Edição 267 | 04 Agosto 2008

Perfil Popular - Cláudia Santos

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Bruna Quadros

No começo, uma situação financeira estável. Hoje, uma fonte de renda que não ultrapassa R$ 20,00 mensais. Esta é a realidade de Cláudia Santos, 33 anos. Ao visitar a redação da revista IHU On-Line, ela destacou que, mesmo sem passar dificuldades, o período da infância e a experiência do primeiro emprego ficaram para trás. “A minha mãe tinha problemas cardíacos, e eu tinha que cuidar dela.” No entanto, estas fases “perdidas” não deixaram mágoas em Cláudia, que afirma ter se dedicado a quem ela mais amou na vida. Hoje, ela faz parte do grupo Mundo Limpo, que produz sabão artesanal cuja matéria-prima é o óleo de cozinha. Conheça um pouco mais da história desta mulher:

 

Nascida em São Leopoldo, onde mora até hoje, Cláudia Santos não tem uma origem tão humilde. Seu pai, que foi funcionário da Companhia Estadual de Energia Elétrica (CEEE), era, sim, de família pobre, “mas conseguiu crescer na vida, mesmo sem muito estudo”, afirma ela. Filha única, Cláudia destaca que não enfrentou dificuldades por causa disso. A falta de irmãos era compensada com a presença de amigos.

O período da infância foi privado de intensos momentos de brincadeiras. “A minha mãe tinha problemas cardíacos, e eu tinha que cuidar dela. Só pude brincar até os sete anos de idade. Brincava sozinha, falando comigo mesma, e me divertia. Fazia de conta que as minhas bonecas eram minhas amigas.”

Segundo Cláudia, sua relação com seus pais sempre foi de muita confiança, alicerçada no diálogo. “Eles me ensinaram muitas coisas e me deram educação. Nunca precisei apanhar, porque eles sabiam conversar.” Para ela, esta juventude rebelde dos dias de hoje tem origem nas próprias famílias.

A experiência do primeiro emprego e de trabalhos fixos Cláudia também não teve, devido ao longo período de tempo que precisou ficar ao lado da sua mãe. No entanto, ela declara que não se arrepende de nada. “Ao mesmo tempo em que perdi essas coisas, cuidei da pessoa que eu mais amava na vida: minha mãe.” Cláudia não deixava de gostar do seu pai, mesmo percebendo que não existia demonstração de carinho da parte dele. “Ele era pai, sabia que tinha que ajudar em casa, mas não transmitia o amor de pai.” Aos 20 anos de idade, Cláudia teve uma grande perda, com a morte da sua mãe. A falta refletiu nos estudos, “quando precisava e não tive a presença dela.” Oito anos depois, Cláudia também ficou órfã de pai.

Mesmo com alguns empecilhos, ela conseguiu concluir o Ensino Médio. Só não deu continuidade aos estudos, porque não teve o incentivo do seu pai. “Ele tinha condições de pagar, mas achava que era caro e não se interessava.” Se tivesse tido a oportunidade de ingressar no Ensino Superior, Cláudia destaca que teria escolhido o curso de Direito. “Meu pai não queria que eu trabalhasse nem estudasse, mas não lembrou que ele e minha mãe, um dia, iriam morrer.”

Hoje, Cláudia faz parte do grupo Mundo Limpo, que existe há um ano. “Quando ingressei, já fazia trabalho voluntário, na Escola Estadual Amadeo Rossi, localizada no bairro Santa Teresa, em São Leopoldo, preparando almoço para as crianças carentes.” Cláudia conta que nenhuma das voluntárias tinha trabalho fixo, “só faxina, de vez em quando.” A partir disso, começaram a se interessar por grupos de reciclagem e Economia Solidária. “No projeto Mundo Limpo, desenvolvido na Vila São Jorge, em São Leopoldo, fazemos sabão com óleo de fritura. Não deixa de ser reciclado nem artesanal. No começo, o sabão dava errado. Era como uma receita de bolo, que desandava. Sinto que, a cada dia, este trabalho cresce mais.”

Ao todo, são seis integrantes no grupo Mundo Limpo. O sabão produzido é levado para as Feiras de Economia Solidária. “Nossos amigos e conhecidos também compram o produto. O trabalho ainda não se expandiu. É difícil falar que o trabalho é feito de azeite, porque as pessoas não têm consciência. Elas acham que o óleo vai engraxar a roupa, mas é bem diferente. Aprendo muito com este trabalho.” Tamanho é o retorno, que o Mundo Limpo faz parte dos sonhos de Cláudia. “Além de ter a minha casa própria, quero que o grupo cresça cada vez mais. Espero que o trabalho possa nos dar um salário. Por enquanto, o nosso lucro é de apenas R$ 20 por mês.”

Aos 33 anos de idade, Cláudia não é casada nem tem filhos, e mora com uma amiga, que também faz parte do grupo Mundo Limpo. “Já pensei em construir a minha família, mas ainda não achei a pessoa certa.” Para Cláudia, não ter a sua própria família não a impede de ser feliz. Ela afirma que o melhor momento de sua vida é o atual, com o trabalho e aprendizado no grupo Mundo Limpo. “Passei por muitos altos e baixos, mas o momento mais difícil foi quando passei fome. Eu tinha amigos e parentes, quando tinha dinheiro. Depois, todos se afastaram de mim.”

 “Acredito muito em Deus, acima de todas as coisas.” É Dele que vem a força de vontade e o impulso para que Cláudia, que freqüenta a Igreja Assembléia de Deus, continue seguindo em frente. “Sou persistente, mas não gosto de esperar. Entreguei o trabalho do Grupo Mundo Limpo nas mãos de Deus, porque sem fé a gente não vai a lugar algum.”

Para Cláudia, quando o assunto é política faltam palavras, tamanha a indignação com a atual situação do país. Mas ela arrisca uma opinião: “Há muita coisa para corrigir, como a redução dos impostos e a distribuição de renda. Mudar a situação, de uma vez só, ninguém vai conseguir, porque os erros vêm do passado.”

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