Edição 271 | 01 Setembro 2008

Bons soldados e excelentes agricultores

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Patricia Fachin

A trajetória pomerana é marcada pelo trabalho agrícola, avalia José Carlos Heinemann

Especialista em pomeranos há mais de três décadas, o historiador José Carlos Heinemann tem acompanhado a história desse povo nas comunidades existentes no Brasil, localizadas no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Espírito Santo. Em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, ele comenta as peculiaridades de cada grupo e reitera a valorização dos pomeranos pela terra. “A experiência desse povo no trabalho junto a terra é milenar. Para comprovar isso, basta visitá-los no Espírito Santo, entre montanhas e vales. Com todos os percalços durante o ano: seca, chuvas fortes, frio, sol escaldante, eles abastecem grandemente outras regiões vizinhas e a capital”, destaca.

Graduado em História, pela Unisinos, e em Teologia, pela Escola Superior de Teologia (EST), Heinemann produziu o documentário Da Pomerânia a Ibirubá. A saga de um povo, no qual conta a trajetória dos primeiros imigrantes que chegaram no país em 1898, na Colônia General Osório, em Ibirubá. Em 2000 e 2001, o pesquisador esteve na Europa ministrando aulas e divulgando a história dos pomeranos, atividade que ocupa seu dia-a-dia.

IHU On-Line - Quem são os pomeranos?

José Carlos Heinemann - Antes das grandes migrações, as pesquisas apontam para grupos étnicos e de origem germânica que povoaram a Pomerânia: os ruguérios e lemovérios, tribos góticas, antigos germânicos que nos séculos III e IV invadiram o Império Romano do oriente e ocidente. Mais tarde, os ruguérios e lemovérios deixaram para trás seus doentes, idosos e aqueles que decidiram permanecer em terras junto à costa báltica e seguiram em 456 d.C. para a Itália, onde se filiaram à região do governo de Teodósio, O Grande . No lugar deles, em migração silenciosa e pacífica, vieram os sorábicos (wenden), povo que deixou as terras ao longo do rio Dnieper (Ucrânia). Eram de origem eslava, porém pertencentes aos grupos indo-germânicos. Como também eram loiros e de olhos azuis, mas de estatura menor, juntaram-se com os ruguérios e lemovérios que ficaram nas terras pomeranas, preservando a cor dos cabelos e dos olhos. A junção desses povos nessas terras próximas ao mar Báltico, originou-se o nome de Po Morju, palavra sorábica, que traduzindo significa habitantes que vivem ao longo da costa do mar, com uma extensão de 500 quilômetros. A cristianização dos pomeranos data do século XII, período em que foram batizados pelo bispo Otto von Bamberg , na localidade de Ottobrunnen.

A região da Pomerânia sempre foi povoada por várias tribos ou grupos étnicos que vinham e iam embora, porém sempre deixando as suas marcas. A melancolia deles é característica dos habitantes que vivem numa região plana, onde o horizonte é a linha divisória entre o céu e o mar ou entre o céu e o verde das matas que se encontram.

Desenvolvimento da Pomerânia

Em 1823, a Pomerânia, antiga Província da Prússia, estava dividida em três setores governamentais: Stettin (cidade capital de grande fluxo de pessoas e comércio aduaneiro) e em outras duas na região denominada de costa Báltica (Vorpommern), Strahlsund e Köslin (1266). A cidade de Stettin possuía um intenso comércio em seu porto (Swinemünde), fábricas de açúcar de beterraba, tecidos de lã, âncoras, tabaco e as especialidades de frutas secas: abóbora, maçã, pêra e ameixa.

Mercadores russos circulavam em Stettin, capital da Pomerânia de 1729 a 1945, ano do desaparecimento da Pomerânia como província prussiana. Cidade unicamente eslava que, em meados do século XII, se tornava um grande centro entreposto com o Mediterrâneo e a cidade hanseática de Lübeck . Pelo porto, passavam produtos de exportação dos camponeses, como cera, mel, produtos florestais, frutas secas, repolho, penas de gansos, troncos, madeira, alcatrão, trigo, centeio, peles de animais. Além disso, importavam produtos vindos do Sul da Europa e estados escandinavos. Essas atividades aceleraram o desenvolvimento das regiões da costa báltica, e principalmente o interior da Pomerânia, que era pobre e pouco desenvolvido.

