Edição 267 | 04 Agosto 2008

As múltiplas faces do imaginário político

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Márcia Junges

A filósofa Francimar Arruda analisa o campo político para além da racionalidade, considerando os componentes psíquico e transcendente. Ela fala, ainda, da falência do modelo atual de democracia, calcada em um niilismo ético que descamba na corrupção

"A compreensão do fenômeno político abarca uma origem no trajeto humano que está na esfera do psíquico e que engendra propostas de convivências com o outro e com o Poder”, analisa a filósofa Francimar Arruda na entrevista a seguir, concedida com exclusividade, por e-mail, à IHU On-Line. Apoiada na afirmação de Burdeau de que “a política não está na natureza”, ela acentua que o fenômeno deve ser apreendido pelos componentes racional, psíquico e transcendente. Entretanto, “tradicionalmente, vemos a ação política como formas racionais de ordenamento das relações sociais”, e isso nos restringe a um terço de sua compreensão. Em sua opinião, “estamos, há algum tempo, vivenciando um niilismo ético, quer dizer, o que permeia a sociedade e a vida política é o ressentimento, a má-fé, o desamparo, a raiva, a impotência, e vários outros sentimentos que circulam entre os cidadãos e entre os cidadãos e o Estado. Isso está gerando uma falência da democracia representativa e esse episódio só veio ilustrar essa relação desgastada e frustrante”. Arruda argumenta que precisamos pensar a respeito de uma democracia vindoura, pois a que existe hoje “está em estado terminal, daí o descrédito generalizado e uma impotência absurda. Tudo é tão desmesurado que uma dimensão do ser humano como a corrupção, que eventualmente acontece num sistema político, agora virou sistêmica e normal”. Uma concretização disso seria o caso da Operação Satiagraha.
Arruda é graduada em Filosofia Arruda e especialista em História da Filosofia, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Cursou mestrado em Filosofia e doutorado em Filosofia da Educação na mesma instituição, com a tese Imaginário social e educação: fundamentos filosóficos. É pós-doutora pela Universidade de Borgonha, na França. De sua vasta produção acadêmica, destacamos o artigo que inspirou a entrevista que você confere a seguir: “As múltiplas faces imaginárias do político” (In Filosofia Unisinos, Programa de Pós-Graduação em Filosofia, São Leopoldo, Unisinos, v. 5, n. 8, 2004).

IHU On-Line - Por que a esfera política não pode ser interpretada apenas do ponto de vista das referências tradicionais de compreensão? Que referências seriam essas?

Francimar Arruda - Se partirmos do pressuposto que o ser humano possui quatro dimensões na sua constituição – a saber: natural (biológico), racional (conexão de relações), psíquica (emocional) e metafísica (transcendência ou espiritualidade) -, só poderíamos analisar suas ações a partir desta totalidade quadridimensional. Se concordarmos com Burdeau,  quando afirma que “a política não está na natureza”, então esse fenômeno deverá ser apreendido pelos três componentes (racional, psíquico e transcendente). Tradicionalmente, vemos a ação política como formas racionais de ordenamento das relações sociais. Então, por isso, ficamos sempre restritos a um terço de sua compreensão, quando deixamos de fora dessa análise o psíquico e a transcendência.

IHU On-Line - Como os componentes não racionais nos ajudam a compreender a política? A que componentes, especificamente, você se refere?

Francimar Arruda - Os componentes não racionais são as imagens, símbolos, mitos e eu ainda acrescentaria os ritos, ícones, desejos, os sentimentos e os projetos, formando o que chamo de campo do imaginário. Eles nos ajudam a compreender o fenômeno do político, da mesma forma que Freud,  para entender a relação básica da formação do sujeito (a tríade Pai, Mãe e Filho), traz da Antiguidade o Mito de Édipo, como referência e explicação. Isto é, a dimensão psíquica (emocional) está enraizada em nossa memória, com imagens matriciais, primitivas, mas que interferem no nosso comportamento, aqui e agora. Consentir e interagir com este fato nos dará condições de saber como essa dimensão macro-antropológica-mítica, significa e orienta, desde sempre, nossas  ações (as políticas também) em nível micro. Responderíamos se atentássemos para isso claramente, porque na América Latina temos um histórico político de necessitar de presidentes (Pai!), que nos assegurem e nos delimitem como eleitores (filhos)? Não há explicação somente racional que dê conta desse recado! Nesse sentido, a compreensão do fenômeno político abarca uma origem no trajeto humano que está na esfera do psíquico e que engendra propostas de convivências com o outro e com o Poder. Abarca também a esfera da transcendência porque, como afirma Bloch,  “Ser homem é ter utopias”, ter também desejos e projetar sua liberdade para o amanhã.

