Edição 267 | 04 Agosto 2008

O pai moderno dilapidado: efeito do declínio do modelo patriarcal

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Graziela Wolfart

“A introdução da função paterna para uma criança é o que permitirá sua humanização, ou seja, sua entrada na linguagem e na socialização”, considera o psicanalista Mario Fleig

“A concepção lacaniana de pai, em seus três registros (pai imaginário, pai simbólico e pai real), a noção de metáfora paterna e de função paterna, a pluralidade dos nomes-do-pai e as formas inventivas de suplência da carência do pai seriam operadores suficientes para uma adequada leitura dos impasses sociais e subjetivos da nossa contemporaneidade?”. Essas questões cruciais são levantadas pelo professor Mario Fleig, em entrevista concedida por e-mail para a IHU On-Line, ao analisar a questão da paternidade a partir do pensamento de Lacan. Para ele, “a criança, entregue ao desejo materno onipotente e sem o recurso do significante paterno, retrata a imagem perfeita da angústia”. Mario Fleig é professor do curso de pós-graduação em Filosofia da Unisinos e membro da Associação Lacaniana Internacional. Graduado em Psicologia, pela Unisinos, e em Filosofia, pela Faculdade de Filosofia Nossa Senhora Medianeira, é mestre em Filosofia, pela UFRGS, doutor em Filosofia, pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), e pós-doutor  em Ética e Psicanálise, pela Université de Paris XIII (Paris-Nord), França. É autor de, entre outros, O desejo perverso (Porto Alegre: CMC Editora, 2008)

IHU On-Line - Em que sentido a concepção de paternidade a partir de Lacan contribui para o entendimento da figura do pai na contemporaneidade?

Mario Fleig - A concepção de paternidade proposta por Lacan  retoma a que já fora elaborada por Freud , como lemos na conclusão central de Totem e Tabu,  que a moralidade, a religião e a sociedade, assim como o núcleo de todas as neuroses confluem num único ponto: “a relação do homem com o pai”. Lacan foi pioneiro em propor um retorno a Freud, e sua originalidade consiste em ter visto que a questão do pai perpassa toda a obra de Freud e que sua formalização permitiria uma interpretação tanto do sintoma individual quanto uma leitura da mutação cultural própria da época da ciência moderna e de seus efeitos subjetivos. Neste sentido, a formalização do que seja um pai, por meio da noção de função paterna, permite a Lacan especificar a problemática do pai na contemporaneidade ao diferenciar a figura, a imago ou o papel do pai de sua função. Lacan, em seu artigo “A família: os complexos familiares na formação do indivíduo”,  de 1938, já discutia os efeitos sociais e subjetivos do que denominava de “declínio social da imago paterna”, sugerindo que as formas de neuroses dominantes estão intimamente relacionadas com as mudanças nas condições da família, especialmente o que denomina de “a grande neurose contemporânea”, que é a depressão.  Roland Chemama,  em novembro de 2007, apresentou na Unisinos uma conferência a partir desta perspectiva introduzida por Lacan, desenvolvida em seu recente livro Depressão, a grande neurose contemporânea (Porto Alegre: CMC, 2007), ressaltando a dimensão de impotência e as soluções em formas utópicas que passam a dominar nas modalidades de depressão que corroem o lugar paterno.

O pai carente, ausente, humilhado, dividido e postiço

Neste momento inicial de suas formulações da questão do pai, a partir da concepção freudiana, Lacan insiste no papel central desempenhado pela personalidade do pai contemporâneo: sempre carente, ausente, humilhado, dividido e postiço. Este pai moderno dilapidado e aviltado é efeito do declínio do modelo patriarcal, progressivamente substituído pelo modelo horizontal moderno, igualitário, fraterno e autônomo. Contudo, isso não significa deplorar o abandono do modelo tradicional, mas antes tentar encontrar os operadores da estruturação de um sujeito e de uma dada cultura, ou seja, o que determina o social e o individual. A pista lançada por Freud, que localiza a questão do pai como o organizador fundamental da subjetividade e da cultura, é retomada a partir da introdução da noção de função paterna. Lacan, com a utilização da noção lógico-matemática de função, oriunda de Frege,  como operador fundamental no qual se inclui então a função paterna, nos permite compreender que o pai, antes de qualquer outro atributo, é uma função. Deste modo, a queda do rei, o declínio do modelo patriarcal, o descrédito nos deuses, o pai humilhado etc. não coincide necessariamente com a destruição das condições de operação da função paterna. Entretanto, a mutação cultural que especifica o Ocidente determina a produção de uma nova economia psíquica, que certamente tem correlação com a nova economia mundializada.

