Edição 268 | 11 Agosto 2008

Uma “entidade brasileira”

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André Dick e Márcia Junges

Ao invés de um estereótipo, uma entidade brasileira, e um convite permanente a pensar sobre verdades humanas, como o medo de crescer, a evasão à responsabilidade, a importância do ócio criativo e a crítica à alienação: eis algumas características da atualidade de Macunaíma

De acordo com a escritora Telê Porto Ancona Lopez, em entrevista por e-mail à IHU On-Line, chamar Macunaíma de estereótipo do homem brasileiro é “uma visão muito esquemática do protagonista da rapsódia do herói da nossa gente”, e concorda com Alfredo Bosi e Paulo Prado, quando eles destacam que o objetivo do autor era captar a “entidade brasileira”. Ela assinala que o livro mostra uma vasta pesquisa de elementos de nosso país, e que nele “está o avesso do futurismo, do ponto de vista ideológico”. Para ela, o que faz Macunaíma continuar lido e discutido entre os estudantes é o diálogo que propõe conosco, homens e mulheres contemporâneos, ao tocar não apenas “verdades do homem no Brasil, como verdades humanas, atuais, como o medo de crescer, a evasão à responsabilidade, a importância do ócio criador, a crítica do trabalho formiga, alienado”.

Telê é graduada em Letras Neolatinas e especialista em Língua e Literatura Francesa e Portuguesa Brasileira, pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP). Na Universidade de São Paulo (USP), cursou especialização em Literatura Brasileira, Portuguesa, Teoria Literária e Literatura Comparada, mestrado e doutorado em Letras (Teoria Literária e Literatura Comparada). Sua disssertação intitulou-se O se-seqüestro da dona ausente: reconstrução de um estudo de Mário de Andrade a partir de suas notas de leitura, e a tese Mário de Andrade: ideologia e cultura popular. É livre-docente pela mesma instituição com o trabalho O cronista Mário de Andrade.

Lançará, pela Agir/Ediouro, ainda este ano, uma edição comentada de Macunaíma. Estudiosa do modernismo e da obra de Mário de Andrade, é curadora do arquivo desse escritor no IEB-USP. Leciona, escreve e forma quadros universitários, dedicando-se principalmente à exploração das vanguardas do século XX, à análise da obra de modernistas brasileiros – sobretudo a de Mário de Andrade –, à crítica textual e à crítica genética, bem como ao estudo dos chamados gêneros de fronteira, onde estão a epistolografia, a crônica jornalística, os diários e as memórias.

IHU On-Line - O personagem “anti-herói” ou “herói de nossa gente” de Mário de Andrade é muitas vezes tomado como um retrato do estereótipo do homem brasileiro, sobretudo por sua “preguiça”. Haveria, ainda hoje, essa aproximação, e o que Macunaíma simboliza para a literatura e a cultura brasileiras?

Telê Porto Ancona Lopez - Estereótipo seria uma visão muito esquemática do protagonista da rapsódia do herói da nossa gente. Bosi  e outros críticos inteligentes mostram pontos de contato com as idéias de Paulo Prado  no Retrato do Brasil, e destacam que Mário de Andrade se propôs captar a “entidade brasileira”.

IHU On-Line - Quais são os principais elementos revelados na estrutura da narrativa de Mário de Andrade para que haja uma reavaliação de linguagens próprias ao ambiente brasileiro, do folclore, das crendices? O que o autor trouxe de seu interesse pelo Brasil para sua criação?

Telê Porto Ancona Lopez - Respondo perguntando se a expressão “crendices”, contida na pergunta, refere-se – e de modo etnocêntrico! – a mitos, lendas e práticas de cunho religioso ligadas à magia que se liga à visão de mundo do índio, do homem do povo do Brasil? Eu diria que o livro espelha uma formidável pesquisa de elementos do Brasil, em diversas áreas, realizada em função de um projeto literário brasileiro moderno.

IHU On-Line - Há uma tentativa de mostrar a entrada no Brasil na Revolução Industrial, com o crescimento, por exemplo, de São Paulo, numa espécie de choque entre a natureza de uma geografia inexplorada e a máquina urbana, opressora, capitalista, assim como entre o indígena e o branco?

Telê Porto Ancona Lopez - Macunaíma é literatura, portanto, arte. Não se propõe a mostrar esse ingresso, porque não é um livro de História. Plasma simplesmente, em uma ação romanesca, os contrastes e as contradições, nos dois espaços freqüentados pelo herói – a natureza e a cidade “macota”, marcada pela industrialização, na qual existe ainda o anseio e a capacidade de acolher o mito de Paiuí Pódole, o Cruzeiro do Sul, e o de Paluá.

