Edição 264 | 30 Junho 2008

Walter Andrey Fontana

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Bruna Quadros, Márcia Junges e Moisés Sbardelotto

Das brincadeiras de criança, construindo brinquedos de madeira, o engenheiro mecânico Walter Andrey Fontana, professor da Unisinos, desenvolveu os dons que hoje aplica em sua profissão. Bem-humorado e apegado à família, ele reconhece a importância de se ter uma base humanística na formação. Estudante do doutorado em Engenharia Metalúrgica da UFRGS, até hoje cultiva seu maior interesse: a aviação.

Origens – Nasci em São Leopoldo e tenho 34 anos. Minha mãe é de Farroupilha, e meu pai, de Bento Gonçalves. Meus avós maternos eram agricultores. Por parte de pai, meu avô era professor dessas escolas de interior. Uma coisa engraçada é que eu fiquei sabendo só depois de muitos anos que o meu avô estudou aqui com os jesuítas, no Colégio Cristo Rei, e o Pe. Reus foi um dos professores dele. Tenho uma irmã mais nova, que é professora de Letras em Curitiba, formada aqui pela Unisinos.

Infância – A infância foi boa, muito produtiva. Eu tive de criar muito. E hoje vejo que ela foi determinante para chegar à profissão que escolhi, porque sempre tive um sonho grande, que estava vinculado à Engenharia. Quando fiz 18 anos, estava cursando o técnico e fui convidado para trabalhar aqui. Comecei como estagiário.

Gosto pela aviação – Morávamos ao lado esquerdo do aeroclube, em São Leopoldo. Naquela época, a BR-116 era como um muro intransponível, não se podia passar. E eu só via os aviões de longe. Aquilo foi maturando meu sonho. Lembro-me que certa vez pedi para o meu pai comprar para umas coleções de livros de aviões de guerra, de combate. Eu tinha uns oito ou nove anos. Então, ele foi para São Paulo e trouxe dois livrinhos, que li várias vezes. Até hoje, eu lembro das figurinhas. Eram sobre a guerra do Afeganistão, as aeronaves da época. Pareciam uma revista, mas eu não os tenho mais. Quando eu tinha 10 anos, minha mãe comprou um conjunto de quatro livros Como funciona: Todos os segredos da tecnologia moderna. Neles, que tenho até hoje, havia de tudo, desde como funcionava uma batedeira até uma bomba atômica.
Vivíamos em um chalé de madeira, simples. Lembro que minha mãe plantava umas folhagens em volta. E eu dizia para ela: “Por que precisa ter essas plantas ao redor da casa?”. Isso porque precisava cortar a grama. E ela respondeu: “Isso é porque eu gosto de ouvir o barulho da chuva”. Mas não era por isso. Era para tampar os buracos da casa (risos).

Educação – Quando tinha 14 anos, percebi que tinha várias opções. Mas, quando chegasse aos 18, precisaria trabalhar. Então, alguém disse para eu fazer um curso profissional. Havia o Senai, a Fundação Liberato e o Cetemp. Fiz prova para o Senai, que era muito atraente para a época, e para a Liberato, onde passei em quinto lugar. Sempre digo que uma das melhores coisas que eu fiz foi ter feito curso técnico em mecânica.

Formação superior – Sou graduado pela Unisinos. Comecei como estagiário de laboratório, na área de metalografia, aos 18 anos. No outro ano, comecei a graduação aqui mesmo e fui levando. Ganhei meu primeiro salário e pensei: “Vou colocar a aviação em pauta”. E aí mergulhei dentro disso. Por sete anos, eu respirei esse ar. Estive a um pulo de não me formar e não estar aqui, porque em 1997 surgiu a oportunidade de ser instrutor lá no aeroclube. Eu estava com quase tudo encaminhado. O pessoal até me apresentava como o futuro instrutor. Mas, então, a Varig começou a entrar em crise. Criaram o curso de Ciências Aeronáuticas na PUC, e, para se entrar na Varig, era preciso passar obrigatoriamente pelo curso de Ciências Aeronáuticas. A aviação agrícola estava ruim. Então, aconteceu uma série de fatores que fizeram com que eu esteja aqui como professor.

