Edição 271 | 01 Setembro 2008

Silenciados pela hegemonia alemã

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Patricia Fachin

Segundo o pesquisador Carmo Thum, a cultura pomerana foi reinventada no Brasil, onde sofreu forte influência política e religiosa

“Os pomeranos há muito tempo são considerados ‘menos’ no jogo de forças culturais. No mundo medieval, vivenciaram uma situação de servidão de longo prazo. Na Modernidade, permaneceram ligados ao mundo camponês, ao trabalho agrícola”, avalia o historiador Carmo Thum, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line desta semana. No Brasil, o sentimento de inferioridade permaneceu, e a germanização cultural dos pomeranos esteve, segundo o pesquisador, diretamente atrelada às institucionalizações política e religiosa. “A presença de pastores e professores alemães nas comunidades pomeranas foi um dos elementos mais significativos nesse processo”, argumenta. E dispara: “O modo de ser alemão socialmente aceito pelo imaginário coletivo como modo superior influenciou muito as perspectivas pomeranas no Sul do Brasil”.

Nas terras de Serra dos Tapes, no Rio Grande do Sul, a situação de servidão exercida na Pomerania no século XIX se repetiu. Com pouca participação política nas colônias alemães, os pomeranos “sempre foram representados. A ação política deles restringia-se nos domínios da comunidade”, comenta Thum, que em seguida reitera: “A voz dos pomeranos não foi pronunciada e, nos casos em que aconteceu, não foi ouvida, porque era silenciada pelas estruturas locais de poder, que na maioria das vezes estavam nas mãos de imigrantes alemães”. Além de sofrem impactos culturais de seus conterrâneos, as crenças religiosas desse povo também foram criticadas e desvalorizadas, com o intuito de retirar-lhes a autoridade. “A decisão de se ter um pastor próprio da comunidade, que escolhia entre os seus um representante para assumir a tarefa dos ritos religiosos e educativos da comunidade foi vista pelas organizações germânicas do Brasil como algo sem fundamento, sem valor, e esses pastores foram denominados de ‘pseudo-pastores’, ‘pastores-colonos’”, explica. 

Carmo Thum é graduado em Pedagogia, pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel), e mestre em Educação, pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Professor assistente da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Thum está cursando doutorado em Educação na Unisinos.

IHU On-Line - Como se deu o processo de germanização cultural dos pomeranos?

Carmo Thum - Houve diferentes movimentos germanizadores. Um dos momentos mais expressivos desse processo foi a cristianização dos pomeranos no século XI, onde a Segunda Cruzada  teve papel fundamental. Porém esse processo não aconteceu somente no mundo Europeu. Os pomeranos, vivendo por muito tempo sob o jugo dos germânicos, política e religiosamente, imigraram para diversas partes do mundo e, no Brasil sofreram uma nova situação de germanização devido à situação de imigrantes. Identificavam-se os imigrantes na sua condição de estrangeiros nas terras da América, e fazer parte de um grupo era desejo de muitos que para cá imigraram. Assim, a cultura alemã hegemônica novamente agiu sobre o mundo cultural pomerano, agora no Brasil, germanizando a maior parte dos costumes e ritos advindos da cultura pagã pomerana. É necessário lembrar que o paganismo só passa a ser visto com preconceito a partir da institucionalização das igrejas. Antes disso, a religiosidade dos grupos humanos seguia rituais específicos a cada grupo. Mesmo assim, muitas das práticas religiosas advindas da cultura eslava estavam (estão) presentes entre os pomeranos, e foram aqui reinventadas. Contudo, a institucionalização política e religiosa exerceu forte impacto para a germanização cultural deles no Brasil. A presença de pastores e professores alemães nas comunidades pomeranas foi um dos elementos mais significativos nesse processo. O modo de ser alemão socialmente aceito pelo imaginário coletivo como modo superior influenciou muito as perspectivas pomeranas no Sul do Brasil. Influenciou, mas não eliminou a cultura desse povo. Ela está presente em vários momentos da vida cotidiana.

IHU On-Line - O senhor disse que há um silenciamento da cultura pomerana por parte da ideologia hegemônica da cultura alemã. A que atribuiu essa “negação” ou “diminuição” por parte dos imigrantes alemães?

