Edição 271 | 01 Setembro 2008

Triglaw: a proteção pomerana

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Patricia Fachin

A história dos pomeranos é marcada por mil anos de guerras, submissão e destruição da sua própria cultura, assinala o teólogo Wilhelm Wachholz

 

Além de um passado caracterizado pelo servilismo, outras particularidades distinguem os pomeranos dos seus conterrâneos alemães. Estas se destacam através da religião, assegura o teólogo Wilhelm Wachholz. Rituais sagrados, como o batismo, o casamento e a morte, estão impregnados de crenças pagãs cultuadas há séculos pelos pomeranos. “A cultura pomerana guarda elementos do que podemos denominar de pré-modernidade”, na qual “a religião repassa toda a vida”, afirma o pesquisador. Entre as diferenças, ele chama a atenção para o batismo, que na cultura pomerana também tem o sentido de proteção contra a feitiçaria. “Um exemplo evidente da distância que pode haver entre a compreensão de batismo pela Igreja ou pelo pomerano está no ‘Patenzettel’ (bilhete dos padrinhos)”. E explica: “Havia a praxe de os padrinhos entregarem, logo após a celebração do batismo, um envelope ao afilhado ou afilhada, onde se colocava sementes de cereais, pêlos de animais, agulha e linha, farelo de pão e um pouco de terra. O sentido disso era o desejo de boas colheitas, sorte com animais e vestimenta, votos de fartura e terras produtivas, respectivamente”.

Na entrevista que segue, concedida à IHU On-Line por e-mail, Wachholz resgata aspectos históricos da sociabilidade pomerana na Europa e as transformações sofridas em terras brasileiras, devido ao projeto de nacionalização do Governo Vargas. Além disso, descreve as práticas populares que estão interligadas ao estilo de vida pomerano.

Wilhelm Wachholz é graduado e doutor em Teologia, pela Escola Superior de Teologia (EST). Coordenador-geral dos Programas de Pós-Graduação em Teologia da EST, é docente na mesma universidade e secretário-geral da Associação Nacional de Programas de Pós-Graduação e Pesquisa em Teologia e Ciências da Religião (ANPTECRE).

 

IHU On-Line - Como o senhor classifica a situação política e social da Pomerania, antes da unificação da Alemanha? Como os pomeranos viviam naquele contexto?

Wilhelm Wachholz - O povo pomerano tem uma história de cerca de mil anos de guerras, submissão a conquistadores estrangeiros e de destruição de sua própria cultura. Localizada na região do Mar Báltico, a Pomerânia foi um território disputado desde o século X por governantes poloneses, dinamarqueses, saxões, brandenburgenses. Culturalmente, a influência eslava foi muito importante sobre os pomeranos. A cristianização dos pomeranos data aproximadamente o ano de 1168. Em 1534, a Pomerânia se tornaria luterana, razão pela qual a maioria dos pomeranos são, atualmente, luteranos, especialmente membros da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB) e, em menor número, da Igreja Evangélica Luterana do Brasil (IELB) e Igrejas Luteranas Livres (neste caso, especialmente no sul do Rio Grande do Sul).

Outra marca deste povo é que, após relativa liberdade associada ao assentamento na Pomerânia, a partir do século XVII, paulatinamente o povo é transformado em servo, ou seja, escravo, sem direitos, doando sua mão-de-obra em troca de alimento. Quando da reconfiguração do mapa da Europa na segunda metade do século XIX, ocorreu nova série de conflitos até a relativa paz depois da unificação dos territórios alemães em 1871. Ainda assim, a unificação alemã significou para este povo integrar uma nação com identidades culturais bastante distintas da sua própria identidade. Além disso, produziu desemprego e refugiados políticos. A falta de moradias, crise econômica e fome foram efeitos colaterais. As ondas emigratórias, particularmente de pomeranos para o Brasil, deveram-se à busca de sobrevivência destas massas populacionais. Finalmente, após a Segunda Guerra Mundial, quando a região foi ocupada por tropas soviéticas, realizou-se uma profunda “limpeza étnica”, desalojando-se cerca de dois milhões de pomeranos e incorporando-se cerca de 70% da área geográfica da Pomerânia à Polônia.
 
IHU On-Line - Como ocorreu o processo de colonização e sociabilização dos pomeranos, ao chegarem ao Brasil?

Wilhelm Wachholz - Os pomeranos foram assentados especialmente em regiões do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Espírito Santo. Em alguns lugares, como por exemplo, em São Lourenço do Sul e no Espírito Santo, podemos encontrar grupos bastante homogêneos. Particularmente, defendo a tese de que não se pode afirmar que os pomeranos, inclusive aqueles assentados em colônias de imigrantes preponderantemente pomeranos, viveram isolados de outras culturas. É claro que não se pode falar de contatos destas populações de forma retilínea em todos os tempos. Os precários meios de comunicação do século XIX falam por si o quanto eram difíceis os contatos com “os de fora”. Ainda assim, as inúmeras narrativas descrevendo a importância da “não contaminação” com “os de fora” não podem ser lidas simplesmente como ausência do contato com os diferentes, mas não raramente a constatação que este contato ocorria.
 
