Edição 267 | 04 Agosto 2008

Marita Konzen

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Bruna Quadros

Desde 1994 no corpo docente da Unisinos, no curso de graduação em Direito, Marita Konzen se identifica com os objetivos e a missão da universidade. De família simples, ela aprendeu com os pais o valor da honestidade e dos estudos. Ao visitar a redação da revista IHU On-Line, para contar aspectos marcantes de sua trajetória de vida até então, Marita revelou que o interesse pela área jurídica vem da necessidade de mudar o quadro de injustiça social que ela sempre percebeu. Sobre a política do país, ela demonstrou preocupação e, ao mesmo tempo, esperança.

 

Origens – Nasci em Novo Hamburgo e pertenço a uma família pequena: eu e dois irmãos, um já falecido. Sou a filha do meio, estou com 48 anos, mas sempre fui tratada como a mais velha. Meu pai era alfaiate e minha mãe, costureira de roupas. Desde pequena aprendi muito com a minha mãe, vendo-a trabalhar.

Infância - A brincadeira predileta que eu e minha irmã tínhamos, quando éramos crianças, consistia em criar e costurar roupas para as nossas bonecas. Meus pais tinham alguns primos e tios que eram padres e freiras. E era comum que eles fossem até a nossa casa, para almoçar ou jantar. Eram pessoas que irradiavam simplicidade, mas, ao mesmo tempo, tinham muito conhecimento, por terem cursado Teologia. Isso me encantava, tanto que cheguei a pensar em seguir a carreira religiosa.

Separação – A separação dos meus pais foi ocorrendo aos poucos. Ocorreu, efetivamente, quando eu estava com 14 anos. Ao mesmo tempo em que foi um momento triste, foi uma situação que fez com que nós, os filhos e a minha mãe, nos uníssemos muito. Mesmo assim, convivi com a família paterna e guardo lembranças felizes.

Valores – Meus pais sempre tiveram uma preocupação com a questão ética. Minha mãe dizia que, se eu fosse à casa de algum vizinho e trouxesse para nossa casa um alfinete, eu seria uma ladra. Não existia meio-termo. Ou eu era uma pessoa honesta, ou não era, independente do ato que eu praticasse. Meus pais também sempre me incentivaram muito a estudar.

Graduação – Como sempre tive muita facilidade para me relacionar e me expor em público, foi uma opção natural, e também pela questão da injustiça social que eu percebia. Enquanto adolescente, participei muito de grupos de jovens, de Igreja, quando fazíamos muitos trabalhos com favelas. Percebi muita pobreza, também, em termos de educação. Tudo isso acabou me influenciando. Minha formação superior ocorreu na Unisinos. Fiz faculdade em Ciências Jurídicas e Sociais (Direito), a especialização em Direito Político e o mestrado em Direito Público.

Trajetória profissional - A carreira de magistério sempre me acompanhou. Logo que entrei na graduação, fui trabalhar em uma escola de 1ª a 4ª série, devido à carência de professores com ensino superior completo. Durante três anos, lecionei em uma escola comunitária. Trabalhei por seis anos em uma multinacional japonesa, que me trouxe um aprendizado valioso. No primeiro ano de formada, comecei a trabalhar em uma banca de advogados. Ao mesmo tempo em que eu precisava do retorno financeiro, sentia-me um tanto deslocada, porque planejava realizar um trabalho mais ligado à população carente. Ingressei na Unisinos, como docente, em 1994, quando passei a lecionar na Faculdade de Direito, onde ainda me encontro. Logo depois, fui convidada a lecionar e pesquisar no Centro Universitário Feevale, em Novo Hamburgo. Paralelamente, fiz concurso público e coordenei, durante 11 anos, a assessoria jurídica de uma fundação estadual. Quando eu estava pensando em me licenciar, fui convidada a integrar o Núcleo de Práticas Jurídicas, na antiga sede da Unisinos, onde se presta serviço jurídico à população carente e, ao mesmo tempo, trabalha-se com os alunos. Estou concretizando, de certa forma, o que eu desejava no passado, sentindo-me útil, tanto no exercício da advocacia quanto como docente.

Unisinos – Identifico-me com os objetivos e a missão da universidade. Sinto que encontrei o que eu almejava para a minha carreira profissional. Lecionar é como rejuvenescer todos os dias. É claro que fico chateada com o afastamento de alguns colegas, mas penso que a Unisinos tem uma finalidade muito especial, dentre as demais instituições de ensino superior da nossa Região.

Exemplo - Hoje, minha mãe está com mais de 80 anos e há uma troca bastante interessante. Quase me sinto mãe da minha mãe. Sempre a vi como uma pessoa bastante forte, que superou uma série de obstáculos, tanto que criou, sozinha, os filhos. Quando eu era jovem, as pessoas achavam que nós éramos muito amigas. E agora mais ainda, porque percebo que é ela quem está ficando frágil. E essa devolução é um sentimento que envolve imenso carinho.

Família – Casei-me aos 26 anos de idade. Tenho dois filhos: o Pedro, de 20 anos, e a Sofia, 19. Quando o meu irmão nasceu, eu tinha sete anos e era eu quem cuidava dele. Há duas imagens de que nunca vou esquecer: minha mãe saindo de casa para o hospital e voltando, com o meu irmão no colo. Ele morreu jovem, vítima de um acidente de trânsito. Poucos meses após, também sofri um acidente muito grave, de carro, com o meu filho, quando caímos no arroio que corta a cidade. Quando me dei conta de que iria morrer afogada, imaginei que meu irmão estava me esperando e me senti em paz. Porém, ao compreender que meu filho estava comigo, só pensei em salvá-lo. Essa experiência nos aproximou muito; da mesma forma, com a Sofia, pois afinal, somos mulheres e, portanto, partilhamos nossas “expectativas feministas”. Mesmo depois da minha separação, meu ex-marido continuou muito presente na vida do Pedro e da Sofia, o que considero fundamental.

Sonho - Sempre tive vontade de retornar às origens dos meus pais. Gostaria de morar em uma casa, na serra. Além disso, queria ter mais tempo para a minha família.

Lazer – Adoro ler, assistir a filmes, peças de teatro e nadar.

Filme – Gosto muito de filmes que retratem a biografia de personagens, de Mahatma Gandhi a Ray Charles; idem quanto a documentários, destacando uma trilogia com Chico Buarque, e Woodstock– 3 dias de paz, amor e música. 

Livro – Edgar Morin e Zygmunt Baumann são autores que gosto muito. Atualmente, estou lendo A montanha mágica, de Thomas Mann, e Infiel – A história da mulher que desafiou o Islã, de Ayaan Hirsi Ali. Estou relendo Hannah Arendt, em um grupo de estudos.
 
Política brasileira – Em sala de aula, quando um aluno demonstra pretensão de seguir carreira política, os demais desdenham. Não consigo ver o futuro da humanidade sem a práxis política. Neste campo, há pessoas comprometidas com a vida pública. Estamos em um momento muito importante, porque os escândalos que estão surgindo deixam as pessoas em alerta. Não nos apropriamos do nosso poder enquanto cidadãos e, portanto, não participamos da vida pública. É necessário repensar a nossa postura omissa, pois ela denuncia a nossa conivência com o status atual da sociedade.

Instituto Humanitas Unisinos – Utilizo muito os textos das revistas, em avaliações e exercícios.  Para mim, o Humanitas é o centro da própria universidade. Ele reflete a missão e os objetivos da Unisinos. Acompanhei o surgimento do Instituto e já tive uma ligação mais forte como ele, em razão de um grupo de estudos/pesquisa, do qual participava. Gostaria de retomar essa experiência.

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