Edição 268 | 11 Agosto 2008

A apatia do povo brasileiro como sátira

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André Dick e Márcia Junges

Obra marioandradiana satiriza a apatia brasileira e é rapsódica porque “não se filia, não se identifica, não se limita”, afirma o crítico literário Raúl Antelo. O semblante a que chamamos Macunaíma tem a força de seu gesto

Uma sátira à apatia do nosso povo. Essa é a função de Macunaíma na opinião do crítico literário Raúl Antelo, na entrevista que você confere a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line. “Mas, por ser sátira, o texto satura o procedimento, vai além dos limites estipulados, gasta, liquida ele e, por isso, permite passar a outra coisa. À época da redação, resenhando uma antologia poética, Mário de Andrade diz que um livro deve ser amado ou detestado”. E continua: “Poderíamos pensar que Macunaíma é rapsódico porque não se filia, não se identifica, não se limita. Se avaliamos essa atitude do ponto de vista instrumental, isso é ruim. O Estado cataloga, fixa, territorializa. Se, entretanto, o avaliamos sob um ponto de vista político, a apatia nos permite alimentar um discreto otimismo, o de não colaborar com o estabelecido. Aquilo que não tem nome, que não tem lugar, é pura potência. Pode ainda vir a acontecer. Mas, se acontecer, será sempre o desdobramento de uma força que vem do arquipassado”.

Nascido na Argentina, Antelo é professor titular de literatura brasileira na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Pesquisador-sênior do CNPq, foi Guggenheim Fellow (2004) e professor visitante nas Universidades de Yale, Duke, Texas at Austin, Autônoma de Barcelona e Leiden, na Holanda. Presidiu a Associação Brasileira de Literatura Comparada (ABRALIC). É graduado em Letras Modernas, pela Universidad de Buenos Aires (1974), e em Língua Portuguesa, na Argentina, pelo Instituto Superior del Profesorado en Lenguas Vivas. Cursou também, graduação em Letras Modernas na Universidade de Buenos Aires (UBA) e é mestre e doutor em Literatura Brasileira, pela Universidade de São Paulo (USP).

É autor de vários livros, dentre eles Na ilha da Marapatá: Mário de Andrade lê os hispano-americanos (São Paulo: Hucitec/Brasília: Instituto Nacional do Livro, 1987), Transgressão e modernidade (Ponta Grossa: Editora da UEPG, 2001) e Tempos de Babel. Anacronismo e destruição (São Paulo: Lumme Editor, 2007).

IHU On-Line – Como percebe a ligação entre o regionalismo, com seu folclore mais específico, e a universalidade existente em Macunaíma, por meio da intertextualidade de Mário de Andrade  em relação a outras obras e autores?

Raúl Antelo – Macunaíma não é regionalista no sentido em que o regionalismo é uma política para estipular fronteiras, que surge, já na cultura medieval européia, para coibir a presença do estrangeiro. O objetivo era regere fines, administrar fronteiras, e eram precisamente os marqueses, os habitantes da marca, os nobres que habitavam a linha demarcatória, os indicados dessa tarefa. Mário de Andrade elaborou uma das respostas mais contundentes ao problema. À época de lançamento de Macunaíma, resenhando a exposição de Tarsila do Amaral,  Andrade definia o regionalismo como um valor emergente na cultura brasileira. Dizia que regionalismo “em arte como em política, jamais não significou nacionalismo no único conceito moral desta palavra, isto é, reali¬dade nacional. Significa, mas é uma pobreza mais ou menos cons¬ciente de expressão, se observando e se organizando numa determi¬nada e mesquinha maneira de agir e criar. Regionalismo é pobreza sem humildade. É a pobreza que vem da escassez de meios expressivos, da curteza das concepções, curteza de visão social, caipirismo e saudosismo. Comadrismo que não sai de beco e, o que é o pior: se contenta com o beco”. Mário, pelo contrário, não hesita em associar regionalismo e inconsciente, porque, para ele, a manifestação mais legítima do nacionalismo artístico se dava, justamente, quando esse nacionalismo é inconsciente de si mesmo. Se assim for, diríamos que o nacionalismo não tem objeto. Que Mário o tenha conseguido materializar, é outra história. Mas Macunaíma nasce desse desejo.