IHU On-Line - Que influências e mutações a identidade pomerana sofreu, em terras brasileiras?

Wilhelm Wachholz - É muito difícil identificar todas as mutações na identidade pomerana. Contudo, o caminho em busca desta resposta não pode desconhecer a questão da língua pomerana (o Plattdeutsch). Tanto a escola quanto a Igreja, cuja língua predominante foi o alto alemão, até por volta da Segunda Guerra Mundial, quanto as políticas de nacionalização por parte do Estado, que impôs a língua portuguesa aos imigrantes e seus descendentes, são fatores fundamentais a serem considerados. Como tal, a língua portuguesa representa para o pomerano duas grandezas opostas: a possibilidade de integração com a cultura brasileira, mas também sempre um pouco da negação de sua cultura anterior. Isso faz parte do próprio caráter identitário que se processa como “perdas e ganhos”. Neste sentido, escola, Igreja e Estado visam à homogeneização cultural. Esta homogeneização nunca é alcançável plenamente, mas certamente provoca transformações mais ou menos perceptíveis numa cultura. Por outro lado, as tentativas de homogeneização também provocam o efeito contrário, ou seja, a reafirmação dos “valores regionais” de um grupo étnico.
 
IHU On-Line - Com a chegada dos alemães nas colônias brasileiras, foi organizada uma cultura religiosa baseada na estrutura eclesiástica. Como os pomeranos, adeptos de crenças pagãs, lidaram com a religião preestabelecida?

Wilhelm Wachholz - Como referimos anteriormente, a cristianização dos pomeranos data do século XII. Até então, todas as populações localizadas na região do vale do rio Elba e do Mar Báltico realizavam cultos a divindades ligadas à natureza. Estas divindades previam resultados de guerras, colheitas etc. O deus do povo pomerano Triglaw tinha esta função. Quando da cristianização, elementos da religiosidade pagã continuaram sob formas cristãs. Assim por exemplo, cultos a espíritos da natureza e das matas não são estranhos entre os pomeranos. Chamou-me a atenção a fala de um aluno ao constatar que os pomeranos evitam desmatar toda a propriedade. Procuram preservar pelo menos um canto de mata, para que os espíritos maus tenham o seu lugar e não invadam o espaço dos humanos.

Como podemos perceber, a religiosidade de um povo, particularmente do pomerano, é bastante complexa. Aquilo que pode ser considerado uma contradição por parte de um teólogo, padre ou pastor, para muitas pessoas ou grupos religiosos pode ser harmonizado.
Além disso, no caso dos pomeranos no Brasil, como dos imigrantes alemães de forma geral, a assistência religiosa através de pastores formados em seminários e universidades da Europa foi bastante tardia. Além disso, o número de pastores era bastante pequeno para assistir aos pomeranos religiosamente, a exemplo do que ocorreu com o catolicismo no período do Brasil Colonial e Imperial. Diante disso, a religiosidade, em particular dos pomeranos, foi sendo vivida sem pastor, sob as bases trazidas da Pomerânia e das adaptações feitas no Brasil.

Um exemplo sobre como a compreensão da religiosidade adquiria outra dinâmica na vida dos pomeranos pode ser o batismo. Enquanto em Lutero  o batismo é compreendido como libertação e aceitação de Deus como filhos de Deus, na cultura pomerana o batismo também pode ter sentido de proteção contra feitiçaria. Um exemplo evidente da distância que pode haver entre a compreensão de batismo pela Igreja ou pelo pomerano está no “Patenzettel” (bilhete dos padrinhos). Havia a praxe de os padrinhos entregarem, logo após a celebração do Batismo, um envelope ao afilhado ou afilhada, onde se colocava sementes de cereais, pêlos de animais, agulha e linha, farelo de pão e um pouco de terra. O sentido disso era o desejo de boas colheitas, sorte com animais e vestimenta, votos de fartura e terras produtivas, respectivamente. Em alguns lugares ainda é assim que se passa estes envelopes na boca da criança, sendo em seguida abertos, sob votos de que a criança aprenda a falar logo. Em torno do batismo existe também a praxe bastante difundida segundo a qual se considera a água utilizada para a celebração, remédio ou proteção diante de doenças. Por isso, tem-se o costume de guardar a água para tais situações.
 
IHU On-Line - Qual a importância do batismo na vida dos pomeranos?  De que maneira essa celebração projeta ou planeja a vida dos recém-nascidos? 

Wilhelm Wachholz - O batismo é o primeiro rito eclesiástico na vida dos pomeranos. A importância deste rito é profunda e precisa ser compreendida, a exemplo de outras culturas, no contexto de fragilidade da vida. A mortandade infantil sempre foi muito grande entre as populações no Brasil. Isso vale também para pomeranos, tanto ainda na Pomerânia quanto posteriormente. Acreditava-se que uma criança que morria sem o batismo, não era salva. Desta realidade, os assim chamados “batismos de emergência” se tornaram uma prática bastante conhecida entre os pomeranos. Ante a iminência da morte de uma criança, o pastor era chamado para oficiar o batismo. Neste caso, a batismo representa uma segurança para a vida no além.