Que lugar ainda restará para este personagem, o pai?

Então, como é que operação da função paterna, fundamental para a estruturação do sujeito, se dá nesta nossa contemporaneidade? Se vivemos numa espécie de ressurgimento do matriarcado, com um aumento de famílias recompostas em torno da mãe, assim como acompanhamos os avanços biológicos nas formas de procriação que dispensam o sexual (e com isso a participação do pai) e na identificação inequívoca do pai biológico, que lugar ainda restará para este personagem, o pai? Creio que é neste ponto que a originalidade da concepção de paternidade de Lacan pode nos indicar algum rumo na confusão em que estamos jogados. Lacan insiste que o pai é um significante e que a mãe, em sua função primordial de ser o Outro para o bebê, não dispõe deste significante, ou seja, ele lhe falta. E este significante tem um nome: é o nome-do-pai, efeito da operação da metáfora paterna e que designa aquilo que Lacan reconhece nas grandes religiões, ou seja, o efeito simbólico de um puro significante.

Os dois tempos da operação da metáfora paterna

A formalização da operação da metáfora paterna consiste em um jogo de substituição na cadeia significante que antecede a entrada na linguagem do novo sujeito, e comporta dois tempos distintos. O primeiro tempo realiza a suspensão do desejo da mãe, substituindo-o pela função do pai, por meio do apelo a seu nome, induzindo a identificação com o pai e a quebra da posição de assujeitamento ao desejo e à demanda da mãe. Esse primeiro tempo introduz o sujeito na dialética edipiana, ou seja, rompe com o contínuo do campo materno e inscreve o sujeito na dimensão fálica, apontando-lhe um lugar e um tempo. O espaço e o tempo se organizam vetorizados por um significante denominado de falo, ou seja, há como avaliar o valor fálico de cada ente. No segundo tempo da operação da metáfora paterna, o significante nome-do-pai duplica o lugar do Outro e confronta o sujeito com o significante fálico, de modo que possa se instituir a fala e também possa ser introduzido na dialética do desejo e na sexuação. Estes tempos de estruturação do sujeito pela operação da metáfora paterna querem dar conta do processo de humanização da cria humana: como é que se estrutura o desejo na criança? O que faz uma criança falar? O que quer dizer falar? Ora, Lacan, ao lembrar que o desejo do sujeito é o desejo do Outro, tanto no sentido subjetivo de desejar o Outro quanto no sentido objetivo de ser o desejo do Outro, ressalta que o desejo é prescrito pelo Outro, e implica uma obrigação para o sujeito: reconhecer a dívida simbólica e sua obrigação em inscrever seu desejo segundo seu sexo. Em outras palavras, o significante nome-do-pai reúne, ao mesmo tempo, a instância do desejo (instaura uma falta) e a instância da Lei (a mãe está interditada).

As perguntas cruciais perduram: a concepção lacaniana de pai, em seus três registros (pai imaginário, pai simbólico e pai real), a noção de metáfora paterna e de função paterna, a pluralidade dos nomes-do-pai e as formas inventivas de suplência da carência do pai seriam operadores suficientes para uma adequada leitura dos impasses sociais e subjetivos da nossa contemporaneidade?
 
IHU On-Line - Na concepção de Lacan, qual é a importância do discurso da mãe para a afirmação da figura e do papel do pai?