Ora, o projeto político sempre foi o empreendimento humano mais grandioso e notável porque perpassa a sociedade como um todo; trata-se de um projeto de uma coletividade (por exemplo, o projeto utópico da sociedade comunista). E, por fim, abarca a racionalidade porque é ela que vai operacionalizar, concretizar as duas esferas anteriores; e a razão trata disso muito eficazmente, daí nossa evolução tecnológica-científica. Emocionalmente, no entanto, continuamos com as mesmas carências de um ser do século V a. C.

IHU On-Line - Pensando nessa zona de sombras da política, como você analisaria o episódio da operação Satiagraha, envolvendo Daniel Dantas, Pitta, Naji Nahas e o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Gilmar Mendes? Essa parte “mal-dita” da política (porque não verbalizada), pode nos ajudar a entender a corrupção, por exemplo?

Francimar Arruda - Estamos, há algum tempo, vivenciando um niilismo ético,  quer dizer, o     que permeia a sociedade e a vida política é o ressentimento, a má-fé, o desamparo, a raiva, a impotência, e vários outros sentimentos que circulam entre os cidadãos e entre os cidadãos e o Estado. Isso está gerando uma falência da democracia representativa e esse episódio só veio ilustrar essa relação desgastada e frustrante. Precisamos repensar seriamente no espaço do eleitor como protagonista único do processo de eleição, por exemplo. A meu ver, não existe mais espaço para reforma política. Não adianta mudar as regras desse jogo falido, mas sim o jogo. E que não se pense que estou falando de regimes autoritários; esses são variantes da mesma regra. A maior dificuldade da democracia é substituir a força pelo diálogo e o dogmatismo pela tolerância. Concordo com Churchill  quando afirma: “A democracia é o pior dos regimes políticos, com exceção de todos os outros, todos péssimos”. Por isso, é necessário ter no horizonte de nossas reflexões a possibilidade de uma democracia por vir. Essa que vivenciamos hoje está em estado terminal, daí o descrédito generalizado e uma impotência absurda. Tudo é tão desmesurado que uma dimensão do ser humano como a corrupção, que eventualmente acontece num sistema político (o Poder corrompe), agora virou sistêmica e normal. Ser correto e bom ficou fora de moda. O máximo do orgasmo agora é ser bad boy: ele é sexy, atraente e admirado. No Rio de Janeiro, está sendo oferecido um curso intitulado: Como ser bom – Exercícios aristotélicos sobre o bem humano. Quem sabe a gente reaprende?

IHU On-Line - Em que sentido a racionalidade e a não racionalidade se complementam e são benéficas para o agir político?

Francimar Arruda - Se o fenômeno da política é complexo e envolve múltiplas dimensões, é lógico que vai requerer para sua compreensão múltiplos enfoques. Daí ser necessário unir razão, emoção e transcendência para lidar melhor com ela, tendo condições de saber de suas entranhas e labirintos. Seria conveniente percorrer esses caminhos com os meios adequados que essa investigação requer.

IHU On-Line - Essas esferas não racionais sofrem preconceito por não se adequarem ao esquema iluminista hiper-racional, de um agir categórico? Em que aspectos a política perde com esse ponto de vista?

Francimar Arruda - Isso é um assunto epistemológico e está ligado também à questão de paradigmas. Estamos assistindo a uma recuperação de uma racionalidade aberta, plural, que foi a marca do pensamento pré-socrático. O hiper-racionalismo foi uma etapa e fruto de uma época, o Iluminismo. Tanto nas ciências exatas (física quântica) quanto nas ciências humanas, uma visão de razão aberta que abarque princípios de antagonismo, lógicas da contradição e do paradoxo, é aceitável no mundo acadêmico. A reação fica por conta de alguns positivistas que não querem perder o poder e o foco de luz que mantiveram por tanto tempo.  Epistemologicamente, é gratificante quando presenciei o projeto “Cátedra da UNESCO sobre o Imaginário” ser lançado numa Universidade de Milão. Ele vai agregar instituições no mundo inteiro que pesquisam e desenvolvem o tema do imaginário, que usa necessariamente um paradigma novo e uma epistemologia que recupere as diversas lógicas da existência.

