Edição 266 | 28 Julho 2008

“Os pobres só fazem política na hora de votar”

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Patricia Fachin

Ao longo da história, as reivindicações populares sempre foram consideradas uma ameaça à ordem da sociedade, avalia Lúcio Flávio Rodrigues de Almeida

“Hoje, a pretexto de defender a democracia, pela qual jamais lutaram, representantes da direita brasileira procuram criminalizar os movimentos sociais, justamente onde estão as forças que mais se empenham no aprofundamento da democracia neste país”, afirma Lúcio Flávio Rodrigues de Almeida, sociólogo e professor da Pontificia Universidade Católica (PUC-SP). Em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, ao comentar a aversão da classe dominante frente às lutas populares, o pesquisador argumenta que o neoliberalismo “atualiza o velho preconceito liberal contra a participação dos trabalhadores na política”. E define: “Trata-se de uma política e de uma ideologia que se articulam a um processo de acumulação de capital ainda mais predatório do que o capitalismo dos chamados ‘trinta anos gloriosos’, do capitalismo que se seguiram à segunda guerra mundial.”
Lúcio Flávio Rodrigues de Almeida é graduado e doutor em Ciências Sociais, pela Universidade Estadual de Campinas, e mestre em Ciências Políticas, pela mesma universidade. Cursou pós-doutorado em Ciências Sociais, pela Université de Paris VIII.

IHU On-Line – Ocorre, especialmente no Brasil, uma disposição em criminalizar os diversos movimentos sociais? Esse fato está relacionado às nossas raízes histórica, política e econômica?

Lúcio Flávio Rodrigues de Almeida - Tradicionalmente, as classes dominantes brasileiras consideram as lutas sociais uma ameaça à ordem. É interessante observar que a Revolução Pernambucana de 1817 foi facilmente sufocada quando o comandante português alertou os proprietários para o risco que os escravos representavam para a ordem. As classes dominantes só se lançaram na luta pela Independência do Brasil quando se asseguraram de que a escravidão continuaria. E conseguiram arrastá-la até 1888. Para não recuarmos muito no tempo, observemos que, no momento final da derrubada do Estado Novo, os representantes das classes dominantes alegaram que Vargas  se revelava incapaz de controlar o movimento operário.  Em 1954, Vargas, desta vez presidente eleito constitucionalmente, em 1950, com quase 49% dos votos, também foi deposto, acusado de ser o maior subversivo do país, pois havia um grande ascenso das lutas operárias. E, em 1964, com o mote de defesa da democracia contra a subversão e a corrupção derrubaram o governo Goulart,  abrindo caminho para 21 anos de Ditadura Militar. As classes dominantes brasileiras possuem uma grande tradição de patrimonialismo, sem grande apreço pela distinção entre o público e o privado, mesmo quando esgrimem o discurso liberal. Hoje, a pretexto de defender a democracia, pela qual jamais lutaram, representantes da direita brasileira procuram criminalizar os movimentos sociais, justamente onde estão as forças que mais se empenham no aprofundamento da democracia neste país. A novidade atende pelo nome de neoliberalismo. Trata-se de uma política e de uma ideologia que se articulam a um processo de acumulação de capital ainda mais predatório do que o capitalismo dos chamados “trinta anos gloriosos”, do capitalismo que se seguiram à Segunda Guerra Mundial. Procuram lucrar ao máximo no menor lapso de tempo possível, o que implica não somente uma gigantesca devastação ambiental, mas também a superexploração dos trabalhadores. Daí as relações de trabalho precárias, a informalidade, o ataque à previdência social, as privatizações, o trabalho escravo ou semiescravo e outras mazelas que a maioria das pessoas consideravam inimagináveis no século XXI. Neste contexto, os dominantes consideram um escândalo que os pobres se organizem e lutem por seus direitos. O neoliberalismo atualiza o velho preconceito liberal contra a participação dos trabalhadores na política.

IHU On-Line - A relação do Estado com os movimentos sociais tem revelado uma marginalização na política brasileira?

