Edição 267 | 04 Agosto 2008

A condenação do pai e o declínio da clínica

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Graziela Wolfart

O médico Marcelo Veras revela que “nos consultório observamos que, em muitos casos, o pai não orienta mais a família”

Quando perguntado sobre o que significa para um filho ter um pai, o médico e professor Marcelo Veras, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, afirma: “Ter um pai não significa herdar o nome, os bens, ou a lei paterna exclusivamente”. A partir do pensamento de Lacan, Veras explica que o que se transmite “é o pecado do pai, ou seja, um modo de gozar, que será sempre uma transgressão dos discursos universais”. Ela ainda declara, com base em sua experiência, que “a cultura moderna descobriu que o pai é uma máscara que pode ser usada por qualquer um”. Marcelo Veras possui graduação em Medicina, pela Universidade Federal da Bahia, cursou mestrado na Universidade Paris VIII e residência médica pelo Hospital Universitário Prof. Edgard Santos. Atualmente, é diretor geral do Hospital Psiquiátrico Juliano Moreira, médico e professor da Universidade Federal da Bahia, e professor da Escola Baiana de Medicina e Saúde Pública.

IHU On-Line - Para a psicanálise e, segundo as teorias de Lacan, qual é a importância da função paterna na estruturação do sujeito?

Marcelo Veras - A função paterna passou por uma grande transformação no ensino de Lacan. Inicialmente, há o Lacan que revolucionou a teoria psicanalítica das psicoses com o termo de forclusão do Nome-do-Pai, no qual o pai, em sua função de separar o bebê do desejo mortífero materno, era uma proteção contra a loucura. Este pai, inicialmente, se assemelhava ao pai da horda primitiva freudiana. A grande mudança ocorre quando Lacan pluraliza os nomes do pai, ou seja, se afasta do Édipo e formaliza um “mais além do Édipo”, no qual ele desenvolve anos de estudo procurando outras soluções, que não o Édipo, onde o sujeito pudesse se apoiar. É curioso que os críticos de Lacan, sobretudo Deleuze  e Guattari,  quando escreveram O anti-Édipo (Rio de Janeiro: Imago, 1976), mas também Foucault,  não continuaram lendo Lacan para perceber que tudo o que eles criticavam na psicanálise o próprio Lacan, antes deles, havia antecipado.

IHU On-Line - O que é para um filho/filha ter um pai? O que faz com que um sujeito diga que tem ou teve um pai?

Marcelo Veras - Ter um pai não significa herdar o nome, os bens, ou a lei paterna exclusivamente. Com a psicanálise, aprendemos que estas funções são sempre idealizadas, mas que sempre vacilam na fala dos analisantes. Para Lacan, em seu último ensino, o que se transmite é o pecado do pai, ou seja, um modo de gozar, que será sempre uma transgressão dos discursos universais.

IHU On-Line - Como os debates contemporâneos sobre o tema da saúde mental percebem a discussão sobre a importância da figura paterna?

Marcelo Veras - No Brasil, a saúde mental é quase unanimemente influenciada pela crítica foucaultiana aos asilos, à esquizo-análise de Deleuze e Guattari e ao movimento basagliano.  Estes três pilares, aos quais podemos acrescentar a anti-psiquiatria, fazem uma crítica ao pai freudiano, e ao Nome-do-Pai lacaniano. O fato desta crítica, sobretudo em Foucault, ser basicamente centrada nas relações de poder, fez com que tudo que pudesse encarnar o poder tivesse que ser combatido. Um filósofo chamado Marcel Gauchet,  junto com uma psiquiatra de nome Gladys Swain, escreveu bastante sobre a dificuldade de oferecer uma outra visão para a saúde mental que não seja a de colocar abaixo todas as estruturas de poder. Em seu texto chamado “Por uma outra história da loucura”, Gauchet  demonstra como todos estes discursos foram extremamente influenciados pelo movimento de Maio de 68  na França. O problema é que se jogou fora o bebê junto com a água do banho. O psiquiatra, figura que passou a ser banida da saúde mental, tinha, para além do poder psiquiátrico, um saber clínico. É possível, embora não possa discorrer aqui, perceber que a condenação de qualquer representante do poder, e aqui incluímos o pai, deu-se conjuntamente com um declínio da clínica.
 
IHU On-Line - Que tipo de imagem paterna é “vendida” pelos especialistas da reprodução humana e pelos cientistas da manipulação genética?

Marcelo Veras - Não posso medir até que ponto são os cientistas ou a mídia quem explora a idéia de que a genética nos trará o super-homem. Aqui penso em Nietzsche.  Nada tenho contra os avanços da ciência. Há, contudo, como tudo que se refere ao humano por sinal, o bom uso e o mau uso da ciência. Melhorar a saúde e o envelhecimento, evitar doenças graves, viabilizar o enterro de nossos mortos (como vimos recentemente nos acidentes aéreos) etc. são grandes avanços para o homem do século XXI. O mau uso da ciência é quando ela se transforma em lógica perversa para eliminar a diferença e a subjetividade, auxiliando interesses políticos ou mercadológicos em detrimento das liberdades individuais. Quando leio nos jornais opiniões de cientistas convictos das bases genéticas da delinqüência, por exemplo, temo o que pode acontecer se um governo “esclarecido” procurar adotar medidas de prevenção baseado apenas em evidências científicas. Estamos em um momento em que urge a releitura do “Normal e o Patológico”, de Canguilhem,  para nos darmos conta de que a fabricação do homem normal pelos dispositivos científicos é útil para determinadas medidas, porém jamais será útil para medir o pensamento humano. Assim, uma política governamental seduzida pelos ideais genéticos pode ser a porta para a eugenia.
 
