Edição 271 | 01 Setembro 2008

IHU Repórter - Alice Grecchi

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Bruna Quadros

A família Grecchi, de origem italiana, se estabeleceu no município gaúcho de Guaporé. Foi lá que a professora Alice Grecchi nasceu e passou parte da sua infância. Este período de sua vida foi marcado por muitas aventuras em meio à natureza. No entanto, sua área de atuação profissional foge da Biologia ou da Ecologia. Alice é graduada em Administração de Empresas e Direito. Com mestrado em Direito Tributário pela Unisinos, ela integra o quadro de professores da universidade desde 1995, época que ela considera que a exigência sobre os alunos era maior, o que resultava em estudantes com maior qualificação. Na última semana, a professora visitou a redação da revista IHU On-Line para contar a sua história de vida à editoria IHU Repórter. Confira, a seguir.

Origens – Nasci no interior de Guaporé, no Rio Grande do Sul. A família Grecchi se estabeleceu lá, trabalhando com moinhos. Fui criada lá até os 14 anos. Meu falecido pai trabalhava em serralheria e moinho, e minha falecida mãe, como toda a mulher daquela época, era dona-de-casa. Éramos nove irmãos. Sou a penúltima filha, estou com 56 anos. Meu pai sempre nos manteve afastados nos negócios dele. Ninguém sabia quanto ele ganhava. Quando ele faleceu, descobrimos que todo o seu patrimônio estava penhorado.

Infância – A gente tinha a chance de brincar com a natureza. Nossas brincadeiras eram fazer piquenique no meio do mato e tirar pinhão dos pinheiros. Eu era um pouco gordinha. Então, as minhas irmãs não gostavam muito de brincar comigo, porque eu era muito lenta para passar sob cercas ou cruzar rios.

Valores – Meu falecido pai era extremamente católico. Me passou valores fundamentais na crença e na religiosidade. Além disso, ele era muito político e tinha o hábito de ouvir o programa A voz do Brasil, que herdei dele.

Estudos – Sempre tirava o primeiro lugar no colégio. Meu pai era muito rígido e não costumava dar colo aos filhos. Ele nunca bateu em nenhum dos filhos, mas todos tremiam só com o olhar dele. Ele fazia questão de mostrar o meu boletim para os seus amigos, ficava orgulhoso e dizia: “Esta não me dá trabalho”. Talvez seja por isso que sou tão exigente com os meus alunos hoje.

Dificuldades - Com a morte do meu pai, começou a nossa vida de sacrifícios. Eu ia e voltava a pé para a escola, que ficava em uma vila a 4,5 km da minha casa. Aos 16 anos, fui contratada pela Prefeitura de Guaporé para lecionar, mas ainda continuei meus estudos. Passado este período, uma das minhas irmãs foi morar no município de Sapucaia do Sul. Nesta época em que fui morar com ela, cheguei a trabalhar em caixa de supermercado e em banco.

Graduação e trabalho - Entusiasmada pelos colegas de trabalho do banco, fiz o curso de Administração de Empresas na Unisinos. Depois de formada, comecei a me preparar para concursos públicos, como o de fiscal estadual. Passei e iniciei minhas atividades pelo município de Nonoai, no interior do Rio Grande do Sul, onde morei durante um ano. Lá não tinha asfalto nem telefone. Depois, fui transferida para Encantado, também no interior. Estava à procura de uma vaga em Porto Alegre. Para conseguir a vaga, que exigia conhecimento na área jurídica, eu menti que estava cursando Direito. Naquele mesmo semestre, pedi o reingresso na Unisinos no curso de Direito.

Unisinos – Iniciei como professora da graduação na Faculdade São Judas Tadeu, informada pelo professor Oscar Antunes, que precisavam de uma vaga de Direito Tributário para a área de Ciências Contábeis. Apresentei meu currículo, fiz as entrevistas e comecei a lecionar imediatamente. Na mesma época, foi publicado um anúncio no jornal para uma vaga de professor de Direito Tributário na Unisinos. Fiz os testes e ingressei como professora na universidade em 1995. Na época, havia uma exigência maior junto aos alunos, e nós recebíamos estudantes com maior qualificação. Hoje, o perfil é outro. Há uma falta de respeito dos alunos entre si e com o próprio professor. Eles não têm uma postura de responsabilidade, perante o conhecimento. Percebo a luta da universidade pela qualificação dos professores e, assim, tentar voltar ao topo.

Família – Aos 26 anos casei, e tenho uma filha, a Géssica, que vai completar 30 anos. Hoje, moramos em Esteio. Para mim, a família é algo fundamental na vida das pessoas. Não consigo ficar uma semana sem ligar para as minhas irmãs e irmãos, para saber se estão bem.

Lazer – Sou aposentada pelo Estado, leciono na Unisinos, tenho dois escritórios – um de contabilidade e outro de direito, na área tributária, e coordeno o curso de Pós-Graduação em Direito Tributário da Unisinos. Gosto muito de me envolver com muitas coisas ao mesmo tempo, mas adoro viajar. Nas últimas férias, passei quatro dias em Tapes, em meio à natureza.

LivrosO Código da Vida, do Saulo Ramos, conta os bastidores da história política do Brasil nos últimos 20 anos. Li recentemente e gostei bastante.

Filme Girassóis da Rússia, dirigido por Vittorio de Sica.

Política brasileira – A política me preocupa muito, porque não está atuando na busca do desenvolvimento da pessoa, através da educação, da profissionalização. Está, sim, sendo praticada uma política de dar, gratuitamente, o mínimo necessário para a sobrevivência. Não sou contra essas medidas, mas precisamos incentivar as pessoas a saírem dessa inércia, que acaba tirando a dignidade da pessoa humana e aniquilando seus sonhos através de uma acomodação.

Últimas edições

  • Edição 546

    Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

    Ver edição
  • Edição 545

    Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

    Ver edição
  • Edição 544

    Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

    Ver edição