Edição 268 | 11 Agosto 2008

Macunaíma: ficção divertida e riqueza vocabular

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

André Dick e Márcia Junges

Após 80 anos de seu lançamento, Macunaíma, segundo Maria Eugenia Boaventura, é bastante estudado e não é incompreendido pela crítica. Fora dos padrões narrativos da época, prima pela riqueza vocabular e metaforiza a falta de perspectivas do sujeito contemporâneo

Em entrevista por e-mail à IHU On-Line, Maria Eugenia Boaventura enfatizou que o que fascina os leitores de Macunaíma 80 anos após seu lançamento é o fantástico trabalho desenvolvido por Mário de Andrade com nosso idioma. Além disso, é “uma ficção muito divertida”. Maria Eugenia esclarece que a obra não é incompreendida pela crítica, mas bastante estudada. “Não é certamente uma obra simples, de leitura fácil, a começar pela riqueza vocabular manipulada pelo artista. Foge dos padrões narrativos da época. O fato de o livro ainda hoje despertar interesse se devem ao trabalho artesanal da linguagem e a ousadia da sua estrutura narrativa.” A respeito do homem “sem caráter”, a pesquisadora menciona que essa é uma metáfora para a falta de projetos do homem moderno de uma forma geral, tanto no Brasil, quanto fora dele.

Maria Eugenia é graduada em Letras, pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), e mestre e doutora na mesma área, pela Universidade de São Paulo (USP). Leciona no Departamento de Teoria Literária da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). É organizadora de Estética e política (São Paulo: Globo, 1992) e Os dentes do dragão (São Paulo: Globo, 1992), de Oswald de Andrade, de Dicionário de Bolso de Oswald de Andrade (São Paulo/SP: Editora Globo, 2007), e também dos livros De Anchieta aos concretos (São Paulo: Companhia das Letras, 2003) e Artesanatos de poesia (São Paulo: Companhia das Letras, 2004), de Mário Faustino. Além disso, é autora de A vanguarda antropofágica (São Paulo: Ática, Coleção Ensaios, 1985) e O salão e a selva. Uma bibliografia intelectual de Oswald de Andrade (São Paulo: Ex-Libris/Unicamp, 1996).

IHU On-Line - Seria Macunaíma uma obra “sintoma de cultura nacional”? Em termos de folclore, de língua portuguesa, do processo de crescimento brasileiro, o que ela recupera ou traz de novo? Por quê?

Maria Eugenia Boaventura – Não diria que seja “sintoma nacional”. Para mim, Macunaíma é antes de tudo uma ficção muito divertida, cujo trabalho com a língua é fantástico, e é isto que fascina o leitor até hoje. Claro que incorpora dados do folclore nacional e elementos de época, sobretudo, da cidade de São Paulo.

IHU On-Line - Se o próprio Mário de Andrade admite ter escrito Macunaíma nas férias, por “pura brincadeira”, não teria a crítica dado-lhe sentidos não propostos em sua composição? Seu livro transcendeu os objetivos e podemos dizer que a obra ganhou vida própria?

Maria Eugenia Boaventura - É possível que a idéia do livro e o primeiro esboço tenham surgido numas férias, como uma brincadeira, uma diversão. Depois houve, é óbvio, por parte do escritor, um trabalho cuidadoso de pesquisa e composição até chegar à forma final. Trabalho este muito erudito e sofisticado e que demanda um repertório literário e cultural para que seja apreciado na sua complexidade. O papel do crítico é justamente o de remanejar métodos e técnicas a fim de construir o sentido do texto que analisa, com a bagagem teórica pessoal da época de cada leitura.

IHU On-Line - Macunaíma é uma obra ao mesmo tempo incompreendida, considerada experimental pela maior parte da crítica, e bastante estudada por jovens em escolas, que costumam achar sua narrativa excêntrica. Diante disso, como Macunaíma ainda é tão debatido, ainda hoje, depois de 80 anos de seu lançamento?

Maria Eugenia Boaventura - Não diria que Macunaíma seja uma obra incompreendida pela crítica. Acho que é estudada, sim. Não é certamente uma obra simples, de leitura fácil, a começar pela riqueza vocabular manipulada pelo artista. Foge dos padrões narrativos da época. O fato de o livro ainda hoje despertar interesse se deve ao trabalho artesanal da linguagem e à ousadia da sua estrutura narrativa.

IHU On-Line - Qual é a influência que Mário sofreu tanto das obras de vanguarda européias quanto das obras de Oswald de Andrade, como Serafim Ponte Grande,  como a senhora constatou em estudos?

Maria Eugenia Boaventura - Não trato esta questão em termos de influência. Prefiro dizer que os dois escritores tinham projetos afins, e contribuíram de modo decisivo para produzir mudanças no panorama literário e cultural do país, além de terem dialogado com as diferentes propostas da vanguarda européia. Este projeto implicou num determinado momento na incorporação de temas e motivos locais, sem perder de vista o processo de atualização da linguagem literária. Oswald talvez tenha sistematizado isto de forma mais rápida e aguerrida nos Manifestos de 1924 e 1928. Textos estes sobre os quais Mário em vários momentos manifestou seu apreço.

IHU On-Line - O brasileiro “sem caráter” expresso por Macunaíma continua uma forma correta de nos entendermos ontologicamente? Em que sentido podemos compreender corretamente esse adjetivo do personagem e considerá-lo um “homem sem projetos”, típico, na sua visão, do homem moderno?

Maria Eugenia Boaventura - Não. No máximo pode servir como uma metáfora para uma referência à falta de projeto do homem moderno de um modo geral, daqui e de fora. Não devemos esquecer as peculiaridades múltiplas do personagem: estrangeiro, índio negro e que depois vira branco.

IHU On-Line - Oswald de Andrade classifica Macunaíma como nossa Odisséia. Haveria possibilidade de considerar a obra de Mário também universal, ou seu personagem principal seria um “anti-herói” com amplitude latino-americana? Por quê?

Maria Eugenia Boaventura - Oswald dizia também que Macunaíma era a grande obra antropofágica. Sim, como Serafim, o personagem do Macunaíma não sabe exatamente o que quer, está amarrado pela incompetência, pela falta de caráter, pela falta de perspectiva. Os dois personagens quando tiveram meios de conquistar alguma coisa (aquilo que Serafim chamava a felicidade) fracassaram. Um quando tinha a riqueza, o outro quando estava de posse do amuleto. Ambos têm desenlaces patéticos.

IHU On-Line - Macunaíma pode ser considerado um conto em mosaico, um romance, uma narrativa poética, ou ele é a mistura de todos esses elementos?

Maria Eugenia Boaventura - Macunaíma, como o Serafim, se constitui numa fantástica mistura de gêneros, outra faceta atual dos dois textos.

IHU On-Line - “A dialética da malandragem”, de Antonio Candido,  seria um conceito correto para compreender o personagem? Que outras obras brasileiras se enquadrariam nessa característica?

Maria Eugenia Boaventura - Acredito que sim: a dialética da malandragem, tão bem explorada por um dos principais críticos do Modernismo, na análise de uma obra brasileira do século XIX, pode ser acionada e adaptada para a leitura de várias outras obras, inclusive as duas acima.  É bom lembrar que cada obra literária sugere um roteiro de leitura próprio.

Últimas edições

  • Edição 546

    Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

    Ver edição
  • Edição 545

    Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

    Ver edição
  • Edição 544

    Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

    Ver edição