IHU On-Line - O que o senhor caracteriza como o pai “prêt-à-porter”?

Marcelo Veras - Penso na função paterna, que está cada vez menos privilegiada. Nos consultório, observamos que, em muitos casos, o pai não orienta mais a família. As parcerias contemporâneas são muito mais diversificadas: há casais homoparentais, famílias recompostas com padrastos e madrastas, mulheres solteiras que buscam a adoção de embriões, ou seja, a cultura moderna descobriu que o pai é uma máscara que pode ser usada por qualquer um.
 
IHU On-Line - Como a relação entre a psicanálise e a saúde mental, a partir do contato com o paciente, pode ajudar a compreender a função de pai com base no pensamento de Lacan?

Marcelo Veras - É preciso, como disse anteriormente, acompanhar a função paterna ao longo do ensino de Lacan. Aos poucos, esta função foi sendo reduzida, fazendo lembrar muito pouco o pai do Totem e Tabu freudianos. Este trabalho de redução foi tamanho que no meio da década de 1970 uma das últimas funções que Lacan ainda reservava ao pai, que seria a nomeação, deixa de ser uma exclusividade sua. Partindo da teoria dos três registros de Lacan, surge a pergunta que interessa à saúde mental no momento atual: já que o pai não é mais uma condição necessária para a transmissão de uma lei que mantivessem unidos, para um paciente, os registros do Real, Simbólico e Imaginário, que invenção é possível ao paciente para manter estes três registros unidos? Como paradigma de uma amarração entre os três registros que não passa pelo pai, Lacan vai citar a obra do escritor James Joyce.  Vale a pena ler um dos últimos Seminários de Lacan, O sintoma. Neste Seminário, para Lacan, a obra de James Joyce é o que impediu que ele entrasse na loucura. A obra, neste caso, substituiu o pai.
 
IHU On-Line - Por que o senhor considera que “o declínio da imago paterna é evidente no mundo contemporâneo”? Há alguma lacuna nesse sentido? Que tipo de trauma é mais comum em sujeitos a partir da ausência da figura paterna?

Marcelo Veras - Uma reflexão sobre o parricídio pode ser encontrada já em Freud. O declínio da imago paterna é apenas uma das versões do declínio globalizado dos valores absolutos. Observamos, por exemplo, a perda de poder da religião católica no século XXI. A velocidade da produção científica faz com que uma teoria há pouco lançada logo se torne caducada em razão de um trabalho científico ainad mais recente. O que a psicanálise propõe é que este pai abolido retorna ainda mais feroz. Como isto se passa? Por exemplo, observando que o declínio da religião católica é paralelo ao crescimento de religiões e seitas muito mais dogmáticas. Não é curioso que nos Estados Unidos, país com a melhor ciência do mundo, haja um sério movimento para o retorno do ensino do criacionismo ao invés do evolucionismo nas escolas?
 
IHU On-Line - Como Lacan analisa as relações de paternidade e filiação em Santo Agostinho e São Tomás de Aquino?

Marcelo Veras - Para responder a esta pergunta, precisaria refazer um percurso muito longo. Digamos apenas que a Trindade foi objeto de estudo e inspiração para que Lacan criasse sua teoria do “enodamento” entre os três registros do Real, Simbólico e Imaginário. Dito muito rapidamente, onde há o Pai, o Filho e o Espírito Santo, poderíamos brincar dizendo que Lacan interpôs entre o pai e o filho, o real. Ou seja, não se trata mais da transmissão simbólica do pai, mas de interrogar se há pertinência em falar de um real nesta transmissão. A ciência busca associar este real à genética. A psicanálise trabalha com outras possibilidades de transmissão real.
 
IHU On-Line - Quais são as principais versões do pai que aparecem na obra de Lacan? Como essas versões mostram a lei paterna e os poderes do pai em confronto com a lógica consumista da contemporaneidade?

Marcelo Veras - Todas estas que citei, ou seja, quando ele chega a fazer equivaler, no final de sua obra, o pai a um sintoma, ele o faz tendo passado anteriormente por um longo estudo da função paterna. Aí encontramos o pai impotente do pequeno Hans, o pai do Presidente Schreber, o pai de Dora, o pai de Édipo, Édipo como pai, em seu belo estudo sobre Antígona, e outros. Há ironias e provocações, como a afirmação de que o verdadeiro pai é o espermatozóide. Enfim, longe de banir completamente a função do pai, Lacan procurou passar a idéia de que, mesmo estando caduca a exigência do pai, tal como ele existia nos quadros de família, para cada indivíduo é necessário algo que lhe dê limites e sentidos, nos quais ele possa ancorar seu desejo. O legado de Lacan com relação ao pai pode ser sintetizado em uma de suas frases tornadas célebres: “O pai, é possível dispensá-lo com a condição de poder se servir dele.”
 
IHU On-Line - Existe ainda hoje um pai “agente da castração e perpetuador do mal-estar na cultura ao trabalhar diretamente contra o gozo”? Esse pai ainda tem alguma função real em nossos dias ou hoje impera o "pai carismático"?

Marcelo Veras - Sim, todos estes pais que citei acima co-existem. É bem isto que marca nosso tempo, não há mais um pai universal, há todo tipo de pai.
 
IHU On-Line - Em que sentido a clonagem seria considerada a “paternidade perfeita”?

Marcelo Veras - A clonagem é uma técnica científica. Ela pode ter usos diversos, dependendo das mãos em que cair. A pior perspectiva, sem dúvidas, é querer fazer da genética a primeira etapa de um processo de seleção, ou seja, ao invés de construirmos um mundo que inclua a imperfeição, tentarmos tornar o mundo perfeito.

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