Edição 271 | 01 Setembro 2008

Jacob Rheingantz: a construção de um herói

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Patricia Fachin

Eduardo Iepsen avalia a participação de Jacob Rheingantz na construção da comunidade de São Lourenço, e apresenta uma nova versão sobre a historiografi a do município

 

Jacob Rheingantz “foi apenas o administrador de um negócio, com seus méritos e problemas, transformado em herói por uma série de autores engajados com causas particulares”, afirma o historiador Eduardo Iepsen, autor da dissertação Jacob Rheingantz e a Colônia de São Lourenço: da desconstrução de um mito à reconstrução de um história. Em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, ele questiona os feitos do prussiano, reiterados pela historiografia local por mais de um século, e afirma que toda a sociedade precisa de heróis e inimigos, fato que explica a mitologia em torno do personagem. Segundo o pesquisador, as relações entre Rheingantz e os colonos pomeranos não eram nada afáveis. “Isto pode ser comprovado em diversos abaixo-assinados movidos contra a administração Rheingantz e contraria uma longa tradição historiográfica municipal e regional: a primeira, por descrever a relação de Rheingantz com os colonos como ‘quase patriarca’; e a segunda, por apresentar os teutos e seus descendentes como figuras afastadas e desinteressadas dos processos políticos locais”, esclarece.

Iepsen é bacharel em História, pela Fundação Universidade Federal do Rio Grande (FURG), e mestre em Estudos Históricos Latino-Americanos, pela Unisinos.

 

IHU On-Line - Quem era Jacob Rheingantz? Onde ele nasceu e como migrou para o Brasil?

Eduardo Iepsen - Jacob Rheingantz nasceu em Sponheim, uma região da Prússia Rhenana, em 9 de agosto de 1817. Antes de chegar ao Brasil, em 1843, já havia migrado outras duas vezes: primeiro para a França em 1839, e em seguida para os Estados Unidos, em 1840. Já estabelecido nas terras brasileiras, mais especificadamente na cidade de Rio Grande, trabalhou por mais de uma década na casa comercial de Guilherme Ziegenbein, que mais tarde viria a ser seu sócio e, também, seu sogro. No final de 1856, Rheingantz abandona esta sociedade e parte para uma outra, ao lado do fazendeiro luso-brasileiro, José Antônio Oliveira Guimarães; a idéia: colonizar a região da Serra dos Tapes, com imigrantes alemães, suíços ou belgas. O contrato é firmado com o Governo Imperial, sendo 1440 o número mínimo de colonos que deveriam ser desembarcados para os primeiros cinco anos da empreitada. O “negócio” garantiria aos empresários 200 (vinte mil réis) por cada imigrante entre 5 e 10 anos e 300 (trinta mil) por imigrante entre 10 e 45. Os primeiros imigrantes, num total de 88, chegaram à colônia em janeiro de 1858.

IHU On-Line - Já no Rio Grande do Sul, aliado a Guimarães, como Rheingantz continuou o processo de imigração na colônia de São Lourenço?

Eduardo Iepsen - Embora os pomeranos tenham sido a maioria dos imigrantes que se dirigiram para a Colônia de São Lourenço, também vieram imigrantes de outros estados alemães e outras regiões da Europa. O processo de cooperação se dava entre eles, pois estavam na mesma condição de recém-chegados, onde o estranhamento cultural era uma premissa básica a todos. Geograficamente os imigrantes ocuparam a região da Serra dos Tapes e ficaram isolados dos portugueses e africanos, que ocuparam a zona litorânea de São Lourenço (nesta época, estas regiões estavam situadas dentro dos limites territoriais de Pelotas). Os lotes de terra, geralmente medindo 100 braças (200 metros) de frente, por 1000 braças de fundo eram negociados a valores superiores a 2000 (duzentos mil réis). Como as primeiras moradias não ficaram prontas a tempo para abrigar os colonos, foram construídos barracões coletivos. Os imigrantes seguintes passaram a morar com aqueles que já possuíam casas, e os barracões aos poucos perderam sua utilidade. Das reuniões entre Rheingantz e os colonos eram decididas questões relativas à educação, religião e segurança. Acontece que nem tudo transcorria pacificamente entre o diretor e os colonos. Isto pode ser comprovado em diversos abaixo assinados movidos contra a administração Rheingantz e contraria uma longa tradição historiográfica municipal e regional: a primeira, por descrever a relação de Rheingantz com os colonos como “quase patriarcal”; e a segunda, por apresentar os teutos e seus descendentes como figuras afastadas e desinteressadas dos processos políticos locais.

