Edição 271 | 01 Setembro 2008

Há entre os pomeranos uma ética de trabalho muito acentuada

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Patricia Fachin

Está ficando mais difícil falar dos pomeranos como uma cultura distinta. Suas concepções de mundo “não estão muito distantes da dos demais brasileiros”, constata Martin Dreher

 

Com o intuito de moldar os pomeranos que acreditavam na deusa da fertilidade, Ostera, a Igreja Luterana tentou inserir nas comunidades a tradição religiosa, mas entre os pomeranos de São Lourenço do Sul e Pelotas, a Igreja Territorial não foi aceita. Segundo o historiador Martin Dreher, eles “não negaram suas raízes luteranas, mas não quiseram a Igreja de estrutura episcopal. Optaram por modelo congregacional”. Para essa Igreja local, explica, escolheram pastores do próprio meio, seguindo a tradição de batismo como ordenação do cristão.
Além de uma posição peculiar no que se refere à religião, “há entre os pomeranos uma ética de trabalho muito acentuada”, ressalta o pesquisador, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. Embora essa seja uma prática comum entre os imigrantes e já tenha se passado 150 anos da imigração, os pomeranos consideram que o “o ser humano vive para trabalhar; não trabalha para viver”, explica.

Dreher, que é professor e pesquisador no PPG em História da Unisinos, possui graduação em Teologia, pela Escola Superior de Teologia (EST), e doutorado em Teologia com Concentração em História da Igreja, pela Ludwig Maximilian Universitat München. Recentemente, o professor da Unisinos organizou, juntamente com os pesquisadores Imgart Grützmann e J. Feldens, o livro A imigração alemã no Rio Grande do Sul. Recortes (São Leopoldo: Oikos, 2008). Além desse, Dreher publicou outras obras, dentre as quais destacamos Populações rio-grandenses e modelos de Igreja (Porto Alegre, São Leopoldo: EST, Sinodal, 1998), História do povo luterano (São Leopoldo: Sinodal, 2005) e A Igreja no Mundo Medieval (São Leopoldo: Sinodal, 2005).

 

IHU On-Line – Como o senhor avalia o processo de migração dos pomeranos para a região de São Lourenço do Sul?

Martin Dreher - A colônia de São Lourenço do Sul é implantada no mesmo período em que estão surgindo colônias semelhantes no Brasil. Lembro Santa Cruz do Sul, Blumenau e Domingos Martins e Santa Leopoldina no Espírito Santo. Para estas colônias, vêm grandes contingentes de pomeranos. A Pomerânia foi a última das regiões alemãs em que foi eliminada a servidão da gleba. Ali também foi promovida reforma agrária pelas autoridades prussianas. Os ex-servos receberam terras, mas não tinham meios de produção, e a reforma agrária terminou em fracasso. Houve maior concentração de terras nas mãos dos latifundiários, e aos servos nada mais restou a não ser a emigração. Isso explica o grande contingente de pomeranos que veio ao Brasil.

IHU On-Line – Mas o processo de migração dos alemães que vieram para o Sul em 1824 e dos pomeranos que vieram posteriormente foi diferente? Em que sentido? 

Martin Dreher - Em 1824, temos uma situação social. Estamos sofrendo o final da Era Napoleônica. Há muitos soldados desincorporados, sem trabalho. Como os produtos ingleses industrializados invadem o continente europeu, os artesãos alemães não conseguem concorrer, aumenta o número de pobres, mendigos, vadios. A falta de trabalho tem leitura moralizante: “Quem é pobre é porque não quer trabalhar!”. As Casas de Correção se enchem. Nelas, os pobres devem aprender a trabalhar. Muitos dos que vêm em 1824 são egressos das Casas de Correção ou pessoas que, devido a suas condições sociais, estão prestes a nelas entrar.

Em 1850 a situação é outra. A industrialização e as crises na indústria alemã estão gerando contingentes de desempregados. Há transformações na estrutura agrária. Sobra gente no campo e elimina-se a servidão da gleba no Leste alemão. Mas, antes e agora, existe gente sobrando. Os que sobram em 1850 já sofreram o impacto das revoluções liberais de 1848, receberam outra formação escolar, fizeram outros aprendizados técnicos. Por isso, são distintos daqueles que vieram antes da Revolução Farroupilha (1835-1845).

IHU On-Line – Como o modelo feudal a que os pomeranos estavam submetidos na Alemanha influenciou o estilo de vida deles nas colônias de São Lourenço do Sul e Pelotas?