Ser professor & doutorado – Leciono as disciplinas de Usinagem II e Manufatura Integrada, e continuo sendo aluno, porque faço doutorado em Engenharia Metalúrgica , na UFRGS. Comecei este ano e devo demorar mais uns três anos para concluir. O meu trabalho ainda é um sonho. Eu acredito que todo mundo precise de referências. Às vezes, volto lá para a minha infância e lembro que não fugi muito daquilo que eu era quando criança. Eu construía os meus carrinhos, meus aviõezinhos, tudo de madeira. Uma das coisas mais difíceis para mim era deixar a madeira plana. Então, ganhei de Natal uma plaina. Lembro que projetava, construía as coisinhas daquele jeito que sabia. Hoje eu faço isso ainda. Tenho todo um apoio de softwares em projeto, inclusive em construção de equipamentos, como professor. No final das contas, tive todo um caminho, mas, no âmago, faço o que eu fazia na infância.

Família – A família é a base de tudo. As coisas no país e no mundo dependem muito da questão familiar. Penso que, quando um apóia o outro, tudo tende a se desenvolver. Sou casado há sete anos com a Luciana, minha namorada há 14 anos. Tenho um menino, o Eduardo, muito esperto, muito especial. Ele veio e provocou uma série de mudanças. Lembro que, quando eu saí do hospital, carregando ele, pensei: “E agora?”. Eu nunca tinha criado uma criança nem segurado um nenê no colo. É o primeiro neto do nosso núcleo familiar. Eu não sabia trocar fralda, nem dar banho, nada. Ele fez quatro anos em 23 de junho. Cuidamos para que o Eduardo tenha muita referência, limites.

Política do país – Não tenho vinculação partidária. Com minha visão de engenheiro, me parece que nosso país tem tudo para ser uma potência, em termos tanto tecnológicos como sociais. No entanto, falta segurança em todos os níveis. Dentro de uma fábrica, estudamos para se ter um fluxo de processos o mais claro possível, simples, em que as coisas andem. A impressão é que na estrutura do país isso não funciona.

Lazer – Leio, gosto de ver filmes e passear com meu guri. Tenho o hábito de reler os livros, mas não compro muitos. O último que li foi a biografia A extraordinária vida de Alberto Santos Dumont. Entre vários outros, gostei muito de Em busca de sentido, do Viktor Frankl, no qual ele fala de quando passou no campo de concentração de Auschwitz. Leio e tento me colocar na posição dele.

Sonho – Hoje, transporto os sonhos mais para a minha família. Meu grande sonho mesmo é ver a minha família bem desenvolvida. Profissionalmente, gostaria de trabalhar na Nasa (risos). Mas isso não é possível numa escala de tempo. Precisaria nascer e morrer mais umas duas vezes.

IHU – Tem uma importância muito grande dentro da Unisinos, é uma referência. Como engenheiro, penso que toda a técnica é só um instrumento, não é a base. Se todo esse conceito de idéia, de estrutura de pensamento fosse totalmente diferente, teríamos outro caminho. A base filosófica que recebemos – e isso é uma coisa que vem de muitos anos – é o esteio do qual necessitamos. O Instituto Humanitas discorre de forma adequada sobre esse conjunto de fatores que nos afetam. Trabalhei há algum tempo com a Vera Schmitz, do Projeto Tecnosociais. Ela mostrou-me uma dimensão que nem sempre é considerada. É muito importante ter esses núcleos que discutam pensamento, ações, porque isso mexe com a vida de todo mundo.

Unisinos – Mudou muito, muito. Para mim mesmo é até difícil de entender. A qualidade de ensino melhorou imensamente. 

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