Carmo Thum - Na disputa das verdades políticas, há grupos que alcançam um grau de estrutura organizativa capaz de produzir um discurso homogenizador das diferenças culturais. O silenciamento da cultura pomerana sofre essa ação homogeneizadora. Os pomeranos há muito tempo são considerados “menos” no jogo de forças culturais. No mundo medieval, vivenciaram uma situação de servidão de longo prazo. Na Modernidade, permaneceram ligados ao mundo camponês, ao trabalho agrícola. O urbano tem como contraposto o rural. O ideário moderno apresenta a cidade como a possibilidade de progresso.

No caso dos imigrantes da Serra dos Tapes, a busca por lavradores pomeranos se deu a partir da necessidade de arregimentar um grupo humano acostumado à submissão e ao trabalho agrícola. De outro lado, também temos a constatação de que eles apresentaram incipiente ação política. No jogo de forças políticas sempre foram representados. A ação política deles restringia-se nos domínios da comunidade. Portanto, a voz dos pomeranos não foi pronunciada e, nos casos em que aconteceu, não foi ouvida, porque era silenciada pelas estruturas locais de poder, que na maioria das vezes estavam nas mãos de imigrantes alemães. Os detentores dos espaços de comunicação com o mundo externo eram os donos das “vendas”. Eles eram os que dialogavam com o mundo externo à comunidade, eles falavam uma “língua” considerada “língua fina”, e os pomeranos falavam um dialeto. Isto está sendo questionado hoje! Quem afirma ser a língua pomerana um dialeto? A cultura hegemônica alemã. O Pomerano é a língua de grande parte dos imigrantes, que são camponeses, lavradores rurais. Essa disputa de valor cultural vem de longo prazo e é visível em muitos grupos. A cultura do silêncio para Paulo Freire  é justamente essa situação: “impossibilidade de homens e mulheres dizerem sua palavra, de atuarem como agentes políticos, sem condições de interferirem na realidade, geralmente uma situação opressora e desvinculada da sua própria cultura” (Osowski, 2008, p. 110).

IHU On-Line - Por que, dentro do arranjo mundial das culturas, o senhor considera a pomerana uma das fugidias?

Carmo Thum - Mesmo sendo reinventada no jogo das relações culturais, o modo de ser pomerano persiste em várias práticas. Perceber essas práticas requer perspicácia e envolvimento. Com as inúmeras situações em que sofreram o processo de dominação cultural, os pomeranos aprenderam a codificar sua cultura em rituais que se assemelham a cultura dominante, mas que na verdade significam coisas diferentes (ao grupo pomerano) daquilo que é percebido pelos demais. Fugidia porque não toma forma pública, não disputa politicamente espaços e poder, fruto de um processo na qual ela aprendeu a resistir a processos de opressão e exclusão.

IHU On-Line - De que maneira os referenciais de trabalho e as relações de poder estabelecidos entre os pomeranos na Alemanha influenciaram no modo de vida e na organização do município de São Lourenço do Sul?

Carmo Thum - Relata a historiografia que os pomeranos, de longo prazo, estão submetidos à cultura hegemônica alemã, tanto no que diz respeito ao gerenciamento da vida política quanto ao gerenciamento da vida religiosa. Essa situação de servidão repetiu-se na Serra dos Tapes. Aos pomeranos, o trabalho da terra; aos outros, o comércio e a vida pública. Observamos esses elementos presentes até hoje.

A decisão de se ter um pastor próprio da comunidade, que escolhia entre os seus um representante para assumir a tarefa dos ritos religiosos e educativos da comunidade, foi vista pelas organizações germânicas do Brasil como algo sem fundamento, sem valor, e esses pastores foram denominados de “pseudo-pastores”, “pastores-colonos”, destituindo-os de seu fazer e retirando o valor de seu saber, retiravam deles a autoridade. Valor de verdade somente aos pastores formados, vindos da Alemanha. Essa perspectiva representou a cultura dominante. Ao longo de quase meio século, as comunidades organizaram suas estruturas e formas de relação. Quando da criação de Instituições gerais, com perspectivas diferenciadas das dos pomeranos, as suas formas de ser foram consideradas como “temporárias”.