O interior fornecia matérias-primas e alimentos que provinham dos trabalhos dos colonos em grandes propriedades de fazendeiros abastados. Trabalhavam incessantemente nas lavouras de beterraba branca, da qual extraiam açúcar e faziam bebida forte, lúpulo, cevada, trigo, forragem para animais e batatas. Criavam ovelhas, suínos, muitos gansos e no sul da Pomerânia um pouco de abelhas. Os pomeranos moradores dos povoados de Stralsund e Neustettin eram exímios fazedores de geléias, compotas frutas secas e cristalizadas de pêra, maça, framboesa, ameixa e abóbora gigante.

IHU On-Line - Quais são as diferenças entre os pomeranos do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Espírito Santo?

José Carlos Heinemann – A diferença fundamental foi a maneira como comercializaram a produção agrícola, em 1857. No Espírito Santo, se isolaram nas altas terras, entre morros e rochas graníticas. Mais tarde, depois de sete anos, comercializaram as primeiras colheitas com os vendeiros da região. Anos depois, alguns pomeranos tornaram-se tropeiros levando as sacarias de café e verduras no lombo dos burros, passando por caminhos íngremes e depois seguindo de canoa via rio Santa Maria para a capital da Província: Vitória. Na metrópole, comercializaram as colheitas por produtos de primeira necessidade como sal, tecido e ferramentas para o trabalho na lavoura. Essa também foi a característica dos pomeranos de Santa Catarina. Porém, esses não eram tão distantes um dos outros, e a familiaridade com os brasileiros e alemães vindos do outras regiões da Alemanha foi bem mais fácil e natural.

Já no Rio Grande do Sul, em São Lourenço do Sul, se instalaram os pomeranos e descendentes que se assemelham aos das terras pomeranas. Quando eles chegaram em São Lourenço do Sul, no ano de 1858, já havia um porto comercial e muitos armazéns de portugueses e brasileiros na beira do cais. Em pouco tempo, famílias pomeranas se deslocavam semanalmente para o porto na tarefa de comercializar tudo o que produziam: fumo, cereais e posteriormente a batata. Com isso, logo, logo se entrosaram e adaptara-se com a vida dos brasileiros, diferente de outros pomeranos que viveram isolados por dezenas de anos.

IHU On-Line – De que maneira a localização geográfica em que esses povos foram instalados influenciou no seu desenvolvimento e nas mudanças culturais?

José Carlos Heinemann – Na política brasileira do Império, uma figura se destaca pelo seu empreendimento e ousadia. Conhecedor da política brasileira, o Conde de Linhares (Dom Rodrigo de Souza Coutinho)  tinha grandes planos para que outras regiões do país, mais afastadas do Rio de Janeiro, pudessem progredir, criando numerosas vilas e comarcas jurídicas. O historiador Jurandir Malerba  menciona o conde de Linhares como homem excepcional e empreendedor, com boa visão para a política desenvolvimentista brasileira. Com seu prestígio na Corte brasileira, lançou sementes de progresso como a possibilidade de navegação nos rios brasileiros, começando com os rios São Mateus e Doce, na Província do Espírito Santo. O acordo comercial firmado em 1810, em nome dos governos inglês e português, trouxe suporte financeiro para tal projeto. Com parte dessa quantia financeira, incursões foram designadas por expedições com a tarefa de percorrer diferentes pontos do país a fim de combater grupos indígenas, que tinham destruído estabelecimentos portugueses e algumas estradas. Vários acordos foram firmados entre o governo e os índios do grupo Puris, nas cercanias da Província de Minas Gerais. Conforme a viajante Maria Graham , essas terras ficavam nas cercanias da Província de Minas Gerais e nas margens do Rio Doce, na parte das terras da Província do Espírito Santo. Na região de Santa Leopoldina e Santa Maria de Jetibá, Espírito Santo, os pomeranos foram instalados entre os mineradores da Província de Minas Gerais e os índios Botocudo.  Eles não tiveram escolha. Simplesmente foram levados aos seus lotes e abandonados à própria sorte. Ficaram instalados em regiões denominadas “frias”, com terras altas entre 300 e 1450 metros acima do nível do mar e com péssimas estradas. Ali, devido ao difícil acesso a outras localidades, permaneceram. Nessas regiões não ocorreram casamentos com outros grupos étnicos, até 1920. Desse maneira, as comunidades mantiveram suas tradições, e a língua pomerana foi falada por todos com muita facilidade. Ainda nessas regiões, podemos encontrar mulheres fazendo balaios de cipó iguais aos que existiam na Pomerânia. Outros costumes como o ritual do quebra-louça, brincadeira do stipei, stipei rei , torta de Palmito no dia de Páscoa, peito defumado de ganso, vinho de laranja, licor de jabuticaba e sopa doce de pêssego continuaram existindo.