IHU On-Line - Qual a participação de José Antonio de Oliveira Guimarães, sócio de Jacob Rheingantz, na colonização de São Lourenço do Sul?

Eduardo Iepsen - José Antônio de Oliveira Guimarães foi sócio de Rheingantz durante os primeiros cinco anos do projeto colonizador; é, portanto, co-fundador da colônia. Esta sociedade, no entanto, foi igualmente alvo do esquecimento de alguns autores da história oficial de São Lourenço do Sul (leia-se: Carlos Rheingantz  e Vivaldo Coaracy), que preferiram considerar apenas Jacob Rheingantz como o único fundador. Em livros, a importância e a participação de Oliveira Guimarães só foi recuperada por Jairo Scholl Costa,  em 1984. Em jornais, porém, existem registros dessa sociedade desde 1940, quando o periódico A Tribuna aproveitou para publicar um apanhado histórico do município. Após o fim da sociedade, Oliveira Guimarães passou a se dedicar ao projeto de povoar a região do porto, onde hoje se localiza a zona urbana de São Lourenço. Na década de 1860, elegeu-se vereador na Câmara de Pelotas. Com a proclamação da República, devido a sua posição republicana, tomou posse como primeiro intendente de São Lourenço.

IHU On-Line - Quais as verdades e inverdades em torno da relação entre Jacob Rheingantz e os imigrantes pomeranos que migraram para São Lourenço do Sul?

Eduardo Iepsen - A relação entre Jacob Rheingantz e os colonos que trouxe para a colônia de São Lourenço, a partir de 1858, pode ser descrita de muitas formas, menos de patriarcal, conforme definiu a história oficial de São Lourenço do Sul. Na realidade, esta idéia de “verdades e inverdades” surge a partir da contradição existente nos diversos discursos em torno de Rheingantz, da colônia e de seus habitantes. Se, por um lado, temos um discurso laudatório que prima pelo enaltecimento incondicional do fundador, facilmente observável na historiografia sul-lourenciana, por outro, temos um diretor altamente contestado, perseguido e acuado, verificado em memórias não oficiais, repassadas de geração a geração, ou, por meio de documentos produzidos pelos próprios colonos.

As imagens de Rheingantz

A história de Jacob Rheingantz e da colônia de São Lourenço começou a ser contada há pouco mais de cem anos (1907), por iniciativa de Carlos Guilherme Rheingantz - seu primogênito – em função das comemorações do cinqüentenário de colonização alemã em São Lourenço do Sul. O livro de Carlos Rheingantz tem a intenção de recuperar a memória de Rheingantz, para que “suas obras e seus feitos não caíssem no esquecimento” da população. O autor foi extremamente bem-sucedido em sua missão: não só perpetuou o nome de seu progenitor como “O” tornou fundador de São Lourenço do Sul - esquecendo inclusive de mencionar a sociedade entre Rheingantz e Oliveira Guimarães nos primeiros anos do empreendimento -, como também criou as bases para imortalizar seus feitos: Jacob Rheingantz, enquanto herói é filho de seu filho. Os anos passaram, seguidos por outras obras comemorativas (escritas por Vivaldo Coaracy, em 1957, e por Jairo Scholl Costa, em 1984), igualmente laudatórias. Mas estas fontes não são as únicas disponíveis para se estudar o assunto. Os documentos que atestam essa crise foram produzidos durante quase toda a administração Rheingantz e apontam para uma verdadeira “Guerra Fria” em curso na colônia. De um lado, o diretor acusando os colonos de conspiradores e temendo por sua vida; do outro, colonos questionando a autoridade do empresário, queixando-se de uma série de arbitrariedades e reclamando de sua condição na colônia, segundo eles, semelhante à de escravos. No meio disso tudo, as autoridades provinciais, bombardeadas por queixas dos dois lados.

Rheingantz: herói incontestável?

