Edição 269 | 18 Agosto 2008

Contribuições da espiritualidade franciscana no cuidado com a vida humana e o Planeta

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Bruna Quadros

Para o Frei Ildo Perondi, São Francisco de Assis foi pobre e optou pela pobreza para se colocar entre “menores” e, com isso, denunciar a pobreza, que é sempre um pecado, sobretudo a que é fruto das injustiças

“Nós podemos construir um mundo mais simples, sem pobres, e não este mundo rico, opulento e excludente. É o que hoje dizemos quando afirmamos que ‘outro mundo é possível’.” A afirmação é do frei capuchicho Ildo Perondi, em entrevista concedida por e-mail à revista IHU On-Line, a respeito das contribuições da espiritualidade franciscana no cuidado com a vida humana e o planeta. A discussão sobre o assunto integra a programação do evento Espiritualidade cristã na pós-modernidade: desafios e perspectivas, realizado pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU. Na visão de Frei Ildo, a fé cristã é profundamente prática. No entanto, “não basta professar a fé por palavras, é necessário vivê-la”. Ao analisar a caminhada de São Francisco de Assis, na opção pelos pobres, ele foi enfático: “Francisco nos ensina ainda que viver a pobreza é, também, assumir um modo de viver diferente desta proposta consumista apresentada pelo atual modelo econômico, sem nenhum respeito para com a preservação da natureza e sem se preocupar com as gerações futuras.”

Ildo Perondi é frei capuchinho, graduado em Teologia no Instituto Paulo VI de Londrina e Bacharelado na PUCPR (Curitiba-PR) e mestre em Teologia Bíblica, pela Universidade Urbaniana de Roma. Atualmente, é Guardião do Convento Santa Clara, dos Freis Capuchinhos, em Londrina (PR). Também é professor de Sagradas Escrituras e Ecumenismo na PUCPR (Câmpus Londrina) e no Instituto Teológico Divino Mestre em Jacarezinho (PR), além de assessor Arquidiocesano para o Ecumenismo em Londrina–PR, membro do MEL (Movimento Ecumênico de Londrina) e assessor bíblico da CRB, CEBI e Escolas Bíblicas para leigos.

IHU On-Line - Quais são as características mais fortes da espiritualidade cristã contemporânea?

Ildo Perondi – Vivemos um tempo em que podemos constatar uma grande sede de Deus. Por mais que estejamos num mundo moderno, há uma forte busca pelo sagrado, pelo transcendente. Porém, esta busca é também diversificada, assim como é a sociedade atual. Por isso, é necessária uma abertura ao Espírito, que “sopra onde quer” (Jo 3,8). O cristianismo nasceu pelo sopro do Espírito que conduziu os Apóstolos para fora das estruturas, para os lugares novos, em busca de outras fronteiras. Hoje, vivemos numa sociedade fragmentada, em crise e em mudanças constantes. Então, creio que a espiritualidade cristã deve ter duas características importantes. Primeiro, uma fundamentação na história da nossa espiritualidade, sobretudo estudo e escuta da Palavra de Deus (com uma necessária e atualizada hermenêutica), ver como foram superadas as crises e caos que o povo de Deus enfrentou na sua caminhada histórica, e com isso sustentar-se em algo seguro. Segundo, é preciso arriscar-se, ir em frente, dar respostas, adaptar-se aos novos tempos, responder às angústias do ser humano de hoje, facilitar o relacionamento com Deus, alimentar sonhos e esperanças neste momento de travessia.

IHU On-Line - Que valores os cristãos devem cultivar nos dias de hoje, em um contexto de pluralismo cultural e religioso?

Ildo Perondi – A fé cristã é profundamente prática. Ser cristão no mundo de hoje é dar testemunho. Não basta professar a fé por palavras, é necessário vivê-la. Quem possui fé deve cultivar a relação amorosa com Deus; contemplar e admirar-se dos feitos de Deus na história; deve viver a ética e ser coerente; empenhar-se na construção do Reino; deve praticar a tolerância diante do diferente, seja ele religioso, racial, de gênero etc.; deve ser pessoa aberta ao diálogo com os outros, ser ecumênico com as outras religiões; viver a radicalidade da fé, sobretudo, quando é necessário o profetismo da denúncia e do anúncio; praticar a solidariedade e o acolhimento dos mais necessitados, das pessoas que sofrem – sejam os pobres e excluídos, como quem sofre das doenças modernas como o stress, a depressão, o vazio, a solidão; a fé deve ser ecológica com compromisso e cuidado com toda a Criação; os cristãos devem viver o mandamento novo ensinado por Jesus “amai-vos uns aos outros”, porque vivemos um tempo de interesses egoístas e o amor é que vai nos salvar. Enfim, creio que os cristãos devem viver este ser humano novo, relacional, criativo que aponte para um futuro com esperança.

IHU On-Line - Qual é a importância da figura de São Francisco de Assis e de sua proposta de vida de pobreza para os dias de hoje?

Ildo Perondi – Francisco  foi pobre e optou pela pobreza para se colocar entre “menores” e, com isso, denunciar a pobreza, que é sempre um pecado, sobretudo a pobreza fruto das injustiças. Por isso, ele vai até o leproso e o abraça e se torna solidário com ele. Francisco quis mostrar que era irmão dos pobres e não uma ameaça para eles. É uma mudança de lugar social. Outro motivo é que Francisco abraça a pobreza para viver a simplicidade da vida, para viver da gratuidade, da graça de Deus, porque Jesus também nasceu pobre e fez opção pelos pobres. A pobreza é também uma forma de desprendimento e de viver a liberdade. Nunca houve ninguém que fosse pobre como Francisco de Assis e, ao mesmo tempo, tão gentil e cortês. Ele usava um hábito remendado, mas sabia ser elegante, aberto ao diálogo, foi instrumento de paz e reconciliação, capaz de ter palavras e gestos fraternos. Francisco nos ensina ainda que viver a pobreza é, também, assumir um modo de viver diferente desta proposta consumista apresentada pelo atual modelo econômico, sem nenhum respeito para com a preservação da natureza e sem se preocupar com as gerações futuras. Nós podemos construir um mundo mais simples, sem pobres, e não este mundo rico, opulento e excludente. É o que hoje dizemos quando afirmamos que “outro mundo é possível”.

IHU On-Line - Como a espiritualidade franciscana lida com a tensão entre fraternidade e autonomia pessoal?

Ildo Perondi – A fraternidade é necessária no franciscanismo, porque somos uma Ordem de irmãos, dados por Deus. A fraternidade é composta de irmãos de raças, culturas, aptidões diferentes. É esta multiformidade que embeleza e a complementa. É a resposta de Francisco ao mundo individualista e egoísta. Porém, cada irmão é um dom de Deus, possui a sua individualidade, seu jeito, seu carisma. O diferente é belo e completa o que falta em mim. É interessante analisar a individualidade dos primeiros companheiros de Francisco. Havia pessoas sábias e outras ignorantes; frades que eram clérigos e outros que não eram; exerciam as mais diversas atividades; alguns santos e outros tão singulares, como Frei Junípero. Portanto, a diversidade não elimina a fraternidade, antes a completa. Isso também deve ser verificado na questão econômica. Na fraternidade, todos colocam em comum o que possuem e o fruto do seu trabalho, mas também todos se beneficiam na mesa e da bolsa comum.

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