Na atualidade, esses aspectos estão sendo percebidos. Muitas vivências nas práticas religiosas dos pomeranos aparecem aos poucos nas pesquisas que têm o cuidado de não julgar e, com isso, possibilitar a visibilidade de narrativas sobre experiências significativas vividas até hoje por famílias pomeranas, no interior do Brasil.

IHU On-Line – Se os pomeranos não se reconhecem como alemães, como acontece o reconhecimento nacional desses povos?

Carmo Thum - Por mais sujeição que os pomeranos tenham sofrido historicamente, existem sempre situações e possibilidades de consciência identitária. Esse movimento vem tomando corpo dentro do movimento contemporâneo do respeito à diversidade cultural. Os pomeranos estão em franco processo de reinvenção e de luta pela dignidade cultural. No âmbito brasileiro, buscam o reconhecimento de povo tradicional. Aqui no Rio Grande do Sul, o movimento ainda é modesto, mas já há uma Portaria Estadual para criar um Comitê Estadual sobre a questão pomerana, e espera-se que sejam realmente executadas e caminhem para institucionalizarem-se como políticas públicas. Existem organizações civis atuando junto ao mundo pomerano, no sentido do resgate da memória, da interpretação dos movimentos históricos com vistas à produção de um presente-futuro alicerçados nos interesses e perspectivas dos pomeranos. Como exemplo, cito o Caso do CEPPAD (Centro de Educação Popular, Pesquisa, Assessoria e Documentação), que vem atuando desde 2004 junto às comunidades pomeranas no Sul do Rio Grande do Sul.

IHU On-Line - Como ocorreu o processo de construção das comunidades livres pomeranas? Como o senhor as descreve?

Carmo Thum - A presença de comunidades que construíram uma forma institucional religiosa própria e particular é um precedente histórico localizado, dado a sua singularidade. Ela acontece com mais forças entre os pomeranos, e é entre eles que permanece viva. Trata-se de comunidades evangélicas organizadas autonomamente, com organização religiosa e escolar próprias, que não estão ligadas a nenhuma ordem institucional religiosa (sínodo, paróquia, diocese etc.). Nestas, a forma de gestão da vida religiosa e escolar dava-se a partir dos ditames provindos da vida comunitária, onde os moradores escolhem seus pastores, seus professores e organizam seus rituais a partir de princípios locais/ordinários. Esse processo ocorreu devido o isolamento vivido pelas comunidades pomeranas no sul do Sul, e tiveram como elementos reforçadores desta prática: a) a incapacidade de diálogo dos pastores alemães para com a comunidade pomerana; b) a rebeldia das comunidades aos ditames dos pastores alemães, que arbitrariamente desejavam condicionar às práticas religiosas locais aos preceitos da Igreja luterana alemã; e c) a tradição pagã pomerana, com suas práticas e rituais mágicos permanecendo vivas na forma de ser, mesmo após a violenta cristianização sofrida desde o século XII.

Autonomia nas comunidades livres

Sabe-se que o cristianismo não aceita práticas ritualísticas de cunho animista. A religiosidade pomerana, constituída a partir de noções advindas do mundo da natureza, resiste abandonar determinadas formas de compreensão de mundo e de práticas de cura milenares que têm como substrato a concepção de mundo originada na cultura eslava/wende. Dado às práticas corriqueiras do cristianismo em aniquilar e destituir de verdade outras formas religiosas de ser, os pomeranos, que na Alemanha sofriam com a intervenção do Estado Germânico, ao imigrarem para o Brasil e aqui serem abandonados à própria sorte, acabaram por construir uma nova versão de organização religiosa. Estas formas, que persistem até hoje no Sul do Rio Grande do Sul, foram violentamente difamadas no processo de construção sinodal (entre 1864 e 1920), fato esse que aprofundou as cisões existentes entre os grupos particulares.

