Edição 265 | 21 Julho 2008

O nazismo como legitimação da irracionalidade

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Márcia Junges

O advento do nazismo legitimou a intolerância, o crime, a irracionalidade, e prova que a cultura e o conhecimento não afastam o espectro da irracionalidade. No mundo atual, ainda é possível que surjam líderes como Hitler, analisa o médico e escritor Moacyr Scliar



“Há pouco tempo, o presidente do Irã declarou que o Holocausto nunca ocorreu. Isto sem falar nos tiranos que pululam por aí, como Mugabe na África”, responde o médico e escritor Moacyr Scliar, ao ser questionado se no mundo atual ainda há espaço para um tipo de ditador como Hitler. Para Scliar, “o nazismo conseguiu legitimar a irracionalidade, o racismo, o preconceito, a intolerância, o crime”. E continua: “O sofrimento une as pessoas, e uma catástrofe da magnitude do Holocausto exerce esse efeito de forma poderosa. Os judeus se deram conta de que, mesmo fazendo parte de diferentes grupos nacionais, ou sociais, ou profissionais, para o nazismo eles eram uma coisa só”. As afirmações fazem parte da entrevista a seguir, concedida com exclusividade à IHU On-Line por e-mail.

Moacyr Scliar é um dos mais conhecidos escritores brasileiros da atualidade. Formado em Medicina, trabalha como médico especialista em saúde pública. Em 1963, iniciou sua vida como médico, fazendo residência em clínica médica. Especializou-se no campo da saúde pública como médico sanitarista. Iniciou os trabalhos nessa área em 1969. Em 1970, freqüentou curso de pós-graduação em medicina em Israel. Posteriormente, tornou-se doutor em Ciências pela Escola Nacional de Saúde Pública. Já foi professor na Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA). Scliar publicou mais de setenta livros, entre crônicas, contos, ensaios, romances e literatura infanto-juvenil. Destes, citamos o ensaio A condição judaica (Porto Alegre: L&PM, 1987) e os romances O exército de um homem só ( Porto Alegre, L&PM, 1991) e O centauro no jardim (9. ed. Porto Alegre: L&PM, 2001). É o sétimo ocupante da cadeira nº 31 da Academia Brasileira de Letras.

IHU On-Line - Em sua obra, inúmeros livros retratam a cultura judaica. Como a questão da memória do povo através da literatura é importante para refletirmos sobre o Holocausto?

Moacyr Scliar - Alguém já disse que a literatura é a história não oficial de um povo. Mesmo as obras de ficção podem assim nos ajudar a entender um acontecimento tão sombrio e tão cheio de lições como foi o Holocausto. Igualmente importantes são as obras de não-ficção.

IHU On-Line - Como o Holocausto influenciou na identidade do povo judeu? Quais são as principais marcas deixadas?

Moacyr Scliar - O sofrimento une as pessoas, e uma catástrofe da magnitude do Holocausto exerce esse efeito de forma poderosa. Os judeus se deram conta de que, mesmo fazendo parte de diferentes grupos nacionais, ou sociais, ou profissionais, para o nazismo eles eram uma coisa só. Foi uma forma de tomar uma dolorosa consciência de um passado comum, de uma tradição cultural comum.

IHU On-Line - Quais são as raízes históricas para a perseguição aos judeus na Segunda Guerra Mundial? Pessoalmente, qual é o seu sentimento em relação a esse preconceito, a essa exclusão?

Moacyr Scliar - O nazismo nasceu, em primeiro lugar, da peculiar situação da Alemanha, que emergiu da Primeira Guerra em uma situação precária e assim ficou durante muito tempo. Hitler soube, astutamente, mobilizar esse ressentimento, e canalizá-lo contra um clássico bode expiatório que eram os judeus, considerados, desde a Idade Média, como um grupo conspiratório, atuando na área de finanças. Para isso, colaborava o fato de que, no Medievo, muitos judeus se haviam dedicado ao empréstimo de dinheiro a juros. Mas isso eles o haviam feito por pressão das classes dominantes, que confiavam o dinheiro a um grupo indefeso. Quando um senhor feudal não queria pagar a dívida contraída com um financista judeu tudo o que ele tinha de fazer era desencadear um massacre, que resultava assim numa “queima de arquivo”. Que os bancos depois tivessem assumido essa função aos preconceituosos não importava; eles continuavam dizendo que os judeus “tinham a usura no sangue”.

IHU On-Line - Como podemos entender que, em pleno século XX, e com amplo apoio da população alemã e de outras partes do mundo, se chegou ao terror nazista?

Moacyr Scliar - A cultura, o conhecimento, a racionalidade, enfim, não afastam o espectro da irracionalidade. Pessoas respeitáveis podem, em determinadas circunstâncias, tornarem-se assassinos. O nazismo conseguiu legitimar a irracionalidade, o racismo, o preconceito, a intolerância, o crime.

IHU On-Line - Na Alemanha e no mundo atual, há espaço para esse tipo de político ditador? As pessoas, em pleno século XXI, apoiariam uma política como aquela?

Moacyr Scliar - Claro que há. É só olhar os jornais para constatá-lo. Há pouco tempo, o presidente do Irã declarou que o Holocausto nunca ocorreu. Isto sem falar nos tiranos que pululam por aí, como Mugabe na África.

IHU On-Line - Podemos dizer que o Holocausto é fruto da pós-modernidade? Ou ele é a sua essência?

Moacyr Scliar - Não sei se podemos dizer isso, mas não se discute que o Holocausto colocou dúvidas sobre a idéia do progresso como algo moderno e irreversível.

IHU On-Line - O que explica o fascínio exercido por Hitler sobre as massas?

Moacyr Scliar - Em primeiro lugar, pela frustração em que viviam muitos alemães, e depois pelo carisma demagógico de um líder que prometia transformar a Alemanha na grande potência do nosso mundo.

IHU On-Line - É correto dizer que Hitler entendia o marxismo como a expressão política do judaísmo? Por quê?

Moacyr Scliar - É, sim, correto dizer isso. Mas Hitler também dizia que os judeus controlavam o capital. Ou seja: eram capitalistas e comunistas ao mesmo tempo. O que dá uma idéia do raciocínio maluco que animava o nazismo.


LEIA MAIS...

Moacyr Scliar foi entrevistado pela edição 260 da IHU On-Line, de 02-06-2008, editoria Matéria de Capa, com a entrevista "Ruim com SUS, pior, mas muito pior, sem ele". O material pode ser acesso através do nosso site: WWW.unisinos.br/ihu

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