Martin Dreher - Servos são pessoas muito sofridas, pois estão constantemente submetidos aos desmandos dos senhores. Os pomeranos experimentaram isso de muitas maneiras. Eram explorados física e espiritualmente. Especialmente as mulheres experimentavam a exploração, pois aos senhores estava reservado o “direito à primeira noite” (ius prima nox). Os pastores luteranos eram empregados dos senhores e, não raro, os servos viam o pastor ser surrado ao desobedecer ao senhor. Por outro lado, os pastores eram porta-vozes desses patrões. Para passar o senhor para trás, os namorados, com a conivência dos pais, tinham relações sexuais pré-matrimoniais, o que levou a que a gravidez pré-matrimonial fosse estigmatizada e estigmatizada a mulher. A noiva grávida não poderia usar véu ou grinalda. Caso a gravidez fosse ocultada, os noivos seriam publicamente repreendidos no culto da comunidade. No Brasil, experimentou-se liberdade. Essa liberdade manteve relações pré-matrimoniais, mas não como regra. Ocasionalmente, os colonos bateram no pastor: agora eles eram os “senhores”. Finalmente, não quiseram se submeter a uma Igreja Territorial organizada, como a conheciam na Alemanha. Não negaram suas raízes luteranas, mas não quiseram a Igreja de estrutura episcopal. Optaram pelo modelo congregacional: Igreja é comunidade local. Para essa Igreja local, escolheram pastores do próprio meio, seguindo a tradição do batismo como ordenação do cristão.

IHU On-Line – Como os pomeranos se relacionaram com os imigrantes alemães que já estavam instalados no Brasil?

Martin Dreher - Aqui é bom dizer que, entre os imigrantes alemães, há pomeranos desde 1824. Sempre houve imigração pomerana. A partir da década de 1850, passamos a receber contingentes expressivamente maiores de pomeranos, pelos motivos acima apresentados. Também é bom que se lembre que, antes de 1871, não vem imigrantes “alemães” para o Brasil. Todos são súditos de estados independentes. São badenses, bávaros, hamburgueses, prussianos, oldenburguenses, hanoverianos, westfalianos etc. Aos poucos, vão ser identificados pelo meio como “alemães” e, eles próprios vão se assumindo como tais. De modo geral, as relações entre esses diferentes “alemães” foram boas.

IHU On-Line – Qual a contribuição dos pomeranos para o desenvolvimento social e econômico dos municípios de Pelotas e São Lourenço do Sul?

Martin Dreher - Os imigrantes que se estabeleceram em terras do então município de Pelotas e que eram majoritariamente pomeranos dedicaram-se à agricultura e às mais diferentes formas de artesanato. Sua produção logo gerou excedentes que contribuíram para o crescimento de cidades como Pelotas e Rio Grande.

IHU On-Line – Os pomeranos sempre primaram pela tradição. Eles tinham o mesmo sentimento em relação à educação?

Martin Dreher - Como súditos do estado prussiano, os pomeranos vinham de região, na qual havia obrigatoriedade de ensino desde meados do século XVII. Essa tradição foi mantida. Até 1919, pode-se contabilizar um total de 81 escolas na colônia. Todas elas são escolas comunitárias. Sua contribuição não deveria ser minimizada. A ela se deve forte tradição de que lugar de criança é na escola e um baixíssimo índice de analfabetos. Em 1922, em São Lourenço do Sul, de 209 noivos, 158 eram alfabetizados; de 209 noivas, 149 eram alfabetizadas. Esses dados são tanto mais importantes se comparados ao fato de que no município de Torres havia então 90% de analfabetos.

IHU On-Line – Que aspectos da cultura pomerana os distingue dos conterrâneos alemães?

Martin Dreher - Cada grupo humano tem algumas características especiais. Elas provocam pequenas características distintivas. O aspecto que talvez mais distinguia, no passado, os pomeranos das tradições de outros grupos, foram as práticas ligadas às festas de casamento. Antes de ser marcada a data do casamento, um representante do rapaz, seus pais ou ele próprio pedia licença para que o casamento acontecesse. Marcada a data, era estabelecido contato com o pastor, contratada uma cozinheira, banda de música. Havia a figura de um Hochzeitsbitter, que ficava encarregado de realizar convites em nome do casal. A cavalo ia à casa do convidado, e anunciava o convite formulado com versos e rimas. Na prática, toda a colônia acabava convidada, pois de alguma forma todos estavam envolvidos. Daí também a importância da contratação de uma cozinheira ou de as vizinhas assumirem os preparativos. No dia do casamento, os noivos dirigiam-se pela manhã à igreja. O noivo vestia terno, a noiva veste de gala preta e grinalda branca. A roupa de ambos continuaria a ser utilizada em todas as ocasiões solenes de que viessem a participar no futuro.

Na ceia do casamento, se comia sopa com massa fina, assado de carne de gado e de porco com chucrute e batatas, então leitão, assado de galinha, peru e ganso e, finalmente, ensopado de galinha com massa e pêssego. Depois, havia música e dança. No baile, dava-se destaque às cozinheiras ou vizinhos que se haviam empenhado pelo êxito da festa. À tarde, servia-se café e cucas.
Mas há também características distintivas menores: há pequenos detalhes que tornam seus cemitérios distintos dos cemitérios de outras colônias alemãs. Verdade é que em todas as regiões de imigração alemã os cemitérios são locais de preservação da memória comunal. Nas regiões de São Lourenço do Sul e Pelotas, há um distintivo: os epitáfios estão inscritos em quadros de porcelana que são afixados na pedra tumular.

Houve, também, a tradição de pintarem suas casas com as cores da bandeira pomerana. Os gansos são parte integrante de sua culinária. Seu dialeto é único, mas pode ser perfeitamente entendido pelos westfalianos.

