Edição 271 | 01 Setembro 2008

Invenção - Elson Fróes

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André Dick

Editoria de Poesia

O poeta Elson Fróes nasceu em São Paulo (SP), em 1963. Formou-se em Letras, pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP), e apresenta trabalhos, no campo poético, desde a década de 1990, colaborando com poemas e traduções em vários jornais e revistas literárias, como Suplemento Literário de Minas Gerais, Medusa, Monturo, A Cigarra, Tsé=Tse e Babel, entre outras. Fróes, ao mesmo tempo, se dedica à poesia visual, elaborada com toda sorte de recursos, do artesanal ao eletrônico, que pode ser consultada no site de poesia que coordena, chamado Pop Box. Como tradutor, verteu para o português versos de Blake, Shakespeare, Cummings, Sylvia Plath, Ungaretti, Girondo, MacLeish, entre outros. Lançou também os e-books Poemas galegos e Poemas traduzidos em 2000.

No recém-lançado Poemas diversos (São Paulo: Lumme Editor, 2008), Fróes apresenta seus poemas antes dispersos num volume único. Seus versos se destacam pela sonoridade, baseada numa leitura da tradição brasileira poética baseada na música. Daí ser responsável pelo site Kamiquase, dedicado a um dos poetas que mais realizaram essa intersecção entre literatura e canção popular, o poeta paranaense Paulo Leminski. No poema “Complementos”, por exemplo, escreve: “Ao sol, fel mente / o que se vê dissolve-se / véu indiscutível / / Frio fel do visto / isto é, saudade / do que não vi / vi / / Desfio o desafio / frio fel tecido / / Desvisto a saudade / saúdo o desvio / desvirtuo a verdade / esvazio o dever / / aqui / há que se / aquecer o / que há de / ser”. Ou em “Antiqui aurora”: “fora o que me haure / fora o ar em que ardo das artérias minem / acesas amanhãs / ora ainda destempero / em flor o tempo flamo ao que chama / contemple-se ora / o quanto a que aero / o vento acenda aquele outro áureo / o canto que impele / todos em pós em luz / o agora amor em mim hálito divino / ânfora afora”. Obviamente, esta tradição musical também apresenta outras influências: os trovadores provençais, os barrocos, as odes gregas. Em “Ode a Safo”, assinala: “- phoenix inexata - / impossível dilapidar uma aura / (haurir a musa) a memória / dimanante ainda afia / antes diamante aflora / teu dia ou noite / luz / não cinge mas sim / jus”. Em “Caro seja meu canto”, lembra o provençal Ventadorn: “Seja volátil amar / neste ar em flamas / que o coração labora / / Canto de amor agora / se já evola em flamas / o que desejo neste ar. / Seja volátil o desejo / em flamas neste ar / de acender o que adora”.

Poesia crítica

Também baseado numa poesia crítica – que leu sobretudo em autores como João Cabral e Augusto de Campos –, Fróes investe numa metalinguagem, em que mesmo escritores se tornam personagens vitais, como em “escrever qual Anchieta / na areia / / deixar ao mar / o verso só”. Ou em “Leminski via Blake”: “Até o átomo mais ínfimo / conta toda a eternidade / de cor por um átimo”. Num poema como “Camisa”, por sua vez, ele incorpora a poética do homenageado, o servo-croata Vasko Popa, sobretudo na construção estranha dos versos, trazendo uma leitura nada linear: “Casa separa casa / Pensar com eles / / Lava-se sob o sol / Aprende o ar em botão / / Casa separa o corpo / Para si e abraça / / Acompanha pares / Da gaveta em dobras”. Nele, há uma analogia entre a camisa e a casa, que guardam o corpo. No entanto, configura-se o envelhecimento da camisa: “O tempo rasga / / Despe o corpo / Traça o destino come”. Em “Colcha”, outro poema dedicado a Popa, lê-se: “O corpo em concha / Submerge na onda / / Sonhos em ronda / Sombras inundam / / Sobre uma nuvem / Somem nuncas”. Repare-se a correspondência sonora entre as palavras (“concha”, ”sombra”, ”ronda”, “inundam”, “nuncas”), buscando aliterações.

Além disso, Élson Fróes, em alguns poemas, brinca com a própria condição de realizar poesia: “Se sou o poeta / como previa / e não feliz / como queria / A vida sem / garantias / sim / Cessou a dor / que doía / sem / A ferida / se infere / enfim / infinita”. Ou em “Texturas 3”: “Eu sou Élson e sôo / por hélices em vôo / o que floresce”. E também em “Isto é”: “Se isto / não for poesia / eu insisto / até que um / deus imprevisto / diga / desisto / eu não existo”. À IHU On-Line, Fróes enviou dois poemas de sua produção inédita.

 

UM DIA

Um dia daquelas vitórias
qualquer dia
desses que na memória
sempre se adia
daquelas pequenas coisas
supremas
embora infinitamente
pequenas
vencerei no mínimo
e ainda
contrário a toda noite
o dia finda
te sonharei feliz e só
entre
as trevas e o travesseiro
macio
um dia de sol e flores
num quadro
desses que na galeria
se eterniza
daqueles pequenos sonhos
suspensos
embora infinitamente
breves
a vitória do máximo
do mínimo
conforme toda sorte
de eternidade
e acordarei feliz e
só você
para me iluminar
o vazio

 

PARA DIZER, OLHAR
 a Lucia Boni

para dizer, olhar
e paraíso!
para sonhar, te ver
e teu sorriso
nada além disso:
o simples
como encanto
o olhar a dizer:
pare! e paraliso
no imprevisto
como um sonho
em teu sorriso
nada além disso:
o belo
como feitiço

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