Mario Fleig - Lacan, especialmente em seu seminário, de 1956-1957, “A relação de objeto”, propõe uma concepção de estruturação psíquica da criança que rompe com as idéias dominantes da época (as famosas fases instintivas). Ele postula como fundamental o lugar central da falta na subjetividade, e, graças aos três registros, real, simbólico e imaginário, ele define e articula entre si os três tipos de falta pertinentes: privação, frustração e castração. Ora, a introdução da criança na dimensão da falta se dá precisamente na forma de endereçamento em que esta é tomada no discurso do seu Outro primordial, o Outro materno. A quem a mãe endereça seu bebê? Com quem a mãe teve este bebê? Estas perguntas não se resolvem pela aferição de quem é o pai biológico. Trata-se de saber a posição do desejo materno. J. Bergès e G. Balbo, em Atualidades das teorias sexuais infantis (Porto Alegre, CMC, 2001) e Há um infantil da psicose? (Porto Alegre: CMC, 2002), ao retomarem a noção freudiana das teorias infantis à luz da noção lacaniana do inconsciente como sendo o discurso do Outro, chamam a atenção para a questão do endereçamento do bebê feito pela mãe. É o endereçamento materno, presente em seu desejo, que determinará o desencadeamento da operação da função simbólica do pai. O significante pai, para que a função paterna seja colocada em operação, precisar ser reconhecido como faltante no discurso materno, o que determina que a mãe dê testemunho de sua falta para seu bebê, ou seja, que possa apresentar ao seu bebê o que lhe falta (em termo freudiano, isso significa reconhecer sua não completude, ou seja, sua castração). Assim, uma mulher, ancorada em sua teoria sexual infantil, pode ter “o desejo de fazer um filho na mãe” (“der Wunsch ..., der Mutter ein Kind zu machen”), como Freud se refere em 1933 na conferência “A feminilidade” (Novas conferências introdutórias sobre psicanálise. Studienausgabe. Frankfurt am Main, Fisher Verlag, 1982, v. I, p. 551). Assim como a posição sexual de um sujeito se define não por uma suposta identidade, mas pela oposição ao sexo ao qual se endereça, também a instauração do lugar paterno, para um sujeito em estruturação, se dá pelo reconhecimento do pai real, do pai imaginário e do pai simbólico operado no discurso materno. Aquele que é paciente, presente, carinhoso etc. pode preencher o lugar do pai imaginário. Aquele que introduz a criança em uma filiação, uma linhagem, um nome, é o pai simbólico. E aquele a quem esta mulher, mãe da criança, deseja mais do que a plenitude da maternagem, aquele homem que a confronta com o sexo, é o pai real, que introduz o que é traumático para todo novo sujeito: o sexual.

IHU On-Line - O que é para um filho/filha ter um pai? O que faz com que um sujeito diga que tem ou teve um pai?

Mario Fleig - O que um filho ou uma filha dizem de seu pai? Se pudermos escutar o que um sujeito tem a dizer de seu pai, saberemos o que é ter um pai para este sujeito. As respostas mais freqüentes indicam que os filhos só têm queixas: o pai é sempre insuficiente, falho, ausente, pecaminoso etc. Nas queixas sobre as falhas do pai, podemos também ler o pedido de um pai que pudesse garantir o lugar do sujeito e dar o apoio a seu desejo. Tomemos o caso de Hamlet, que sabe que seu pai foi assassinado, sabe quem o assassinou e sabe que lhe cabe mover uma ação contra o criminoso, e, no entanto, não age. O que paralisa Hamlet? Qual é a causa de seu desânimo? O motivo de sua melancolia se encontra no que lhe revelou o espectro: o amor mais puro foi traído, visto que o pai altamente idealizado carrega uma dívida inexpiável, ou seja, é um pai pecaminoso. Hamlet se confronta com a total ausência de garantia no Outro, figurado pelo pai em falta, de modo que um dos apoios fundamentais para o desejo, o ideal paterno a ser seguido, se desmorona. O outro apoio para o desejo estaria articulado com o objeto faltoso, na dependência do desejo materno: mas aqui Hamlet se defronta com uma mãe que não conhece o luto, uma mãe que permaneceu onipotente, e ele se abole diante desse desejo materno. Somente com a morte e o enterro de Ofélia ele poderá fazer o luto (por meio do luto de Laerte) de ser o falo para sua mãe (aqui ele estava equiparado a Claudius), e então romper com sua inibição. Hamlet é emblemático do sujeito contemporâneo na particularidade de não encontrar no pai um apoio para seu desejo. Podemos lembrar de outros exemplos clássicos, como a trilogia de Paul Claudel,  que apresenta a imagem chocante do pai humilhado, assim como a história que Freud relata de seu próprio pai, que lhe conta como fora humilhado na rua por ser judeu. Freud vê, naquele instante, seu pai idealizado ruir e, sem saber o que pensar, suspende qualquer julgamento: não saberia mais se seu pai era um covarde ou um herói. Kierkegaard  também se debate a vida inteira com a decepção que lhe causa a revelação da pecaminosidade de seu pai idealizado.

IHU On-Line - Existe alguma contribuição exclusiva do pai no sentido de humanizar o filho?