De 1858, quando a colônia foi fundada, até 1877, quando faleceu, Rheingantz só esteve ausente da sua direção por cerca de dois anos, devido ao que a historiografia intitulou de a “Grande Revolta”. O protesto que reuniu cerca de 200 colonos, culminou com a expulsão da família Rheingantz da colônia, sendo motivado principalmente por promessas não cumpridas, medições errôneas dos lotes de terra e por cobranças abusivas realizadas por Rheingantz (isto segundo os documentos da época). A visão oficial, no entanto, aponta para uma revolta motivada pelo rigor autoritário do Tenente Sá Queirós (enviado pelo governo para substituir o improvisado serviço de segurança, feito pelos colonos) e pela atuação de forasteiros que manipularam os imigrantes para destituir Rheingantz do seu posto de diretor. Afirmam, ainda, que nada foi provado contra ele. Outra “inverdade”, pois as queixas dos colonos eram procedente. Muitos deles, inclusive, saíram vitoriosos nas ações movidas contra o empresário, sendo ressarcidos dos prejuízos sofridos. Além disso, a influência de “elementos estranhos” deve ser desconsiderada, pois os principais opositores do diretor foram trazidos por ele mesmo e viviam na colônia há alguns anos.

Um olhar um pouco mais apurado acaba revelando diversas contradições, omissões e deturpações se compararmos os discursos. A relação entre Rheingantz e os colonos, assim como sua atuação heróica e incontestável, deve ser revista, pois o discurso produzido por esta historiografia tem um caráter muito mais ideológico, de manutenção do status quo, do que de compromisso com o passado. Este tipo de historiografia está muito mais preocupada em criar super-homens, perfeitos e infalíveis, como “O” exemplo a ser seguido, do que admitir que a história é movida por seres humanos, propensos ao erro.

IHU On-Line - Como a história oficial e a figura de Jacob Rheingantz acabaram moldando a conduta da população de São Lourenço?

Eduardo Iepsen - A existência de mitos de origem, como o caso “Rheingantz” em São Lourenço do Sul - e/ou de um panteão de heróis - é um fenômeno extremamente comum na história de qualquer agrupamento humano. Rheingantz não é um caso isolado, apenas fruto da homenagem de um filho ao seu pai, que foi sendo alimentada no decorrer dos anos, por escritores que estavam, unicamente, prestando uma homenagem a sua memória e a seus grandes feitos. Estes escritores foram muito além e moldaram, no fundador da colônia, a pessoa imbuída de representar os valores morais almejados para os cidadãos sul-lourencianos.

Partindo do pressuposto de que as representações geram as práticas sociais (o modo de agir), fica clara a importância de Rheingantz, pois se ele serve como modelo para a sociedade, e se suas virtudes são ideais as práticas desta sociedade tendem a seguir seu exemplo. E, como Rheingantz, nestas representações, é honesto, bondoso, ordeiro, pacífico (dentre outras qualidades), garante-se a manutenção do status quo, pois é essa postura que se espera dos habitantes de São Lourenço. Agora fica fácil perceber porque tantos fatos do passado foram esquecidos e omitidos – para preservar intacta a imagem do herói que se estava construindo. O mais interessante é que esta historiografia não se limitou a designar exclusivamente as virtudes a serem seguidas pela população; existe também o alerta para o exemplo que deve ser repudiado. E estes “modelos invertidos” são, nada mais, nada menos, que os próprios adversários de Rheingantz. Todo herói necessita de inimigos; mais do que isso, toda sociedade precisa de inimigos. Com o herói, surge o exemplo a ser seguido; com o vilão, o modelo a ser rejeitado. A história oficial cumpre, assim, com sua missão de criar um herói que sirva de modelo para a população local, ao mesmo tempo em que rejeita certas condutas, tipicamente associadas aos anti-heróis, para que este posicionamento seja rechaçado: bêbados, vagabundos, desordeiros, conspiradores e mesmo forasteiros, conforme são descritos os líderes da revolta, não são bem-vindos e bem-vistos na “nossa” sociedade ideal. Os “arruaceiros” que se revoltaram contra a ordem estabelecida (Rheingantz) são o principal exemplo de conduta que não deve ser seguido pelos cidadãos sul-lourencianos. Garante-se, assim, a ordem e a continuidade tão almejadas para manutenção do estado atual das coisas. Este tipo de historiografia, geralmente, representa o poder hegemônico, e se caracteriza por narrar uma versão dos fatos onde cada membro da sociedade pode encontrar seu lugar respectivo. Ou seja, além de forjarem a memória do município, são estes autores que constroem a identidade local.
 
