Edição 270 | 25 Agosto 2008

Invenção - Reynaldo Damazio

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André Dick

Confira três poemas inéditos do poeta paulista Reynaldo Damazio, cuja obra se caracteriza por um equilíbrio entre imagens e sonoridades

O poeta, ensaísta e editor Reynaldo Damazio nasceu em agosto de 1963, na cidade de São Paulo (SP), tendo morado dos 7 aos 14 anos em João Pessoa, Paraíba. Bacharel em Ciências Sociais pela USP, atualmente conclui mestrado interdisciplinar sobre Lima Barreto na Universidade São Marcos. Trabalhou como revisor para a Editora Brasiliense, na série Circo de Letras, e como redator e jornalista na Folha de S. Paulo. Foi, além disso, editor assistente no departamento de publicações do Memorial da América Latina – onde elaborou e coordenou o projeto Poetas na Biblioteca –, e editor executivo da Marco Editora, da Universidade São Marcos – atuando também na coordenação dos projetos Literatura em SP e Universo do Conhecimento. Atualmente, é editor assistente da revista Mente & Cérebro e co-editor do Caderno de Leitura Edusp. Criou, além disso, o site literário Weblivros, com o designer gráfico Ricardo Botelho, em 1998, e dirige e integra o conselho editorial do periódico K – Jornal de Crítica.

Entre as publicações, além de participar de antologias de poesia, é autor dos livros O que é criança (São Paulo: Brasiliense, 1988), Nu entre nuvens (São Paulo: Ciência do Acidente, 2001), este de poesia, e organizador de Drummond revisitado (São Paulo: Marco Editora, 2002), que reúne ensaios dedicados aos 100 anos de nascimento do poeta mineiro. Em 2007, foi premiado com o PAC, da Secretaria de Cultura do Estado de SP, para a publicação do livro de poemas Horas perplexas, que será lançado pela Editora 34 no segundo semestre de 2008.

A poesia de Damazio se caracteriza por um equilíbrio entre imagens e sonoridades, caracterizando uma busca da síntese moderna, à busca também da metalinguagem. Por isso, num poema como “Desmesurado humano”, ele aponta um diálogo com o Drummond de “Áporo”, que se refere a uma “orquídea antieuclidiana”: “A fúria que amiúde / Me fascina / Não é a do intelecto / Fescenina / Mas a do corpo / Anti-euclidiana / Feminina / / Aquela que arrebata / Salto cego / E faz da presa / Amuleto / Gesta do gozo obsceno / Extrai do tato / Seu sustento”. Há, uma sonoridade mais reverberativa em Damazio, voltada a uma minúcia vocabular, mas que não abandona, por outro lado, a temática, que se refere aos cinco sentidos do corpo. Essa corporificação ele tenta traduzir em sonoridade na segunda estrofe desse poema: “Vivo fruto sem polpa / Flor transversa / Tesa trama de amianto / Feita de pele / Matéria lassa / Que contra si revele / O espanto / / A fúria do corpo / Não é mental / Antes um soco / Aos poucos instalado / No incerto do gesto / Oca caverna / Desabrigo do mito”.

Este mito moderno Reynaldo Damazio também procura recuperar num diálogo que estabelece com as poesias do fingidor Fernando Pessoa e do labiríntico Mário de Sá-Carneiro, e com o pensamento filosófico de Descartes, em “Res cogitans”: “Penso, logo minto. / No que vejo, incerto, / reside o infinito, / pesadelo sem objeto. / / E se afino o tato, / mesmo sem afinco, / o real me escapa, / paródia de labirinto”. A Haroldo de Campos Damazio dedica o poema “Silêncio na bibliocasa”, falando da biblioteca do poeta paulista e sua diversidade. 
 