IHU On-Line - Por outro lado, ao dar vazão ao não racional na política, não se corre o risco de incutir nela um viés ligado ao sentimento, inclinação pessoal e, portanto, hipotética?

Francimar Arruda - A hipótese é uma etapa que pertence a qualquer metodologia e não se restringe, portanto, a aspectos que você chama não racional. É importante esclarecer: não racional significa que um fenômeno não é passível de ser explicado por um determinado tipo de raciocínio dedutivo do tipo: se A, então B, logo C. Isso quer dizer que essa lógica dedutiva não explicou o fenômeno porque a estrutura lógica dele é mais complexa e, portanto, exige um raciocínio mais elaborado. Você está considerando somente o viés da epistemologia tradicional, e o que escapa a ela nos habituamos a chamar de não racional, que não quer dizer irracional (sem lógica, sem sentido).

IHU On-Line - Em quais condições podemos aceitar o cultivo das mediações imaginárias na esfera do político?

Francimar Arruda - Hoje em dia, não se trata mais de aceitar ou não as mediações imaginárias, ou melhor dizendo, nas relações humanas, sejam quais forem, aceitando-as ou não, a dimensão do imaginário está presente,e, assim como não tenho como me livrar dos meus afetos, desejos, projetos, normas culturais, enfim tudo o que faz de mim um ser, não posso me livrar também da minha faculdade de criar imagens. O que acontece agora é uma conscientização de que esses componentes imaginários afetam o meu modo de ser e estar no mundo. Logo, preciso conhecê-los, entrar em contato para negociar, já que não posso expulsá-los. Conviver, viver com, é o mote existencial deste início de século, e sem a esperança utópica de um mundo melhor, mas com pretensões a um mundo possível e aberto ao diálogo a partir de uma razão viva.

IHU On-Line - As assessorias de comunicação e marketing seriam formas racionais dos modernos príncipes utilizarem a linguagem não racional e assim persuadirem, cristalizarem seu discurso no imaginário político?

Francimar Arruda - O uso tendencioso da mídia produzindo as imagens e conduzindo o desejo do consumidor não é atual. Na formação do III Reich,  o ministro da Propaganda Joseph Goebbels  teve todo o mérito da solidificação desse regime quando procurou em Wotan,  símbolo e mito do povo germânico, a âncora para sustentar a tese da raça pura alemã. O imaginário se apresenta como um material neutro e cuja plasticidade torna-o ambivalente e por isso seu uso pressupõe potenciais bons e maus. Por isso, coloquei no texto que a ausência da racionalidade formal facilita as manipulações cínicas da mídia. É necessário saber como se constrói um imaginário social para, aí sim, em nível do contra-discurso, ter condições de desconstruí-los. Para isso é preciso saber como esses discursos, esse teatro do poder pode manipular as imagens e ganhar uma eleição, por exemplo. A meu ver, poderíamos desde já (como exercício!) fazer uma leitura conspiratória para as próximas eleições. Como? Sempre perguntando (como assinalou muito bem João Ubaldo  em sua crônica do Jornal do Brasil) “Cuit Prodest” (a quem aproveita, a quem interessa?). Ao responder a essa pergunta, teremos as causas de sua proposta e os interesses embutidos, que nem sempre vão coincidir com os meus, e veremos como a quantidade de votos pesa muito numa democracia representativa. Outra providência urgente seria restringir o dinheiro das companhias: são elas que especulam interesses e dão espetáculos desnecessários e com financiamentos oblíquos e onerosos e que serão pagos por nós, os contribuintes. É só um começo, mas se vira mania... Dar assistência ao povo não pode ser uma proposta, mas um pressuposto. Isso posto, qual seria então a proposta? (e aí caímos num vazio desalentador). Isso pode mudar!

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