Mario Fleig - A criança, entregue ao desejo materno onipotente e sem o recurso do significante paterno, retrata a imagem perfeita da angústia: estar completamente à mercê do Outro, sem saber o que o Outro quer de mim e o que eu possa ser para ele. A demanda do Outro materno, quando não interditada, figura a goela devoradora, diante da qual o sujeito se encontra prestes a ser abocanhado, aspirado, engolido. Esta boca aberta insaciável tanto pode se especificar na oralidade desmedida, expressa nas formas atuais de anorexia, bulimia, toxicomania etc., quanto no real do sexo feminino. Trata-se de um buraco que exerce esse efeito de aspiração. Ora, a função paterna, como função interditora, exerce um efeito pacificador e civilizador. O pai tem a função de domesticar esse lugar para torná-lo apto ao gozo sexual, ou seja, um gozo parcial e organizado na linguagem. Assim, podemos afirmar que a introdução da função paterna para uma criança é o que permitirá sua humanização, ou seja, sua entrada na linguagem e na socialização. Realizar o trabalho civilizador é dar aos filhos o acesso ao gozo sexual, por meio da interdição ou da Lei, que proíbe e ao mesmo tempo autoriza. O pai, enquanto função, é o que interdita a mãe e autoriza o acesso a um lugar sexuado.

IHU On-Line - A partir da concepção lacaniana de paternidade, como fica a questão da autoridade paterna, considerando a característica da autonomia dos indivíduos de nosso tempo?

Mario Fleig - Charles Melman,  em seu livro Novas formas clínicas no início do terceiro milênio (Porto Alegre: CMC, 2003), levanta a hipótese de que na contemporaneidade nos encontramos em uma nova economia psíquica e esta corresponde à mutação cultural que consiste em que nós nos supomos liberados da referência paterna. Ligado a isso, também ocorre uma recusa de que estejamos submetidos à linguagem e ao fato que o objeto capaz de causar o nosso desejo e satisfazê-lo seja um objeto radicalmente perdido. Em contrapartida, vivemos segundo a exigência, realizável graça à capacidade tecnológica contemporânea, de obtermos todos os objetos que possam saturar nossos desejos e apetites, de tal modo que a forma representativa de nossa época é a toxicomania. Todos nos tornamos dependentes do objeto suscetível de saturar e satisfazer nosso desejo. Não são mais as leis da linguagem que nos comandam, mas o objeto apto a nos satisfazer. Assim, ganha primazia tudo que é da ordem da imagem, e isso tem conseqüências sobre a organização psíquica, assim como produz um homem e uma mulher novos, que pensam e vivem de modo diferente. O deslocamento da autoridade do lugar paterno para o objeto que nos comanda torna nossa vida muito mais simples, visto que se supõe que há objetos em abundância capazes de regular os apetites. A conseqüência clínica é que temos menos neurose, mas em contrapartida mais fobia, depressões, anorexia e bulimia, assim como mais delinqüência (com seu viés perverso). Há uma inteligência nova: parece que o número dos “espertos” (tendências perversas, que visa intrumentalizar o semelhante) se multiplica, assim como a vontade de autonomia. Ora, a autonomia encontra sua expressão emblemática na vontade do paranóico, que proclama nada dever a ninguém e poder decidir tudo por si mesmo, visto que a ação de cada um se torna persecutória para o outro. Charles Melman, em seu recente seminário na Unisinos, Como alguém se torna paranóico?  (Porto Alegre: CMC, 2008, p. 16), tentava dizer em uma frase o que seria a paranóia: “Dizer o que é a paranóia em uma frase. É preciso ser um pouco paranóico para dizer o que é paranóia em uma frase, mas eu vou fazer isso assim mesmo. A paranóia é a certeza para um sujeito de ter o saber da verdade, da verdade absoluta. E a prova é que essa verdade que o sujeito possui é capaz de reparar tudo o que não vai bem na sociedade, tudo o que não vai bem no casal; o que faz com que seja um saber que se apresenta também como salvador”. Ele então desenvolve o sentido de breve definição da paranóia. Por que isso interessa quanto à questão da função paterna e da autoridade? A razão é simples: o abandono de um sistema de referências ancorado na operação do significante paterno (que se organiza segundo uma lógica trinitária, mantendo sempre uma não-equivalência entre dois termos e se sustentando nas operações metafóricas e metonímicas) implica na entrada em outro sistema que se caracteriza por uma lógica binária. A lógica binária, fundamental nas linguagens artificiais (e base hoje para a linguagem computacional), determina, no nível social, relações duais. Ora, a paranóia se caracteriza pela falha na operação da metáfora paterna, o que determina o uso prevalente da lógica binária como modo de sustentação subjetiva. 

IHU On-Line - Para Lacan, ser pai é uma função. O que acontece se essa função não for cumprida? Que tipo de lacuna aparece nesse sentido?