IHU On-Line - Qual o maior legado dos pomeranos?  Que elementos culturais eles acrescentaram à cultura brasileira?

José Carlos Heinemann – Lembramos aqui uma frase do rei da Prússia Frederico II , que reinou de 1746 a 1786, e que visitou algumas vezes a Pomerânia. Certa vez, lhe perguntaram sobre os pomeranos e ele respondeu: “São bons soldados e excelentes agricultores.”

A experiência desse povo no trabalho junto a terra é milenar. Para comprovar isso, basta visitá-los no Espírito Santo, entre montanhas e vales. Com todos os percalços durante o ano (seca, chuvas fortes, frio, sol escaldante), eles abastecem grandemente outras regiões vizinhas e a capital Vitória.

Ainda no Espírito Santo, destacamos o coro de trombones. Quase em todas as comunidades eclesiásticas luteranas há um coro de trombones, não só com a freqüência dos mais idosos, mas também formado por jovens. Em Pomerode, Santa Catarina existem as sociedades de tiro ao alvo, onde mantém encontro de famílias também nas atividades lúdicas e de corais.
Em São Lourenço do Sul, principalmente as igrejas luteranas e livres , intensificam o canto coral e a regência. A cada ano, as comunidades de corais se reúnem para três dias de festa musical. Cada um dos corais apresenta seu repertório com canções em português, alemão e do folclore pomerano.

Ensinamento

Em todas as localidades de pomeranos em que passei, sempre ouvi os antepassados dizendo para os filhos: “A terra sempre será nossa herança maior. É dela que tiramos o nosso sustento e promovemos a prosperidade.”

IHU On-Line - Como se dava o relacionamento familiar entre eles, na land?

José Carlos Heinemann – Primeiramente predominava o sistema patriarcal. Mas, a partir da segunda geração de pomeranos no Brasil, as mulheres trabalhavam nos “bastidores”. Nos primeiros anos de colonização, elas viram a miséria de muitas famílias e começaram a perguntar: “Quando haverá prosperidade?”. Essas mulheres trabalhavam na lavoura, além de cuidarem da casa e dos filhos. Elas tinham conhecimento dos gastos familiares e sabiam o quanto era difícil juntar dinheiro para tantos compromissos. Por isso, passaram a interferir junto aos seus esposos nos momentos de vender a colheita, por exemplo. Os homens eram responsáveis pelas negociações, mas foram as mulheres, em muitas famílias, que participaram ativamente das decisões.

IHU On-Line - Como os pomeranos são vistos no imaginário social brasileiro e alemão?

José Carlos Heinemann – Para os alemães, os pomeranos são os primos pobres do norte. Já os brasileiros, os viam como um povo isolado, pois eles viveram assim por muito tempo no Espírito Santo. Por outro lado, eram percebidos como um povo trabalhador, e nas festas tradicionais, como a Bodas, eram alegres e divertidos.

IHU On-Line - Quais os principais ensinamentos que a comunidade pomerana repassou aos brasileiros?

José Carlos Heinemann – No documentário Da Pomerânia a Ibirubá. A saga de um povo, perguntei ao personagem principal Edgar Gabe, 84 anos: “Que mensagem o senhor deixaria para a comunidade brasileira?”. Ele prontamente respondeu: “A mensagem é curta. Acreditar em Deus e ser honesto.” Já entrevistamos muitos descendentes de pomeranos, e entre eles pessoas com mais de 80 anos. Todos relataram histórias de vida e deixaram um grande legado. As mensagens transmitidas faziam referência à importância de amar a Deus, trabalhar bem aonde se fosse designado, relacionar-se bem com os vizinhos, amar a terra, pois dela veio o sustento, preservar as matas, cuidar dos animais, não maltratar o próximo, e ficar sempre unido às pessoas mais próximas.

IHU On-Line - Além da tradição agrícola, que outras atividades fazem parte da produção comercial pomerana?