Práticas de constituição de um modo religioso autônomo não são bem vistas pelas instituições hegemônicas. Destituir o pastor local, através de uma ação de questionamento de sua moral, de seu conhecimento e de sua autoridade teológica, são formas muito eficazes de combater as iniciativas comunitárias autônomas. Normalmente, as instituições tendem a expandir seus “poderes” para um universo maior, extrapolando seu contexto e utilizando para tanto algumas estratégias de destituição da verdade do outro. Essa foi uma das formas utilizadas para questionar a autoridade dos pastores-colonos, que, por não serem “formados”, não teriam competência para tal ofício.

IHU On-Line - Os pomeranos são conhecidos por acreditarem em várias crenças pagãs, além de manterem objetos como amuletos, anéis, crucifixos, ao mesmo tempo em que se consideravam luteranos. Isso gera algum constrangimento com a Igreja Luterana (IELB, IECLB e as Livres)? Como se dá a relação entre ambos?

Carmo Thum - Gera constrangimentos com certeza. Há relatos de que o pastor não aceitava determinadas práticas costumeiras das comunidades pomeranas, tais como “guardar a água do batismo”, “derrubar as cadeiras e os bancos que sustentavam o caixão”, usar o “hilmesbrief”  como forma de proteção, benzer a criança em determinadas situações. Muitos foram os casos em que os membros de uma comunidade resolveram afastar-se devido à intransigência do pastor (formado) para com os costumes locais. No que se refere à morte e seus rituais percebe-se perfeitamente a apropriação dos símbolos pagãos pela Igreja e alteração de seus significados.

Na atualidade, há a presença de diferentes organizações religiosas evangélicas luteranas, que convivem no mesmo espaço. Houve um tempo de conflito aberto, o que hoje já está em fase de superação.

IHU On-Line - Como tem sido difundida a cultura pomerana entre os jovens descendentes? Como eles interpretam a cultura local?

Carmo Thum - O processo de investigação, de reavivamento da memória e de interpretação da cultura está sendo realizado através de ações culturais de pesquisa e intervenção junto às comunidades interessadas, com a participação da Fundação Universidade do Rio Grande (FURG) e do CEPPAD. Nos antecederam nessa ação outras instituições e pesquisadores, em especial os ligados a  Faculdades EST/IEPG e onde alguns estudos foram realizados e se transformaram em obras de referência, assim também como outras universidades (PPGE/Unisinos e PPGE/UFPel e UFF) que realizaram incursões nesse campo. Destaco a obra Educação Popular e Teologia das Margens (São Leopoldo: Sinodal, 2003), de Edla Eggert,  que busca analisar o papel da mulher na vida comunitária-religiosa.

Esse movimento permite um espelhamento da cultura pomerana entre os pomeranos, o que os leva a refletir sobre as perspectivas atuais e futuras das comunidades diante do contexto da globalização. Através de eventos de pesquisa, de momentos de interpretação e de exposições de objetos/histórias de vida os jovens, as crianças e os adultos envolvem-se numa ação reinventiva da cultura local, tendo como substrato o passado. Em várias comunidades estão nascendo intenções de emancipação cultural e política. Espaços de memória estão sendo planejados no conjunto da comunidade. Parte dessas ações é desenvolvida a partir do projeto de extensão “História, Memória e Educação”.

IHU On-Line - Nas sessões de coleta de cultura material e imaterial realizada nas escolas, que objeto ou história mais lhe chamou atenção em relação à cultura pomerana?

Carmo Thum - Várias foram as histórias narradas. Como exemplo dessas narrativas temos a história da fabricação dos tijolos e a do folguedo do Stüpa.  No primeiro caso, a vida cotidiana busca encontrar formas de produzir artesanalmente os tijolos para a construção das casas e para tal necessita de um número razoável de pessoas, em especial na hora da “queima no forno”. Chamam-se os vizinhos para participarem desse processo que dura a noite toda. No folguedo do Stüpa, o processo da brincadeira, da cantoria, da festa é fortemente marcado pelos laços comunitários em situação de êxtase. No mundo da cultura material, a presença do “hilmesbrief” é um elemento muito intrigante. O ritual dos casamentos, a presença até por volta de 1960 do vestido preto, indica a forte presença da cultura pomerana nos espaços pesquisados.

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