IHU On-Line – No que se refere ao funeral, como os pomeranos celebravam a morte? O que os diferencia dos demais alemães, nesse sentido?

Martin Dreher - A morte é instante de dor para todas as pessoas. Ai não há diferenças. Quanto ao ritual propriamente dito, os pomeranos seguiam o ritual da Igreja Luterana, não se distinguindo dos demais alemães. Também entre eles, o canto era muito importante. Nas localidades em que havia coral, este acompanhava com cânticos, na casa mortuária e no cemitério, a despedida da família ao falecido. Em geral, um ano após o sepultamento, a pedra tumular era inaugurada. No último domingo do ano eclesiástico, o domingo antes do primeiro domingo de advento, havia visita aos cemitérios: era o domingo da eternidade. Aos poucos, sob influência do catolicismo dominante, a visita aos cemitérios passou a acontecer em 2 de novembro, finados.

IHU On-Line – A crença luterana dos pomeranos é diferente da dos luteranos alemães? Qual a representação que a Igreja Luterana e a figura do pastor possuem junto à comunidade pomerana?

Martin Dreher - Fundamentalmente não há diferença na doutrina. As diferenças sempre aparecem nas práticas populares. Na Pomerânia, originaram-se as chamadas “cartas celestes”, cartas que teriam caído do céu e que devem ser copiadas literalmente e entregues, anonimamente, a determinado número de pessoas. Quem não o fizer vai sofrer malefícios. Depois, sempre houve crença em bruxas. O torcicolo sempre foi “tiro de bruxa”. No entanto, a Igreja Luterana moldou essas populações. O peculiar da região de Pelotas e de São Lourenço foi o modelo congregacional de igreja, optando os colonos por eleger pessoas de seu próprio meio, as quais foram incumbidas com funções pastorais. Uma vez eleito, o pastor passa a ser pessoa investida de autoridade, mas isso não significa que não possa ser questionado, também no tocante ao que está a ensinar.

IHU On-Line – Como os pomeranos convivem com a religião luterana e as crenças pagãs? O senhor acredita que a partir dessas duas crenças, eles criaram um “estilo” de religião peculiar e independente? 

Martin Dreher - O ser humano é sincrético. Por isso, não há religião pura. Sempre que há conversão, permanecem concepções anteriores. Da tradição agrícola, os pomeranos herdaram a tradição de, no dia do batismo da criança, dar-lhe envelope com sementes ou pequeno travesseiro em que estas sementes estão costuradas. São votos de prosperidade e de fertilidade. Antes de se tornarem cristãos, adoravam Ostara, divindade da fertilidade, cujo símbolo maior é o ovo. Hoje todos os alemães celebram Ostern=Páscoa, como festa da ressurreição de Cristo, mas o nome de Ostara permaneceu. Permaneceu também o ovo. Entrementes, assumiram tradições que vêm das muitas culturas que formam o povo brasileiro. Por isso, eu não diria que os pomeranos criaram estilo de religião peculiar. No fundo, cada ser humano é peculiar.

IHU On-Line - Como o senhor define a visão de mundo dos pomeranos? O que eles pensam sobre a vida, a morte, o trabalho e a família?

Martin Dreher - É cada vez mais difícil falar “do” pomerano nestes aspectos. O estudo de André Droogers  sobre o assunto mostra que suas concepções não estão muito distantes da dos demais brasileiros. Durante muito tempo, a morte esteve, para eles, integrada à vida. Hoje sofrem das mesmas influências que fizeram com que sexo não fosse mais tabu, mas que morte passasse a ser tabu. No meio rural, crianças pomeranas ainda vêem avós morrerem em casa, mas isso não é mais regra. Elas participam mais de velórios do que crianças do meio urbano. A modernidade, contudo, vai alterando tradições rapidamente. Há entre pomeranos uma ética de trabalho muito acentuada: o ser humano vive para trabalhar; não trabalha para viver. Mas esta não é uma característica só deles. É característica de migrantes. Migrantes só são aceitos enquanto forem força de trabalho importante. Por isso, matam-se no trabalho, precisam mostrar que são “laboriosos”. Quando houver falta de trabalho passam a ser alienígenas que tiram o trabalho “dos da terra”. É certo que já se passaram 150 anos, mas há questões que ficam na cultura de um povo e estão “debaixo da pele”.
Sua família sempre foi patriarcal, mas a mulher foi, como escreveu um pastor que durante longos anos atuou em Arroio do Padre/RS, o “pontinho da balança”, o fiel da balança. Os filhos devem obediência aos pais. Na atualidade, a modernidade também se faz presente e as coisas vão mudando. A História não para no tempo.

IHU On-Line - Os pomeranos são conhecidos também pelo jeito reservado que possuem. Como o senhor descreve a sociabilidade entre eles, nas comunidades livres?

Martin Dreher - O pomerano é reservado em relação ao adventício. É bom cuidar, ele poderia ser representante do senhor feudal! Quando, porém, verificar que o adventício é “gente boa” e “sério”, não há mais relação fria. Todos são altamente sociáveis.

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