Edição 271 | 01 Setembro 2008

Magia e religião: heranças de outro mundo

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Patricia Fachin

Pomeranos convivem em harmonia com as crenças pagãs e religiosas, avalia Joana Bahia

Os pomeranos “se identificam mais com a região da qual saíram no século passado do que com a própria idéia de estado alemão”, afirma a professora e doutora em Antropologia Social Joana Bahia, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. Segundo ela, a Igreja Luterana sempre esteve presente na comunidade, estabelecendo “canais de comunicação entre o meio rural e a cidade, entre o ser pomerano e o ser alemão”, mas os rituais de bruxaria e benzedeira também permaneceram ativos na cultura desse povo. “Eles se utilizam da língua alemã com a língua sagrada, na qual veiculam seus saberes e visões sobre o mundo em que vivem e trabalham, marcando sua identidade tanto camponesa quanto alemã”, explica.

Embora mantenham traços e heranças da Pomerania, a socióloga diz que atualmente muitos pais preferem “que seus filhos falem mais o português devido aos sentimentos de humilhação e vergonha que vivenciaram em situações formais na cidade”. Segundo a pesquisadora, eles temem que o mesmo aconteça com seus filhos. E acrescenta: “Entre os pomeranos, a língua portuguesa não é apenas uma língua de prestígio; para muitos é sinônimo de ascensão social e de diferenciação entre aqueles que permaneceram na roça e aqueles que foram para a cidade.”

Joana Bahia possui graduação em Ciências Sociais, mestrado em Sociologia e Antropologia e doutorado em Antropologia Social, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Sobre o estilo de vida dos pomeranos, desenvolveu a tese intitulada “O tiro da bruxa”. Identidade, magia e religião entre camponeses pomeranos do estado do Espírito Santo (2002). Atualmente leciona na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ).

IHU On-Line - Qual a relevância da cultura camponesa pomerana na construção da identidade dos habitantes do Espírito Santo?

Joana Bahia - O estado do Espírito Santo é um mosaico composto por distintos grupos de imigrantes (alemães, italianos e libaneses) e por outros tipos populacionais como os grupos indígenas e descendentes de quilombolas. Neste sentido, o estado tem uma diversidade de influências em sua cultura, não sendo apenas influenciado por imigrantes de origem alemã. Esta possui importância pelos elementos simbólicos e pelas marcas culturais que imprimiram nas cidades e locais do país aonde se estabeleceram.

IHU On-Line - A Igreja sempre foi vista como um ponto central de sociabilidade entre os pomeranos. Qual a importância da religião na construção da identidade étnica e social desse povo? E qual a função e relação do pastor junto à comunidade?

Joana Bahia - Grande parte destes imigrantes chegaram antes da unificação da Alemanha em 1870, logo o sentido de nacionalidade alemã é pensado a partir do uso da língua alemã pela religiosidade luterana. A Igreja Luterana é quem viabiliza melhor este sentimento de germanidade através do uso do alemão oficial. A igreja tanto quanto seu pastor são elementos mediadores na comunidade, isto é, estabelecem canais de comunicação entre o meio rural e a cidade, entre o ser pomerano e o ser alemão. São ativos nas causas e problemas da comunidade e têm forte presença de autoridade nas mesmas.

IHU On-Line - Ao mesmo tempo em que seguem a religião luterana, os pomeranos apresentam crenças próprias como os credos em magia e bruxaria. Como os aspectos religiosos convivem com as práticas de magia, bruxaria, benzeção?

Joana Bahia - Toda cultura camponesa possui elementos mágicos que são metáforas que possibilitam a releitura dos problemas e questões do mundo (a exemplo temos a fome, divisão da herança, divisão das terras, problemas na colheita). Estas metáforas são construções elaboradas que mesclam de modo refinado crenças religiosas com a releitura do mundo religioso oficial. No caso dos pomeranos, eles se utilizam da língua alemã com a língua sagrada, na qual veiculam seus saberes e visões sobre o mundo em que vivem e trabalham, marcando sua identidade tanto camponesa quanto alemã. Nesse sentido, eles se identificam mais com  a região da qual saíram no século passado do que com a própria idéia de estado alemão.

A reelaboração mágica do mundo é uma forma de interpretação dos problemas e conflitos do mundo real. Não é um atributo pomerano, mas algo presente em várias culturas no mundo.

IHU On-Line - Quais são os principais ritos de passagem que compõe a cultura pomerana? Qual a importância do “elemento mágico” na constituição desses ritos?

Joana Bahia - Os ritos de passagem são as transições para novas etapas da vida, são processos de mudança de status na sociedade. Momentos em que as pessoas adquirem novos papéis. Dentre destes, destaco a importância do nascimento, batismo, casamento e da morte. O rito de passagem que mais se destacava quando fiz meu trabalho de campo foi o casamento. Este é bastante importante para a reprodução social do modo de vida camponês de origem alemã. No casamento, também se discute a divisão de herança, construção de novas unidades de produção e consumo, novas perspectivas de continuidade da vida camponesa e da identidade alemã. Os ritos mágicos praticados no casamento são essencialmente para darem “boa sorte”, ou seja, para afastarem tudo o que ameace a continuidade da existência do próprio grupo.

IHU On-Line Como se estabelecem as relações entre homens e mulheres pomeranos na land? Quais os critérios estabelecidos para a divisão de tarefas?