Mario Fleig - Se a função paterna, segundo Lacan, exerce um efeito pacificador e civilizador à medida que fornece ao sujeito uma defesa contra a demanda materna onipotente e absoluta, podemos entender que a não-operação desta suscita a necessidade de organização de outras defesas. Lacan denominou de forclusão do nome-do-pai a falha na operação da metáfora paterna e isso determinaria a organização do sujeito na psicose. A forclusão desse significante primordial se observa por seus efeitos no dizer do sujeito, sendo que a cadeia falada se apresenta sem limites e sem vetorização, com uma amarração frágil da cadeia significante e sua relação com o significado. Precisamos diferenciar a psicose de outra forma de desorganização psíquica grave, que é o autismo ou melancolia infantil. Na melancolia infantil, temos não apenas uma falha na inscrição do significante paterno, mas uma não-possibilidade de operação da própria função materna. A mãe, o Outro primordial para o bebê, fracassa em tornar seu bebê um sujeito, seja porque ela mesma não se encontra em condições de pulsionar seu bebê, seja porque seu bebê, por alguma razão, não responde aos apelos maternos, mesmo que insistentes e oportunos. 
Mas podemos considerar outros efeitos da insuficiência da operação da função paterna, que não chegam a caracterizar a psicose. Se considerarmos as crianças e os jovens privados socialmente, carentes do investimento psíquico requerido para completar a subjetivação, nos quais se torna patente uma carência da função do pai simbólico, podemos entender que a aquisição das insígnias fálicas que os autorizaria em um lugar de gozo sexual não tem outra caminho senão a violência e a delinqüência.

IHU On-Line - Quais as conseqüências de uma sociedade sem pai? Precisamos realmente de pai?

Mario Fleig - Ainda não sabemos muito bem o que poderia ser uma sociedade sem pai. Podemos levantar algumas hipóteses, considerando que a função paterna situa a instância da Lei e ao mesmo tempo autoriza o gozo sexual delimitado pela linguagem, ou seja, que não seja sem limites e assim não seja mortífero. Segundo os avanços da biologia, já temos no horizonte as formas de reprodução humana que dispensa o sexo, e, portanto, dispensa o pretenso pai. Contudo, ainda não sabemos suficientemente sobre os efeitos psíquicos da reprodução humana mediada pela tecnologia e menos sujeita às contingências do desejo e do sexo. Então, o abandono da referência paterna e de sua autoridade teria que efeito? Ora, já temos indícios, ao longo da história, que a derrubada de uma autoridade suscita o retorno da outra autoridade, e em geral, muito mais vigorosa e violenta. Por que isso? Parece que a queda de toda referência terceira, e a instauração de uma relação dual, produz uma situação de angústia que não pode ser sustentada por muito tempo. Assim, o excesso de autonomia dos indivíduos tenderia a desencadear um apelo coletivo ao retorno da autoridade. Não seria um retorno contemporâneo de uma autoridade moral e religiosa que observamos, subseqüente e paralelo ao exercício generalizado da autoridade do objeto, na forma do consumo? Um outro efeito de uma sociedade sem pai poderia ser visto a partir do testemunho magnífico que nos deixou Schreber,  como nos descreve Charles Melman em seu Retorno a Schreber (Porto Alegre: CMC, 2006). Trata-se dos efeitos do afastamento das leis da linguagem e do reconhecimento da referência simbólica demarcada pela instância paterna. O retorno a Schreber indica sua atualidade dentro da nova economia psíquica, na qual a feminilização passa a fazer parte das formas normais de identificação, tanto para um homem como para uma mulher. Schreber, que encontrava um pouco de paz se vestindo de mulher e contemplando-se em um espelho, se torna o nosso ancestral, ao aceitar, de algum modo, o lugar que a linguagem organiza para aquele que não está inteiramente tomado pela lei paterna, que então é um psicótico, quer dizer, que é o lugar de uma mulher, por estar, em parte, não submetida à Lei.

IHU On-Line - Qual a influência da forte entrada da racionalidade moderna na vida dos sujeitos para a questão da “desautorização” da função paterna?