IHU On-Line - Por que o povo pomerano aceitou a construção mitológica em torno de Jacob Rheingantz? As relações estabelecidas entre o povo e o colonizador eram parecidas com as relações que os pomeranos mantinham na Alemanha com seus “senhores”?

Eduardo Iepsen - Embora a maioria dos sul-lourencianos (entre eles diversos descendentes de pomeranos) tenham uma imagem positiva de Rheingantz, existem redes de comunicação que ainda não foram totalmente englobadas pela visão hegemônica e, nelas, ainda sobrevive uma visão dos fatos um pouco diferente da contada pela história oficial. Lembro, por exemplo, de algumas entrevistas que fiz para a pesquisa, e esse comportamento – de preservar na memória - dos pomeranos era bastante citado por alguns entrevistados, apesar de serem memórias tristes. Claro que isso não é uma regra para toda etnia. O esquecimento é muitas vezes voluntário, indicando a vontade do grupo de ocultar determinados fatos, sendo a melhor arma para não se falar em lembranças traumáticas. Para a história oficial isto seria o ideal.

Existem alguns pesquisadores locais que comparam Rheingantz com um novo senhor feudal; não sei se é procedente, ou não. Mas, analisando as queixas dos colonos uma coisa fica clara: o modo como o diretor administrava a colônia era bastante autoritário. Dentre outras manifestações que os colonos fizeram contra Rheingantz, cabe citar uma carta enviada ao governo prussiano, no ano de 1865, onde os colonos comparam sua situação com a escravidão e rogam para que fossem libertados dessa condição. Fica a pergunta: a situação na colônia era tão ruim que muitos colonos queriam voltar à Europa? Europa que recém haviam abandonado justamente pela falta de maiores oportunidades? Provavelmente muitos colonos não tenham se adaptado à nova condição de vida na colônia, ainda mais em vista do regime quase opressor com que Rheingantz parece ter administrado seu negócio. Outros, comprovadamente, aproveitaram melhor sua mudança para o Brasil e tiveram um considerável retorno financeiro e pessoal. Mas, até hoje, entre aquela minoria que discorda da visão oficial, existe uma definição bastante recorrente sobre Rheingantz: “explorador de colonos”.

IHU On-Line - Como Jacob Rheingantz se transformou de colonizador a herói e mito?


Eduardo Iepsen - Em suma, Rheingantz foi se tornando herói graças ao interesse do poder estabelecido local em se apropriar de sua imagem como um modelo formador de condutas, afinal, ele apresentava um potencial enorme para tanto. Se observarmos sua trajetória de vida e o modo como ela foi narrada pela história oficial, fica fácil perceber que ele estava apto para servir de arquétipo à sociedade sul-lourenciana: Rheingantz viajou o mundo (ou seja, possui espírito de aventura), fundou uma colônia (é desbravador e pioneiro), trouxe imigrantes para o Brasil (auxiliou seus conterrâneos em um momento difícil), possibilitando-lhes começarem uma vida nova (possui aspirações nobres), tornando-se tutor e conselheiro dos colonos (era muito mais do que o diretor da colônia, transformou-se em pai dos colonos). Por fim, Rheingantz enfrentou uma conspiração contra si, movida por “elementos de fora”, e venceu. Sua vitória não foi selada com um conflito armado ou com vitimas; foi alcançada pelo tempo e pela sabedoria. Tempo, necessário para provar sua inocência. Sabedoria, por saber esperar a hora certa de voltar. O interesse hegemônico neste personagem se refletiu em diversas homenagens: livros, monumentos, ruas, escolas, museu, dentre outros, que levaram o nome de Rheingantz ou tem nele seu foco. Desta forma, esperava-se que o “explorador de colonos” se transformasse no “pai dos colonos”; e só o tempo e as homenagens seriam capazes de proporcionar essa mudança de perspectiva. No entanto, quando houve as primeiras celebrações a Rheingantz, elas não foram vistas com “bons olhos” pelos colonos; em 1908, em função do cinqüentenário de colonização alemã no município, foi dado o primeiro passo: inauguração de monumento, lançamento do livro de Carlos Rheingantz e transferência dos restos mortais de Jacob Rheingantz, do Rio Grande para a Coxilha do Barão, no interior de São Lourenço. Este último fato, inclusive, é mencionado pela história oficial. O que não é mencionado, porém, é a recepção que Rheingantz teve ao chegar à colônia. Segundo a memória herdada de uma entrevistada, o cortejo foi acompanhado por uma chuva de pedras e ovos, pois muitos colonos não queriam que ele fosse enterrado em São Lourenço. Apesar dessa manifestação contrária ao sepultamento do fundador, a solenidade ocorreu e os festejos prosseguiram. Rheingantz havia falecido há apenas trinta anos, e as lembranças de sua administração ainda eram muito recentes. Aos poucos, porém, o passado foi sendo esquecido e ele passou a ser quase uma unanimidade dentro do município. As homenagens se sucederam e a história foi sendo reescrita. No início deste ano foi comemorado o sesquicentenário de colonização alemã no município, e as homenagens ao fundador (e agora, também, ao seu sócio José Antônio de Oliveira Guimarães) continuaram ocorrendo.