IHU On-Line - Num ensaio sobre o livro, o senhor escreve que “o narrador da rapsódia nos remete à formação de um modelo do real transcrito textualmente como multiplicidade de perspectivas e registros”. Quais seriam essas perspectivas e registros?

Raúl Antelo - Se a questão é desenhar fronteiras sabendo que não se cumpre um designio soberano, mas apenas um desenho, artificial e histórico, político e moderno, diríamos que podemos imaginar a fronteira (a fronteira do moderno, do nacional, do social) ora de um modo formalista transcendental, como um limite inequívoco, como um contorno que circunda uma forma ideal, ora como uma instância liminar, como uma soleira, uma passagem que nos permite reabrir a série e baralhar tudo de novo. A primeira opção é a do regionalismo. A segunda, a de Macunaíma. A primeira pauta-se pela cronologia. A segunda ensaia o anacronismo. Na primeira, nos movimentamos na clausura, no encerramento de uma disciplina instituída. Na segunda, circulamos no interior de um espaço teórico interdisciplinar que nos comunica, expande e se desborda. Des-identifica-se.

IHU On-Line - Que aproximação o senhor faz entre a obra de Mário de Andrade e o contexto literário latino-americano, antes e depois de sua criação?

Raúl Antelo - Em termos de escrita experimental, como apontou pioneiramente Saul Sosnowski, Macunaíma é, disparado, um dos exemplos mais agudos nesse cenário. Mas, mesmo assim, há outros que lhe são congeniais: a escrita de Macedônio Fernández,  desdobrada em infinitos prefácios de um romance que jamais começa, a rapsódia assintética do Paradiso de Lezama Lima,  a complexa relação entre oralidade e escrita em Arguedas...

IHU On-Line – A apatia do brasileiro encarnada por Macunaíma tem a função de crítica ou sátira, ou ainda, de ambas?

Raúl Antelo - É sátira. Mas, por ser sátira, o texto satura o procedimento, vai além dos limites estipulados, gasta, liquida ele e, por isso permite passar a outra coisa. À época da redação, resenhando uma antologia poética, Mário de Andrade diz que um livro deve ser amado ou detestado. Pathos. Mas para abominar um valor é necessário mandar como emissários, como informantes, as testemunhas. Elas vão na frente, declaram. É esse o sentido de detestari, em latim. Se, além do mais, testis, a testemunha, nunca é uma pessoa mas o relato de um processo de desubjetivação, concluiríamos que aquilo que se detesta é também algo (desconhecido, que nunca estamos em condições de suportar) muito amado, embora não possamos nos identificar plenamente com ele. Por isso, no debate quanto ao gênero do texto, Mário, após ponderar muitas variáveis, inclina-se pela de sintoma de cultura nacional. Não é símbolo porque no símbolo há identificação. É sintoma. E, quem diz symptôma, diz queda, coincidência, acontecimento fortuito, encontro fadado ao fracasso, diz tyché.

IHU On-Line – Como vê o signo da pedra na narrativa de Macunaíma?

Raúl Antelo - Talvez como uma pioneira manifestação de icnologia (o saber sobre a sedimentação). Certamente, como um recuo com relação à iconologia (o saber das imagens sagradas). A pedra é a poeira, o tempo fora do tempo, o baixo materialismo. O que conta não são os objetos, mas a inscrição da história nesses objetos. Signatura rerum.

IHU On-Line - Em que pontos existiu um diálogo entre a obra de Mário de Andrade e as obras de experimentação européias da época (como Joyce ) e de Oswald de Andrade  (como Memórias sentimentais de João Miramar)? Quais são os principais experimentos, em sua opinião, efetuados por Mário em Macunaíma?

Raúl Antelo – Destacaria, fundamentalmente, o da desgeograficação, absolutamente coincidente com o princípio de estranhamento que os formalistas russos estavam testando paralelamente. E que antecipa o conceito de epifania que postularia Virginia Woolf  muito depois. Mas se o espaço se torna desgeográfico, isto é, torna-se descontínuo, isso quer dizer que o tempo também se torna anacrônico, donde, concluiríamos, é mais importante criar do que documentar. O pensamento de Aby Warburg,  de Henri Bergson,  de Walter Benjamin  explorava, simultaneamente a Mário, essas mesmas potencialidades do tempo.