IHU On-Line - Na tradição pomerana, o convite do casamento é feito pelo irmão caçula da noiva. Qual o papel desse personagem na constituição desse acontecimento social? O que o casamento representa para a comunidade pomerana? 

Wilhelm Wachholz - O casamento é um dos ritos de caráter social mais importantes da cultura pomerana. Por isso, a fartura de alimentos e bebida pode ser uma característica. As festas de casamento geralmente duram três dias. O grande número de convidados tem como objetivo a reafirmação dos laços de parentesco e amizade entre familiares e vizinhos. O convidador, que vai de casa em casa realizar o convite para o casamento cerca de um mês antes, é o irmão solteiro do noivo ou da noiva. Ele provoca alvoroço no caminho por onde passa, de forma que não passa despercebido. Em língua pomerana, ele recita o convite na sala da família a ser convidada. Após o convite, oferece um gole de cachaça. O aceite da bebida e uma gorjeta é sinômimo de confirmação da presença na festa. Em sinal de agradecimento, a dona da casa prega uma fita colorida nas costas da camisa do convidador como forma de agradecimento. Portanto, o papel dele pode ser considerado como aquele que vai iniciar a “costura” dos laços entre todos que se encontrarão na festa do casamento.
 
IHU On-Line - Qual o significado do vestido preto nos casamentos pomeranos?

Wilhelm Wachholz - Existem interpretações completamente opostas em torno do uso do vestido preto pelas noivas pomeranos por ocasião do casamento. Há quem diga se relacionar com os riscos decorrentes do parto. Neste caso, preto é cor do luto, lembrando que casamento, maternidade e morte estão estreitamente relacionadas. Há também aqueles que acreditam que o preto representa a morte social da noiva, ou seja, a separação dela de sua família e o ingresso em outra. Finalmente, há também quem afirme ser esta a roupa mais acessível da época. Seja como for, normalmente a noiva se vestia de preto, com uma fita verde na cintura e uma grinalda de murta, costume trazido da Pomerânia e cultivado também no Brasil.
  
IHU On-Line - Como os pomeranos lidam com a morte? O que os rituais fúnebres e cemitérios deles revelam sobre a fé e as crenças desse povo?

Wilhelm Wachholz - Podemos encontrar vários ritos na cultura pomerana em torno da morte e do sepultamento. Logo após a morte de uma pessoa, por exemplo, pode-se verificar o rito de abrir as janelas para que a alma não encontre obstáculos no caminho ao céu. Então se ora, canta-se e fecham-se os olhos e a boca da pessoa falecida para que não atraia uma pessoa viva para junto de si. O relógio, comumente na parede ou em algum canto da casa, é parado no horário em que ocorreu a morte. Os espelhos são encobertos como forma de inutilizar o poder do diabo. Depois de banhada, a pessoa falecida é vestida com mortalha branca ou a “roupa de domingo” (a melhor roupa que ela dispunha) e sapatos. As mulheres solteiras falecidas são vestidas com roupas de casamento. Quando se trata de uma criança, brinquedos são colocados no caixão como forma simbolizar sossego na eternidade.
 
IHU On-Line - Qual o significado e o simbolismo religioso das festas pomeranas?

Wilhelm Wachholz - A cultura pomerana guarda elementos do que podemos denominar de pré-modernidade. Na pré-modernidade, a religião repassa toda a vida. Na modernidade, a religião fica circunscrita à vida particular; separa-se entre religião e vida secular, entre Igreja e Estado. Na pré-modernidade, contudo, a religião faz parte de todos os ritos cotidianos do ser humano. Chuva, sol, pesca, plantação, colheita, nascimentos, mortes são ritualizados. É, por assim dizer, a naturalização do divino, do sagrado. O povo pomerano, tanto na antiga Pomerânia quanto em terras brasileiras, continuou muito ligado “às coisas da terra”, ou seja, no meio rural. Neste meio, continuaram cultivando e ressignificando tradições, caracterizadas pela naturalização do divino.
 
IHU On-Line - Gostaria de acrescentar mais alguma coisa?

Wilhelm Wachholz - Parece-me sempre importante lembrar que identidades culturais são, em primeiro lugar, dinâmicas, ou seja, nunca são estáticas. Uma cultura não é, mas sempre está a caminho. Não é diferente com cultura pomerana. Por isso, o cientista precisa se dar conta que o pomerano é sempre mais do que aquilo que ele procura. Os recortes, delimitações, classificações, caracterizações que o cientista realiza nunca comportam a identidade como um todo. Toda cultura é parte daquilo que o cientista verbaliza. Além disso, toda cultura não é homogênea, tendo, portanto, também variantes. Finalmente, as características de uma cultura num determinado tempo podem não dizer mais a mesma coisa num outro tempo.

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