José Carlos Heinemann – Caso pudéssemos voltar no tempo, mais precisamente em 1850 na casa dos Knaack em Köslin (hoje cidade de Kosalin, na Polônia), iríamos constatar na cozinha, em volta do fogão, mulheres pomeranas tecendo, costurando e fazendo acolchoados de penas de ganso. Os homens, fora de casa, enfrentavam um ambiente esfumaçado para feitura dos pedaços de peito de ganso defumado. Iguaria nobre que era enviada a outras regiões da província.

Dotes culinários 

A Fenadoce de Pelotas também teve uma pequena contribuição dos descendentes de pomeranos.
Os imigrantes que vieram para São Lourenço do Sul, provenientes de Neustettin, Regenwalde, Belgard, além da experiência no trabalho agrícola, eram exímios fazedores de compotas, frutas secas e cristalizadas, principalmente com o pêssego. No Caminho Pomerano da cidade de São Lourenço do Sul, Frau Grimm ainda faz pêssegos em conserva e secos; a família Klasen apresenta belíssimos arranjos de flores secas.

IHU On-Line - O que a música e os cantos revelam sobre a cultura pomerana e o jeito de ser desse povo?

José Carlos Heinemann – No povoado de Driesen, localizado no sul da Pomerânia, no início do século XIX, havia uma escola de música. Certamente, poucas famílias puderam enviar seus filhos para esse local. Porém, a música fez parte do cenário da vida dos primeiros imigrantes. Quando saíram de seus povoados e nos momentos mais árduos da travessia do oceano Atlântico, cantaram as músicas do folclore da terra natal, e quando deitaram seus filhos para dormir no berço com balanço (kinavaive), em terras brasileiras, lembraram antigas cantigas de ninar, lendas camponesas e contos infantis de Max und Moritz (escritores pomeranos).

Muitas famílias pomeranas sempre se destacaram pelos dotes musicais. Os Grave, pelo canto coral e regência; os Harckbarth, pela regência e violino; os Hammer e Schroder, pela execução de músicas pela concertina; os Ristow, por instrumentos de cordas: violão e cítara; os Ludtke, por harmônio, flauta e canto coral; os Leitzke, pelo violino, os Gabe, por bandolin e violino; os Boldt e Potratz, por instrumentos de sopro; os Ratzke, por coral e pistão; os Barth, pelo canto coral e instrumentos de sopro; os Beskow, pelo violino; e os Kerckhoff, pelos instrumentos de sopro.

IHU On-Line - Que traços caracterizam a personalidade da mulher pomerana? Quais as funções desempenhadas por ela nas comunidades livres?

José Carlos Heinemann – A mulher que reside no campo geralmente é quieta, reservada e aparentemente desconfiada. São observadoras, mas muito receptivas quando recebem visitas. Hoje, em todos os lugares, morando no campo ou na cidade a mulher descendente de pomeranos participa ativamente das decisões familiares. Sabe questionar e sua opinião geralmente é a escolhida pela família.

Graças ao trabalho das mulheres, a língua pomerana ainda é mantida e falada em todos os núcleos de descendentes, no Brasil. Sem elas, a língua já teria sido extinta. Na comunidade participam de encontros de senhoras, estudos bíblicos e ensaios de coral.

IHU On-Line - Quais as práticas de lazer e sociabilidade que compõem o histórico dos pomeranos?

José Carlos Heinemann – Acreditamos que seja a música um forte elemento, pois é na música que o pomerano se descobre. No Espírito Santo, as pessoas costumam contar a história de Hammer, 75 anos, um pomerano que trabalhava no cafezal. Ele passava o dia todo concentrado no trabalho. Ao anoitecer, voltava para casa, lavava-se na água da bica, entrava em casa e de um velho baú tirava a concertina. Depois da janta, conversava com todos e até brincava com os netos, parecendo uma criança.

Em Pomerode, Santa Catarina, as sociedades de canto e tiro são excelentes órgãos de integrações entre as etnias. Hoje em dia, os pomeranos se sentem verdadeiros brasileiros e amam muito essa terra. Mas eles têm uma queixa: os produtos que produzem poderiam ser mais valorizados.

BOX

Como despedida deixo uma frase em homenagem as mulheres que sempre tiveram um papel vital, tanto familiar, como social na preservação do idioma pomerano:

“Dai pomerisch fruug arbeit den gansa dag, awer is ümer lustig.”

“A mulher pomerana trabalha o dia inteiro, mas sempre de bom humor.”

Frase pomerana de Paula Gabe. Ibirubá/RS.

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