro de 2005, está de volta aos palcos com o Língua de Trapo, sem deixar a carreira solo. Seu site oficial é www.gucadomenico.com.br

IHU On-Line - Em que sentido podemos afirmar que a Bossa Nova transformou a música popular brasileira? O que faz deste movimento um divisor de águas da MPB?

Guca Domenico - Entendo a Bossa Nova como uma revolução silenciosa – ainda que pareça paradoxal esta afirmação por se tratar de manifestação sonora. Ela desalojou paradigmas da cultura do Brasil, especialmente o “espírito de vira-latas” que o dramaturgo Nelson Rodrigues  identificou na alma brasileira. Ainda não nos livramos desse malfadado destino de achar tudo o que vem do estrangeiro superior aos nossos talentos, mas a Bossa Nova iniciou a reação. Naqueles dourados anos 1950, a música brasileira, que sempre teve pujança de criadores e criações, andava relegada ao segundo plano, pois estrangeiros cantores de boleros trágicos ou rocks saltitantes freqüentavam as paradas de sucesso em nosso país, deixando artistas nacionais no ostracismo. Andávamos perdidos de Lupicínio Rodrigues,  Cartola,  Orlando Silva,  Nelson Cavaquinho,  Luiz Gonzaga,  Zé Ketti  etc. Ainda que a cegueira intencional ou ignorante de alguns críticos tenha notado enorme influência do jazz, ao contrário do que se imagina, a Bossa Nova resgatou tradições musicais brasileiras que estavam se perdendo, como samba de morro e choro, entre outros. A brasilidade desses ritmos está presente de forma oculta ou explícita em suas raízes e, cá entre nós, Bossa Nova é samba e ponto final. O movimento que se ajuntou de maneira natural – vamos lembrar de Desafinado  que canta “isto é Bossa Nova, isso é muito natural” – tornou-se divisor de águas da MPB por aliar três aspectos de excelência: as melodias de Antonio Carlos Jobim, as letras de Vinicius de Moraes e a interpretação intimista de João Gilberto. Esse tripé de sustentação fez com que a Bossa Nova elevasse nossa música popular à categoria de clássico internacional. Claro que podemos identificar outras tríades dessa grandeza pré-Bossa Nova, como Vadico  - Noel Rosa - Francisco Alves,  mas as comunicações a nível mundial não possibilitavam que rompêssemos o cordão que nos isolava do resto do mundo. O momento foi favorável à Bossa Nova, à expansão da televisão, à popularização do rádio, ao cinema.

IHU On-Line - Como entender as origens da Bossa Nova a partir do painel cultural das décadas de 1940 e 1950?

Guca Domenico - No “Samba de uma nota só”, Antonio Carlos Jobim e Newton Mendonça  escrevem: “Essa outra é conseqüência do que acabo de dizer...”. A Bossa Nova é conseqüência de Noel Rosa e seu canto falado, do cantar maneiro de Mário Reis, das harmonias sofisticadas (estas sim, influenciadas pelo jazz) de Garoto,  Johnny Alf  e Dick Farney. Ela é a música popular brasileira em evolução. É importante lembrar que João Gilberto prezava a tradição de Ary Barroso, Dorival Caymmi,  Geraldo Pereira.  E Antonio Carlos Jobim se dizia fã de Noel Rosa, assim como Vinícius de Moraes amava Pixinguinha.  Os anos 1940 foram marcados pela Segunda Guerra Mundial, e a explosão da bomba atômica no Japão provocou um estado psicológico de desilusão coletiva quando o homem mostrou o quanto podia ser cruel. Nesse ambiente, surgiu a juventude transviada, a descrença na política, o viver “sem destino”. No Brasil, porém, não é fácil ser rebelde sem causa, a natureza não ajuda porque a paisagem é linda, faltam ciclones, furacões, as praias são paradisíacas e falta aquele cinza depressivo da ausência do sol. Restava aos jovens dos anos 1950 protestar contra o “velho” modo de produzir cultura, e fazê-lo de um jeito novo, ou seja, com uma bossa diferente. É nesse ambiente que começam a surgir os primeiros talentos da Bossa Nova, renovando a tradição da música brasileira, fortificando-a contra a inexorável invasão estrangeira. Antonio Carlos Jobim e Newton Mendonça, autores de vários sucessos, como “Meditação”, “Caminhos cruzados”, “Samba de uma nota só” e “Discussão”, já atuavam profissionalmente tocando piano em boates de Copacabana e Ipanema, e trabalhando como arranjadores em discos de outros artistas, portanto, vivenciavam a música. Nos anos 1940 e 1950, o ambiente musical carioca era freqüentado por Ary Barroso, Braguinha,  Pixinguinha, Dorival Caymmi, Radamés Gnatalli,  Lindolpho Gaya,  Mário Reis... Convenhamos, é uma formação e tanto!

IHU On-Line - Quem o senhor cita como os grandes nomes da Bossa Nova e como a biografia desses brasileiros se entrelaça com a história e o sucesso da Bossa Nova?