Mario Fleig - A ciência moderna, pela invenção do campo unificado do objeto e pela redução da verdade à verificação de ser valor em relação a um referente empiricamente dado, levou, no âmbito das relações sociais, a um forclusão do sujeito da enunciação. Ora, o pai, como está posto nos modelos culturais pré-modernos, é uma conjectura, um suposição, ao passo que a mãe sempre é certa. Deste modo, a ciência moderna, em seus efeitos sociais, determina modos de operação que descartam, em seu cálculo, as incertezas próprias da subjetividade e assim realizam uma crítica radical dos fundamentos tradicionais da verdade, calcada classicamente nas figuras paternas, como Deus, o rei, o mestre, o pai patriarcal etc. Em outras palavras, acompanhamos, na passagem do modelo tradicional para o modelo moderno, um deslocamento do lugar da autoridade. Se antes esta se situava nos representantes da figura do pai, agora a autoridade se funda na positividade do enunciado científico, passível de verificação. Assim, de fato, vemos a racionalidade moderna desalojar o lugar da autoridade paterna. Com isso, não estamos tecendo uma crítica à ciência moderna, mas considerando seus efeitos sociais e subjetivos, ou seja, aquilo que constitui o laço social determinado pelo modo de operação da ciência, o que denominamos, seguindo Lacan, de discurso da ciência (considerando que discurso significa aquela articulação que permite haver laço social e a ciência como ciência não viabiliza laço social, ou seja, não podemos estabelecer socialidade apenas com os enunciados da física newtoniana ou com a matemática fregeana). Então, a progressiva substituição da função paterna pelos modos de operar do discurso da ciência e seus corolários, como a exclusão do sujeito da enunciação, significa a entrada da racionalidade da ciência moderna, que se organiza na autoridade de um conjunto de enunciados acéfalos, isto é, que dispensa quem o enuncia na vida cotidiana. Em outras palavras, a autoridade tende a se deslocar da pessoa que enuncia e que banca algo, no próprio ato de fala, para o funcionamento sem sujeito de um conjunto de enunciados justificados. Quando um pai ou uma mãe querem exercer sua benéfica autoridade sobre o filho, este pede as razões do que é dito, ou os próprios pais o remetem para outro lugar, para a justificação do que dizem, ou para outra instância, a autoridade que poderia autenticar o enunciado. Trata-se, na prática, de uma crescente desautorização da função paterna. São pais que se demitem do exercício de sua função, e essa demissão é veiculada no modo de se endereçar a seu filho.

IHU On-Line - Quais são as conseqüências de pais que têm um discurso impessoal, justificado por enunciados e não por eles enquanto sujeitos?

Mario Fleig - A demissão dos pais de sua função de autoridade em relação aos filhos tende a produzir perturbações graves nestes. Muitas vezes, o filho faz de tudo para provocar a autoridade paterna nos pais. É aquilo que já se dizia antigamente: “essa criança está pedindo para apanhar.” Se a criança não encontra um adulto que lhe faça objeção, que a proíba de alguma coisa, que lhe diga que há limites, e, muito mais do que isso, que lhe indique que há impossibilidades, não apenas para a criança, mas também para o adulto, ela terá no mínimo duas saídas: irá procurar na vida real onde se encontra o limite e o impossível, e neste caso poderá facilmente ultrapassar o limite e encontrar a morte; ou então ela ficará perdida em sua organização especial e temporal, ou seja, entrará no que constitui uma perturbação infantil generalizada na atualidade, isto é, se tornará uma criança hiperativa, hipercinética, ou, como se diz hoje, terá transtorno de déficit de atenção.

Abrandando os conflitos

Um dos efeitos mais notáveis do deslocamento da autoridade e da demissão dos pais de sua função se reflete no abrandamento generalizado dos conflitos. Não é mais possível haver conflitos dentro da família, entre o casal, entre os pais e os filhos e entre os irmãos. Qual a conseqüência do evitamento dos conflitos na vida cotidiana de nossos dias? Umas das diversas conseqüências da crescente impossibilidade de haver conflitos com o outro é o ressurgimento de um ódio sem mediações, como depreendemos das lúcidas hipóteses sobre a violência e o ódio contemporâneos propostas por Jean-Pierre Lebrun,  em O futuro do ódio (Porto Alegre: CMC, 2008). Dada a mutação do regime simbólico, na qual o gozo não se apresenta mais da mesma maneira e o fato de que o lugar da exceção (o chefe, o pai, o mestre, o presidente, o rei, o deus etc.), que permitia o efetivo reconhecimento coletivo da legitimidade de cada sujeito, já não é mais evidente, entramos em novas formas de ódio e de violência. O ódio, mais do que um sentimento ou uma manifestação de explosão violenta, é um fato de estrutura: temos ódio pelo fato de falarmos; assim poderia ser enunciada a afirmação freudiana de que o indivíduo é um inimigo da civilização. A civilização nos impõe sempre um gozo a menos, uma falta, uma restrição, e a isso respondemos com ódio. A questão decisiva, então, é o que fazemos com esse ódio que nos habita pelo fato de estarmos inseridos na linguagem? Quais os destinos do ódio? A quem odiamos? Ora, Lebrun propõe que na atualidade encontramos novas formas de evitar o ódio, determinando então seu retorno em sintomas novos e inusitados. Se a presença efetiva do outro dá origem a nosso ódio, também acontece sem a sua presença. Nesse caso, seria determinado pelos vestígios de que o outro nos atingiu, pelo menos uma vez, determinando um traumatismo perenizado. Encontramos hoje soluções de convívio que de antemão impediriam o aparecimento de qualquer conflito no encontro com o outro: desde o recurso de colocar uma televisão em cada quarto, de modo que não haja mais discussão entre os pais e os filhos sobre que programa assistir no horário em que a família estaria reunida, até a modalidade de laço conjugal no qual o outro é a peça menos duradoura, substituída ao primeiro atrito. O evitamento do ódio, nesses casos, se faria por meio de uma espécie de forclusão do encontro, determinando um modo de viver juntos, mas sem outrem. Aqui se situaria, então, uma gradativa e generalizada deterioração da consistência do outro, tanto do semelhante quanto do Outro como lugar marcado pela falta. A crescente inviabilidade do encontro com o outro produziria então a deterioração das condições de aparecer o conflito e sem conflito não haveria como o sujeito aprender a temperar seu ódio, ou seja, encontrar meios de dialetizar e domesticar sua força selvagem. Uma criança que não aprende a lidar com seu ódio no seio familiar, quando for confrontada com uma diferença conflituosa no social, facilmente tenderá para respostas explosivas, com a irrupção de formas de ódio que não encontram limites. Se tiver uma arma ao alcance da mão, não vacilará em fazer uso da mesma para resolver seu conflito com o semelhante.