IHU On-Line - Qual é a riqueza que Macunaíma apresenta, em termos de folclore, de reprodução de uma fala brasileira, de narrativas orais indígenas e crendices populares, de desenvolvimento da cidade de São Paulo, em oposição a outros espaços que continuam ainda inexplorados país afora?

Raúl Antelo - A riqueza maior é associar literatura e magia. Agamben  nos relembra que a expressão latina indulgere Genius exprime o vínculo paradoxal que se estabelece entre a exigência do Gênio e a nossa própria felicidade. Entre o Gênio e o eu, não há continuidade: há um hiato, o da razão ocidental. Indulgere Genius é indulgere magia. Devemos, por força, abandonar-nos ao Gênio (à Magia, à Linguagem, ao Inconsciente) porque, caso contrário, se fôssemos apenas sujeito e consciência, não conseguiríamos sequer digerir. E a antropofagia é isso: comer, digerir, defecar. O Gênio (a Magia, a Linguagem) é o que há de mais pessoal em nós, mas, ao mesmo tempo, é também o mais impessoal, é aquilo que nos ultrapassa e excede. Por isso uma escrita experimental, como a de Macunaíma, ao nos reconciliar com o Genius (com o inconsciente, com a linguagem), busca liberar aqueles valores previamente capturados pelos dispositivos biopolíticos, e mesmo bioestéticos, para restituí-los a um possível uso comum.

IHU On-Line - O personagem Macunaíma costuma ser visto como um retrato do que costuma ser o estereótipo do brasileiro: malandro, preguiçoso (ele repete no livro a expressão “Ai, que preguiça”), ingênuo, desorganizado, de caráter duvidoso. Como vê, depois de 80 anos, essa analogia ainda sendo feita? Que paralelos você traçaria entre o “herói sem caráter” e o brasileiro do jeitinho? É possível aproximá-los? Por quê?

Raúl Antelo - O estereótipo é sinal de irrecusável necrose verbal. Onde há um estereótipo, há um discurso do poder, brecando a possibilidade dos sentidos antagônicos, complexos ou mesmo contraditórios aparecerem. Creio, sinceramente, que esse semblante a que chamamos Macunaíma (uma máscara, um vazio, um nada, uma construção de linguagem, enfim) tem a força de seu gesto. O filósofo Vladimir Jankélévitch  abre seu livro A rapsódia com uma idéia instigante: “La dix-neuvième siècle est le siècle de la Rhapsodie, comme il est le siècle des nationalités” . Ora, Jankélévitch, refinadíssimo filósofo dos paradoxos da moral, dos poderes da ironia e das potencialidades da música (mas também da potência da lei, que ele ilustrou num belíssimo texto sobre os campos de concentração e sobre o caráter imprescriptivel dos crimes contra a humanidade, que não aconteceram no passado, estão sempre acontecendo, eles acontecem já, diante de nós), digo, Jankélévitch via, já no rapsodismo de Schumann, a matriz de um método de interpretação da cultura urbana, que só se tornaria visível muito mais tarde com Simmel  e chega mesmo a estender essa linha do rapsodismo até o século XX, com a música de Bela Bartok.  Diz que o gênio rapsódico de Bartók, como aliás, o de Mário de Andrade quem, muito bom músico, deu a Macunaíma essa categorização, rapsódia. E a rapsódia, diz Jankélévitch, não é, a bem dizer, um ‘gênero’, se o gênio é restrição ou, como a tragédia clássica, convenção artificial: a rapsódia é, antes de mais nada, ausência de gênero, explosão de todos os esquemas definidos e total licença concedida a uma fantasia sucessivamente sonhadora, apaixonada e dionisíaca, que não se filia a nenhuma arte poética. Ora, nesse sentido, poderíamos pensar que Macunaíma é rapsódico porque não se filia, não se identifica, não se limita. Se avaliamos essa atitude do ponto de vista instrumental, isso é ruim. O Estado cataloga, fixa, territorializa. Se, entretanto, o avaliamos sob um ponto de vista político, a apatia nos permite alimentar um discreto otimismo, o de não colaborar com o estabelecido. Aquilo que não tem nome, que não tem lugar, é pura potência. Pode ainda vir a acontecer. Mas, se acontecer, será sempre o desdobramento de uma força que vem do arquipassado.

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