Guca Domenico - Não se pode fugir da trilogia Jobim-Vinícius-Gilberto, mas existem tantos outros que merecem figurar na lista de mais significativos do movimento, como Newton Mendonça, Aloysio de Oliveira  por sua visão do alcance comercial a nível internacional, Ronaldo Bôscoli,  por ter forjado o nome, e mais Nara Leão,  Roberto Menescal,  Carlos Lyra, Sérgio Ricardo, Baden Powell,  Johnny Alf, Dick Farney, Lúcio Alves,  Elizeth Cardoso,  Luiz Eça, entre outros. Todos estes deram a sua contribuição para a divulgação do nosso fazer musical que ganhava a simpatia do público, especialmente por ser um movimento de jovens de classe média carioca, bons meninos e meninas, talentosos e arrojados. Seus nomes estão inexoravelmente ligados à Bossa Nova, mesmo aqueles que não ficaram restritos ao movimento. Nara Leão, por exemplo, considerada a musa da Bossa Nova, só foi gravar um disco dedicado a ela, quando tinha dez anos de carreira. Sua contribuição fantástica foi gravar músicas de Nelson Cavaquinho, Zé Ketti, dos jovens Chico Buarque e Caetano Veloso.

IHU On-Line - Por que a Bossa Nova está associada a uma imagem otimista do Brasil?

Guca Domenico - A Bossa Nova surgiu num momento histórico muito semelhante ao dos dias de hoje, com a economia respondendo bem, com a diferença que o pais vivia um ciclo desenvolvimentista promovido pelo habilidoso Juscelino Kubitschek, dotado de um projeto de país e não de poder. JK era uma espécie de animador de auditório e possuía o dom de amalgamar tendências díspares, não apostava na divisão do país entre pobres e ricos para sobreviver politicamente. O ambicioso Plano de Metas, cujo slogan propunha “50 anos em 5”, impulsionou a sociedade a se movimentar em direção à modernidade tecnológica que começava a despontar nos países desenvolvidos. Além da Bossa Nova, o Cinema Novo e a Poesia Concreta apontaram um caminho otimista para a nação. Particularmente, acredito que os jovens compositores da Bossa Nova eram influenciados pelo clima otimista que pairava no ar, mas, sobretudo, porque o grande mentor musical do movimento, Antonio Carlos Jobim, era um homem de idéias musicais arejadas, tinha conhecimento sobre outros assuntos, como arquitetura e ecologia (quando não se falava em preservação, ele já indicava o caminho). A obra jobiniana é uma oração à vida e para quem sabe ler o mundo, não ser pessimista é uma escolha razoavelmente inteligente.

IHU On-Line - Qual a importância do violonista Garoto para o surgimento da Bossa Nova? Podemos considerar que ele fez um “prelúdio” da Bossa Nova?

Guca Domenico - Aníbal Sardinha, o Garoto, foi um violonista excepcional, sua concepção musical era bastante avançada para a época. Juntamente com Aloysio de Oliveira, Garoto participou do Bando da Lua que acompanhou Carmem Miranda nos Estados Unidos. Isto lhe proporcionou uma vivência no meio jazzístico norte-americano e ela foi importante para abrir seus horizontes musicais. Sem dúvidas, Garoto pode ser considerado precursor, ainda que sua presença no cenário musical não tenha sido estudada de modo a fazer justiça a seu enorme talento.

IHU On-Line - O que significou para o Brasil, do ponto de vista cultural, social e político, passar de importador para exportador, em matéria de música? Qual o impacto disso para a era desenvolvimentista e para a política de JK?

Guca Domenico - Soaria inocente o autor afirmar que a música tenha impactado a política ou a economia. Não, ela não tem esse poder. A Bossa Nova ocupou o lugar da brejeirice de Carmem Miranda no imaginário musical, exportou a imagem de uma música sofisticada e cultuada pelos músicos mais significativos do cenário internacional. Com Carmem Miranda – que considero genial -, a música brasileira era exótica, com badulaques e balangandãs, típica de uma banana republic. A Bossa Nova é culta, exige conhecimento de harmonia, requer suingue. Quando os músicos de jazz norte-americano se “apropriaram” da Bossa Nova, nossa música popular passou a ser imitada no mundo todo. Evidentemente, a política se alia a um movimento vitorioso como esse, e o governo JK aproveitou a enorme penetração da Bossa Nova no mercado norte-americano para agregar o jeito brasileiro de preparar o cafezinho, servido à farta para o público no célebre concerto no Carnegie Hall,  em novembro de 1962, em Nova York. Naturalmente otimista, Juscelino aderiu à navegação musical em curso e se transformou no “Presidente Bossa Nova”. 
 
IHU On-Line - Em que sentido a Bossa Nova mudou a imagem brasileira?

Guca Domenico - Quando se divulga uma música harmoniosa, larga, bem construída melódica e harmonicamente, é natural que a publicidade busque belas imagens para ilustrar aquela beleza sonora. O Rio de Janeiro, dotado de natureza exuberante, sempre foi cartão postal do nosso país. O público aplaudia a música “Garota de Ipanema”? Nada melhor do que capturar imagens de belas mulheres exibindo corpos esculturais na praia. Gostava de “Corcovado”? Que tal uma tomada aérea do Cristo Redentor? E assim foram sendo associados barquinhos deslizando pelo mar, a luminosidade do verso etc. Se a Bossa Nova continua sendo descoberta e admirada pelo estrangeiro, o turismo brasileiro tem muito a agradecer ao compositor bossa-novista por ter feito a trilha sonora do comercial para vender um país que nasceu com a vocação de ser a sucursal do paraíso.

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