Joana Bahia - Chamo a atenção para o fato de haver uma diferença no uso das três línguas entre as mulheres e os homens. As mulheres, em sua maioria, são bilíngües em relação aos homens. Elas falam com maior freqüência o pomerano e o alemão. O uso da língua portuguesa vai depender do grau de escolaridade.

A divisão social do trabalho no campo e os valores de transmissão da germanidade atribuem diferentes papéis sociais para os homens e as mulheres. Cabe às mulheres o domínio do espaço da casa, da família e da educação dos filhos e aos homens o espaço de circulação entre a casa, o mercado e o comércio. Conseqüentemente, os homens são trilíngues, uma vez que circulam pelos espaços sociais, nos quais são utilizadas as várias línguas.

Além das diferenças no uso das três línguas entre homens e mulheres, há diferenças entre as gerações. Os descendentes das primeiras gerações dominam com mais freqüência a língua alemã do que os pomeranos das últimas gerações. As circunstâncias históricas da imigração e a imposição do uso da língua alemã pela Igreja Luterana foram fatores determinantes para o domínio da língua alta entre os descendentes dos primeiros imigrantes.

Atualmente, a última geração de descendentes fala o pomerano e o português. Somente no âmbito dos cultos da Igreja é repetido o alemão, após o ensino das palavras e sua pronúncia pelo pastor. A maioria dos descendentes não compreende o culto em alemão, por não mais dominarem a língua.

IHU On-Line - Quais as transformações no uso da língua pomerana entre as gerações? Hoje os jovens ainda têm interesse em cultivar a língua de seus descendentes?

Joana Bahia - O grupo investigado expressa-se, cotidianamente, em três línguas: português, alemão e pomerano, cada uma delas acionada em diferentes situações sociais.
A língua portuguesa é usada nas situações formais como nas questões de cidadania, no ensino escolar, nas instituições locais (prefeitura, fórum, casas comerciais e bancos), com relativa freqüência no atual ensino confirmatório e para demarcar a diferença entre pomerano e brasileiro. Sua freqüência é maior na sede da colônia do que na zona rural, e seu uso mais comum entre os jovens do que entre as gerações mais antigas. Lembro que o uso crescente da língua portuguesa se deu de fato no momento da Campanha de Nacionalização implantada pelo Governo de Getúlio Vargas  nos anos de 1938 a 1945. Neste período, houve repressão à publicação e ao ensino na língua alemã, proibição de falar outra língua em público, fechamento de instituições e associações comunitárias e culturais, perseguição aos membros das igrejas luteranas e destruição de propriedades. Muitos pastores foram presos e proibidos de atuarem em suas atividades religiosas.

Chamo a atenção para a forma de pronúncia e elaboração da língua portuguesa, que na sua expressão oral obedece à lógica da língua pomerana e muitas vezes da língua alemã. Isto está bastante presente no uso do radical dos verbos em português, mas que são conjugados na lógica e com a terminação dos verbos na gramática pomerana e alemã. Os jornais e publicações veiculados pela Igreja Luterana, assim como pela Missouri, são escritos em português, porém reservam espaço para cartas enviadas pelos fiéis. Em geral, estas cartas são escritas em pomerano e em alemão. Ambas as lógicas das línguas são mescladas, fato que leva a uma tradução bastante difícil se não for feita com ajuda de membros da comunidade que operem bem as duas línguas.

O pomerano é usado entre pomeranos, tanto da cidade quanto do campo, sendo mais freqüente na zona rural, na intimidade da família, dos amigos, nas situações-limite de conflito social (luta pelos recursos e acesso à terra entre parentes e vizinhos), como nas acusações de bruxaria e, principalmente, nas práticas mágicas (tais como benzeções) que demarcam os ritos de passagem como o nascimento, o casamento e a morte dos membros da comunidade.

A língua é também utilizada pelos homens como estratégia nas negociações de venda de seus produtos agrícolas no mercado público (Ceasa) como uma “língua secreta” a fim de alertar seus familiares e vizinhos sobre casos de exploração ou a possibilidade de realização de um mau negócio. Seu uso é mais freqüente do que o das outras duas línguas, especialmente nas áreas mais distantes da sede da colônia.

Seu aprendizado é familiar, sendo a mulher responsável pela transmissão da lógica da língua pomerana e da alemã para as crianças. Quando estas ingressam na escola, já aprenderam a língua pomerana, fato que ocasiona uma série de conflitos no interior do sistema escolar. Muitas professoras reprimem o uso do pomerano, mas em sua maioria tiveram de aprender um pouco da língua para que pudessem dar continuidade ao seu trabalho na escola.

Opção pelo português

Muitos jovens, freqüentadores da escola primária, falam tanto o pomerano quanto a língua portuguesa, mas, apesar deste fato, eles preferem falar com maior freqüência esta última. O português é considerado uma língua de maior prestígio, sendo de maior domínio das esferas formais e nos meios de comunicação.

Muitos pais justificam o fato de preferirem que seus filhos falem mais o português devido aos sentimentos de humilhação e vergonha que vivenciaram em situações formais na cidade. Muitos temem que a mesma situação ocorra com seus filhos. Os jovens também relatam as dificuldades de não saberem falar o português no cotidiano e criticam a excessiva ênfase na língua alemã na esfera religiosa. Entre os pomeranos, a língua portuguesa não é apenas uma língua de prestígio; para muitos, é sinônimo de ascensão social e de diferenciação entre aqueles que permaneceram na roça e aqueles que foram para a cidade.

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