Sons da metalinguagem

Por isso, alguns poemas de Damazio, mais do que trazer imagens e sonoridades, parecem caracterizar a própria essência da linguagem, como se fosse desenrolando um novelo em que a sintaxe desempenha um papel básico de contenção: “tempo, espaço, gesto: / frase ou mera mímica? / / anêmica a palavra míngua / à revelia do sentido / / sem norte, ensimesmada, / arremedo de tatibitate, / / ora engodo, ora miasma, / lance de dados viciados / / rouca ou farpa a voz / perde o fio da meada / e adentra a selva obscura / coisa mental no branco imenso”. Apenas neste poema, intitulado “Treze”, Reynaldo faz referência a Mallarmé (“lance de dados”, referindo-se ao poema Un coup de dés) e a Dante Alighieri da Divina comédia (por meio da expressão “selva obscura”). Além, é claro, de se referir ao “branco imenso” da modernidade (da página em branco, a ser preenchida), remetendo ao “Me ilumino d’imenso” (do poeta italiano Giuseppe Ungaretti). Ou seja, trata-se de uma poesia que não apenas trabalha com o papel central da linguagem, mas que reinterpreta as leituras.

No entanto, existe, junto a esse trabalho com a sonoridade, um agrupamento de imagens em certos poemas de Damazio, como “Fábula para anfíbios”. Uma imagética quase surrealista, remetendo ao universo das fábulas: “o menino menor trouxe na mão o ciclone / o maior, o dragão afônico / ambos queriam um cometa que levasse a princesa / ao nocaute / ora, não sei cantar estrelas / embora adivinhe a partitura”. Também em “Digital”, temos a referência ao toque do corpo e à linguagem que ele proporciona, aliada a analogias: “Os dedos que dedilham as instâncias do corpo / não são os que teclam a mensagem / que por sua vez enrodilham caracóis / na água mansa do poço / tampouco os que colhem a falsa dádiva / enquanto manipulam o tempo / nos grãos de areia”. Uma mistura entre sonoridades e imagens é o que podemos ver nos poemas inéditos que Damazio enviou à IHU On-Line, em que a expansão e a síntese – até numa remodernização do soneto, com quartetos e tercetos sem rimas, como nos Sonetos brancos, de Murilo Mendes – estão presentes.

 
CASCA

Apenas uma casca, quer se exponha
ao exame público, ao espetáculo da
nomeação (um tênue invólucro que
se articula em artimanhas), alheia
a controvérsias, rarefeita de quase
verdades, não fora sua condição de
metáfora, seu fascínio por tudo que
lhe é externo, quer se imponha metas
e limites; uma casca que se preencha
com improbidades, com desejos
torpes e necessidades fabricadas
como um caso de vida ou morte, se
morrer fosse óbvio, ou viver uma
frivolidade, ainda que em seu âmago
de casca, no extremo da concretude,
lá onde os sentimentos se excluem,
simulação de gestos plausíveis, as
palavras sejam convincentes e a voz
adquira uma propriedade nauseante;
em seu modo de corpo a casca se
dissimula, não porque se renove, ou
se remova, ou ainda revele um segredo
sem muita importância para curiosos,
mas por uma vontade ínfima de
potência, uma ânsia de presença, quer
se formule lenta e pensante, talvez um
embrião, quer inocule uma pendência,
como um vício que se expande por
falta de melhor alento – ou argumento?


O NÃO

não era nada
não tinha nada
corpo não era carne
pústula não era dor
mente não era fábula
roto não era mortalha

não é nada, não
já passou

 

 

MEMÓRIA DA DECOMPOSIÇÃO

A noite não deixa marcas em meu sonho;
os passos se perdem na calçada e nada
pode ser mais preciso, mais tortuoso, que
o esquecimento do desejo, o fim da

fagulha entrevista no olhar que me
procurava (ao menos assim o imaginei)
em dias de vento frio, em noites de
sede e tédio, quando a violência das ruas

gritava nos telejornais e fingíamos que
havia um mundo quase perfeito, circuns-
crito entre bares, cinemas, cafés, móveis

baratos de um apartamento alugado a
preço de banana, no centro velho de
uma metrópole que já não existe.

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