IHU On-Line - Qual a influência e participação do jornal Voz do Sul na construção do mito em trono da figura de Jacob?

Eduardo Iepsen - Voz do Sul, jornal que circulou em São Lourenço do Sul durante 1948 e 1964, se interessou por Rheingantz especialmente em função do centenário de colonização alemã, que se realizaria no ano de 1958. Um ano antes, Vivaldo Coaracy  já havia lançado o livro A colônia de São Lourenço do Sul e seu fundador Jacob Rheingantz, em função destas comemorações. Além de “Voz do Sul” ser uma fonte valiosa no que tange aos seus discursos sobre Rheingantz (“homenagem de gratidão à memória imorrivel (sic) do Barão Jacob Rheingantz, a grandiosidade da sua secular obra que todos os lourencianos festejam, aclamando o seu benemérito nome, como um batalhador dos mais eficientes da expansão colonial germânica. Encarnado pelo cérebro e pelo coração, a figura do Barão Jacob Rheingantz, como pioneiro.”), também serve como fonte para a análise da referida comemoração, pois a cada edição anunciava novidades sobre os preparativos do evento: inauguração de monumento, recepção a autoridades estaduais e nacionais, missas católica e protestante, churrasco, confecção de selo comemorativo, concurso para escolha da Rainha do centenário (por meio de votação popular), cunhagem de moedas comemorativas, programação na rádio local com palestras referentes aos festejos e, dentre outras, uma “homenagem” do próprio jornal, que por ocasião das solenidades iria lançar uma edição especial. Assim, o jornal pode ser considerado tão importante (pelo menos na época em que circulou) quanto a historiografia, no que se refere ao enaltecimento de Rheingantz, com uma vantagem para o periódico em questão: sua maior circulação entre a população local. Voz do Sul honrava com muita razão o slogan que carregava em sua capa: “órgão dos interesses locais”.
 
IHU On-Line – Como você define a figura de Jacob Rheingantz?

Eduardo Iepsen - Eu procuro pensar Rheingantz enquanto ser humano, despido da capa de super- herói. Naturalmente que ele foi extremamente importante para o município de São Lourenço do Sul. Sua importância não pode ser negada. Porém, ela também não pode ser exagerada. Diversos fatos da história local foram apagados para que Rheingantz fosse preservado. Inúmeros colonos que foram explorados e que lutaram por seus direitos, contra a ordem estabelecida, foram chamados de baderneiros e arruaceiros, para que o nome de Rheingantz não fosse maculado. Quando iniciei este trabalho, só enxergava dois extremos: um que apontava para os grandes feitos do fundador; e outro que dava conta de um ser tirano que explorava os colonos. Depois de muito tempo, percebi que Rheingantz não era nem um, nem outro; nem herói, nem vilão. Ele foi apenas o administrador de um negócio, com seus méritos e com seus problemas, transformado em herói por uma série de autores engajados com causas particulares. Após entender isto, ficou muito mais fácil enxergar o homem por trás do mito. Além disso, percebi que a crítica deveria ser dirigida para os autores desta historiografia, e não para o seu objeto. Ao analisarmos a construção oficial em torno de Rheingantz, não estaremos vendo o diretor da Colônia de São Lourenço; estaremos, isto sim, observando uma representação idealizada de um homem que, na verdade, nunca existiu, mas que atende às necessidades do poder estabelecido.

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