Lúcio Flávio Rodrigues de Almeida - Se depender da classe dominante brasileira, os pobres só fazem política na hora de votar e se votarem do que jeito que ela quer. E os eleitos fazem o que querem, ou seja, na maioria aprovam políticas que beneficiam os dominantes e são muito bem remunerados para isso. Alguém já viu pobre com dinheiro para corromper político? Mas quando os pobres procuram fazer política de outro modo, intervindo diretamente no processo de decisões acerca de suas próprias vidas, buscando se informar, trocar idéias e agir coletivamente, como é o caso dos movimentos que lutam pela reforma agrária, são tratados como criminosos. É claro que isto afeta a política brasileira, pois ela se transforma em uma atividade para um grupo muito restrito da população: aqueles que detêm o poder político e econômico.

IHU On-Line - Duas bandeiras unificaram o movimento social na década de 1990, a luta contra o neoliberalismo e a eleição de um presidente operário. Agora o movimento social se encontra fragmentado. O senhor atribui essa divisão ao governo Lula?

Lúcio Flávio Rodrigues de Almeida – Até agora, o governo Lula tem demonstrado muita competência para reciclar o neoliberalismo no Brasil. Seu prestígio popular é imenso, o que assegura grande legitimidade para a política de seu governo que beneficia fundamentalmente o grande capital nativo e estrangeiro. Os lucros das grandes empresas dispararam. Os empregos também aumentaram, mas, no geral com salários muito baixos. E, se, no ano passado, foram gastos cerca de 9 bilhões de reais com o Bolsa Família, isto é insignificante perto dos mais de 237 bilhões destinados ao pagamento de juros da dívida pública. Mas Lula não é de extrema-direita. Esta diferença é importante e, infelizmente, passa desapercebida para grande parte das esquerdas brasileiras. Isto as impede de fazer uma crítica consistente ao governo, sem se confundirem com o golpismo da direita.

IHU On-Line - O senhor disse que antes das eleições o mercado tinha medo de Lula e agora tem medo que o presidente se vá. Levando em consideração essa afirmativa e tudo o que presidente tem representado para a burguesia, é correto afirmar que os movimentos sociais, hoje, representam o grande perigo para esses setores da sociedade? 

Lúcio Flávio Rodrigues de Almeida - A classe dominante brasileira tem uma tradição de grande docilidade frente aos interesses imperialistas e extrema dureza para com os dominados em nosso país. Reclamam do Estado o tempo todo, mas “não vivem sem as suas tetas”, sob a forma de empréstimos do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) a juros amorosos, subsídios, renúncias fiscais etc. E, claro, apelam para a repressão estatal sempre que os movimentos sociais emergem. Por isso, entramos no século XXI como uma das maiores desigualdades sociais do planeta. Esta ojeriza à ação coletiva dos dominados tende a aumentar na medida em que sinais de crise despontam no capitalismo mundial.

IHU On-Line - Como o senhor percebe a participação indígena na política, no caso do governo Evo Morales? Por que no Brasil movimentos sociais como esse não representam participação efetiva?

Lúcio Flávio Rodrigues de Almeida - No Brasil, os movimentos sociais de caráter étnico ainda têm um longo caminho pela frente, a começar pelo movimento negro. A população indígena brasileira foi quase totalmente dizimada e seus descendentes necessitam de um apoio muito grande para sobreviverem cultural e mesmo fisicamente. Lutam com a pequena força que possuem. Em poucas palavras, a maioria dos movimentos sociais brasileiros não se caracteriza por uma forte identidade étnica. Já os povos indígenas representam quase 70% da população da Bolívia, situação parecida com a de outros países da América Latina. Isto faz com que estes movimentos, ao contrário dos principais movimentos sociais brasileiros tenham um profundo componente étnico. Os movimentos sociais se fortaleceram muito na Bolívia e impulsionaram a eleição de Evo Morales. Resta saber se Evo Morales estará à altura das expectativas que os movimentos sociais depositaram neles. 

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