IHU On-Line - Se, para Lacan, o sujeito se constrói na sua relação com o outro, como podemos pensar a sociedade de indivíduos autônomos, que constroem uma sociabilidade “virtual”, isolados, dentro de seus quartos?

Mario Fleig - Esta pergunta nos remete diretamente para a discussão dos efeitos sociais e subjetivos do advento do mundo virtual. Sabemos, a partir de pesquisa no campo da neurologia, que o cérebro é absolutamente permeável aos estímulos do ambiente. O que as formulações mais recentes das neurociências afirmam é que o ser do homem se constitui a partir do suporte biológico, altamente permeável aos ordenadores a que está submetido de modo histórico e contingente. Greenfield,  eminente professora de farmacologia da Universidade Oxford, desenvolve pesquisas sobre a neurológica da consciência e postula o alto potencial de vulnerabilidade do cérebro às novas tecnologias, dada a permeabilidade do mesmo às condições ambientais. Como diretora do Institute for the Future of the Mind, pesquisa o paralelo entre o cérebro das crianças pequenas e jovens e o dos adultos, e como são vulneráveis à tecnologia, à manipulação química e ao ambiente. Através de seus estudos, ela detecta que as crianças expostas ao mundo virtual desde muito cedo começam a ter necessidade de aulas especiais de comunicação, pois não aprenderam a interagir de modo interpessoal, e, mais do que isso, as pessoas tendem a se tornar assexuadas. Postula, então, que o impacto do computador, ao ser usado desde muito cedo pelas crianças, afeta de forma profunda a maneira de pensar e agir, produzindo desordens na atenção e na motricidade, incapacidade de distinguir entre informação e conhecimento. Assim, para ela, o computador não é apenas uma ferramenta, mas determina a estrutura de conhecimento de seus usuários, tendo impacto enorme nas crianças que estão em formação, visto que o cérebro de uma criança é muito permeável e vulnerável.

Uma nova condição humana

Sendo assim, postulamos que o advento do mundo virtual tem alto impacto na constituição de uma nova condição humana. E isso justifica que tenhamos que refletir sobre o que constitui o mundo virtual e quais os impactos que produz, ou seja, em que consiste a nova subjetividade que se organiza, seus impasses, e o que caracteriza a nova socialidade que lhe corresponde. Ora, a entrada no mundo virtual foi acompanhada da grande revolução biológica, determinante do ato de possível dispensa do pai nos processos de reprodução e fecundação. Levantamos a hipótese de que essas duas revoluções determinam uma acelerada passagem do modelo trinitário de organização e estruturação da condição humana para a prevalência do modelo binário. À luz dessa hipótese, poderíamos examinar fenômenos emergentes na subjetivação da geração submetida à ferramenta digital, assim como fenômenos emergentes no campo social. Se antes o ordenamento social e subjetivo se fazia a partir da referência a uma função operada por um terceiro, nomeado como sendo o pai e seus representantes, que tanto determinava a fonte do interdito (a Lei) quanto assinalava o lugar a ser ocupado por cada sujeito, fundando o desejo e o acesso a um gozo limitado, agora não há nenhuma instância ou programa que aponte para a Lei, mas apenas um convite veiculado pela economia liberal, que parece homogêneo com o progresso da biologia no campo da reprodução, para que cada um goze sem limites. O ciberespaço coloca cada internauta frente ao sem limites do hipertexto, em uma relação binária com a tela à sua frente. É ao que também assistimos nas apresentações de trabalhos com o uso da ferramenta digital, quando o interlocutor do conferencista não é mais o público, mas a tela virtual que comanda sua exposição. Instala-se uma nova economia psíquica, na qual se dispensa o pai, assim como a linguagem cotidiana e a função da fala. Seria possível e viável a subjetivação e o laço social passarem a estar ancorados em relações duais, segundo um modelo binário? Não seria uma decorrência do incremento das relações duais o afluxo crescente de violência que se derrama na vida cotidiana, assim como a inflação da paranóia social, na qual o cidadão se sente cada vez mais acossado por ameaças de catástrofes iminentes, sejam oriundas da natureza ou de poderes de grupos e organizações, frente às quais não há nenhuma instância a quem recorrer?