IHU On-Line - Por que Mário teria considerado Macunaíma uma rapsódia e, na sua visão, isso se dá numa mistura entre romance e conto? O que havia, nesse ideal, da presença de idéias, por exemplo, do movimento futurista?

Telê Porto Ancona Lopez - A rapsódia de Mário de Andrade continua a coser, em 1928, o traje de arlequim que Paulicéia desvairada propõe em 1922, um projeto que se apropria, que transfigura matrizes de todo tipo, cultas e populares, marcadas ou não pelas vanguardas européias do século XX. Avalio que, em Macunaíma, está o avesso do futurismo, do ponto de vista ideológico. A escrita rapsódica, prosa experimental e, conforme estudou Suzana Camargo , sátira menipéia, admite a mistura de gêneros (conto, romance, carta), assim como incorpora a criação musical popular, rezas, parlendas, versos de bumba-meu-boi etc. Esta rapsódia é, principalmente, um canto, segundo o “Epílogo”; “canto novo” que pratica rimas e ecos a toda hora, ignorando ditames da prosa culta de então. Análises de Gilda de Mello e Souza  e de Suzana Camargo, feitas à luz do pensamento de Bakhtin,  colocam Macunaíma na esfera da carnavalização.

IHU On-Line - Na sua visão, os preceitos da Semana de Arte Moderna de 22, com a tentativa de destacar a cultura nacional – visível na poesia Pau-Brasil de Oswald de Andrade, por exemplo –, se mostram presentes em Macunaíma?

Telê Porto Ancona Lopez - A Semana não tinha “preceitos”. As propostas modernistas no “Prefácio interessantíssimo” de Paulicéia desvairada e no manifesto de Klaxon, em 1922, destacam a pesquisa, a busca de soluções estéticas visando inserir o Brasil no século XX. O “Prefácio interessantíssimo” e os poemas de Mário de Andrade mostram um crivo crítico das diferentes vanguardas européias, crivo que decorre do assumir da condição de brasileiro. Em “O trovador”, profissão de fé do poeta moderno e modernista, o verso “Sou um tupi tangendo um alaúde” cristaliza esse crivo crítico, antropofagia “avant la lettre”. O Brasil em traços que lhe são próprios, comparece – artisticamente! – nas obras de Mário, Oswald de Andrade, Alcântara Machado  e nas obras dos demais modernistas brasileiros. A criação popular, cuja dignidade é reconhecida desde o poema “Noturno” de Paulicéia, a História do Brasil, liricamente parodiada na poesia Pau Brasil, e tantos elementos de nossa cultura ingressam transfigurados na criação literária culta dos modernistas, respondendo aos apelos, às necessidades intrínsecas de cada texto, de cada obra. Não vejo uma “tentativa de destacar a cultura nacional”, e sim descobertas multiplicadas de um Brasil multifário, feitas por artistas, na literatura, nas artes plásticas e na música, no decênio de 1920. E o que é cultura nacional?

IHU On-Line - Em se tratando da linguagem de Macunaíma, como Mário utiliza nele suas idéias a respeito de uma língua abrasileirada? Ele consegue “carnavalizar a linguagem”, para utilizar uma expressão de Bakhtin?

Telê Porto Ancona Lopez - Trata-se da questão muito importante do emprego artístico (estilizado) da língua portuguesa falada no Brasil, tão focalizado por Mário em suas cartas. Esse é o pilar lingüístico do projeto modernista do escritor, explorado em sua ficção nos anos de 1920, em Belazarte, Amar, verbo intransitivo e Macunaíma.

IHU On-Line - Será lançada, ainda este ano, uma edição comemorativa de Macunaíma organizada pela senhora? Na sua visão, por que é ainda é uma obra tão debatida em escolas e universidades?

Telê Porto Ancona Lopez – A edição comemorativa terá estudos críticos publicados em 1928, 1934, 1945 e em nossos dias. Penso que a razão principal de Macunaíma continuar lido e discutido nas escolas – desde o ensino médio ao universitário – está no fato de ser uma obra que continua dialogando conosco porque toca não só verdades do homem no Brasil, como verdades humanas, atuais, como o medo de crescer, a evasão à responsabilidade, a importância do ócio criador, a crítica do trabalho formiga, alienado etc.

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