Lacan (2003), em seu artigo de 1938 sobre “A família”, como já dissemos acima, havia enunciado a tese do declínio da imago social do pai e o deslocamento da autoridade como determinante das patologias de nossa cultura, decorrente da entrada em operação do discurso da ciência e seus corolários, como a exclusão do sujeito da enunciação.

A forclusão do nome-do-pai

E isso ele descreve como sendo a forclusão do nome-do-pai, ou seja, um discurso no qual não está em operação a referência ao terceiro, o que impede as operações de substituição e deslocamento na fala do sujeito. Os efeitos da ausência da operação da função paterna aparecem na fala e nos modos como se dá o endereçamento ao outro. Poderia ser, então, alguém que fala sem conversar, ou seja, alguém que está situado na linguagem, mas não consegue operar com o terceiro em sua fala e, então, fica colado no discurso da certeza. Este é um modo de aparecer uma torção no discurso, com a entrada de uma progressiva impessoalização. Fala-se, mas já não se sabe mais quem fala e para quem se fala. É interessante ver se esta hipótese permite uma leitura dos sintomas que emergem na contemporaneidade.

Uma nova subjetividade e um novo laço social

Acompanhamos a progressiva impessoalização do discurso, a crescente instrumentalização das relações, aliada à velocidade da substituição dos artefatos (o instantâneo, a obsolescência programada, o descartável), a desresponsabilização em relação ao outro e a si mesmo, a progressiva queda da consistência do outro e da relação com ele, a equiparação entre o objeto de consumo, rapidamente descartável, e a pessoa de meu semelhante, a dissipação da intimidade e da privacidade, o surgimento de corpos angelicais deserotizados, inodoros, assépticos etc., a desconexão entre sexo, erotismo e amor? O ciberespaço e a cibercultura são os culpados de tudo isso? Não é o que pensamos, mas temos que convir que um novo mundo, uma nova subjetividade e um novo laço social estão se configurando com o advento da revolução digital, por certo maravilhosa e irrecusável, devido à gama incalculável de benefícios que nos oferece. Pensar e conceituar o que constitui o mundo digital e encontrar modos pertinentes de nos situarmos em relação ao mesmo tem sido nossa pretensão. Ou seja, o virtual, organizado na lógica binária e na capacidade de acumular informações, requer uma análise crítica séria, assim como a promessa que apresenta, para que não sejamos tomados na dupla armadilha de que somos nós que comandamos o objeto virtual, como todos os outros objetos de consumo, e estamos na posição do sujeito que se crê não assujeitado a nada, ou seja, crê que não deve nada.

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>> Confira outras entrevistas concedidas por Mario Fleig:

* As modificações da estrutura familiar clássica não significam o fim da família. Edição número 150, de 08-08-2005, cujo tema de capa é O pai desautorizado: desafios da paternidade contemporânea;

* Freud e a descoberta do mal-estar do sujeito na civilização. Edição número 179, de 08-05-2006, cujo tema de capa é Sigmund Freud. Mestre da suspeita;

* O declínio da responsabilidade. Edição número 185, de 19-06-2006, cujo tema de capa é O século de Heidegger;

* O delírio de autonomia e a dissolução dos fundamentos da moral. Edição número 220, de 21-05-2007, cujo tema de capa é O futuro da autonomia. Uma sociedade de indivíduos?;

* “Querer fazer o mal parece algo inerente à condição humana”. Edição número 265, de 21 de junho de 2008, cujo tema de capa é Nazismo: a legitimação da irracionalidade e da barbárie.

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