Edição 264 | 30 Junho 2008

Notas sobre o futebol gaúcho

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Édison Gastaldo

“Desde farroupilhas e imperiais, chimangos e maragatos, petistas e peemedebistas, a política em nosso estado tem sido marcada por polaridades extremadas. A divisão do Rio Grande do Sul entre gremistas e colorados vem a expressar isso em uma versão futebolística”

Certa vez, a antropóloga Simoni Lahud Guedes  denominou o futebol no Brasil como uma “instituição zero”, isto é, um fenômeno social sem um sentido único e definido, entendido como um imenso significante vazio, capaz de referir uma grande variedade de significados, conforme a ocasião. Assim, no Brasil, o futebol pode ser visto tanto como uma metáfora da masculinidade, como um elemento da identidade nacional (que o epíteto “país do futebol” expressa claramente), quanto seus cartolas, procuradores e empresários como uma expressão das mazelas da vida pública em nosso país, e assim por diante. Entre muitos outros significados que o futebol pode expressar, um deles é o de reduto da identidade regional no Rio Grande do Sul. Os gaúchos acreditam – ou gostam de acreditar – que o futebol jogado aqui tem um “estilo” próprio, distinto daquele atribuído ao “futebol brasileiro” na mesma medida em que se considera o Rio Grande do Sul e a “cultura gaúcha” como sendo distintos do Brasil e da “cultura brasileira”. O “futebol gaúcho” (como a cultura gaúcha) seria mais “vigoroso”, “duro”, fundamentado em disciplina tática – leia-se “trabalho” –, ao contrário do futebol brasileiro, que seria mais “malandro”, “alegre”, fundamentado no talento individual, isto é, no “dom natural” dos craques. Ora, estas representações fazem muito sentido à primeira vista, mas é preciso alguma cautela antes de adotá-las impensadamente. Se, por um lado, essas representações coletivas (pelo fato mesmo de serem largamente difundidas) provocam expectativas entre torcedores e dirigentes com relação aos jogadores a serem contratados ou dispensados, por outro, a circulação nacional e internacional dos jogadores dilui a possibilidade de “escolas” ou “estilos” fundamentados em valores regionais. Como um exemplo, basta pensar que no Gre-Nal do final de semana (29 de junho) somente um dentre todos os 22 titulares em campo nasceu no Rio Grande do Sul, o goleiro Renan, do Internacional.

A dupla Gre-Nal, a propósito, expressa uma tradicional divisão binária dos gaúchos: desde farroupilhas e imperiais, chimangos e maragatos, petistas e peemedebistas, a política em nosso estado tem sido marcada por polaridades extremadas. A divisão do Rio Grande do Sul entre gremistas e colorados vem a expressar isso em uma versão futebolística. O mesmo padrão se repete nas principais cidades do interior: Caxias x Juventude em Caxias do Sul, Brasil x Pelotas em Pelotas e mesmo Aimoré x Floriano (atualmente Novo Hamburgo) no Vale do Sinos. Mais uma vez, o potencial significante do futebol entra em ação para definir um universo dividido em dois: de um lado, os negros pobres: o “povão”; do outro, os brancos ricos: a “elite”. Uma espécie de complementaridade dos opostos à moda gaúcha, um t’ai chi gaudério. Entretanto, mais uma vez devemos resistir a simplificações exageradas e ao que Eric Hobsbawm chama de “tradições inventadas”: normalmente, as pesquisas sobre pertencimento clubístico no Rio Grande do Sul resultam em um empate técnico em todas as classes sociais e clivagens étnicas. De uma certa forma, os sentidos que atribuímos ao futebol refletem a nossa “realidade”, mas não de modo simples e direto: estas representações largamente compartilhadas nos mostram aquilo em que gostamos de acreditar, nos evidenciam com que categorias classificamos e damos sentido para o mundo, para os outros, para a sociedade. 

Édison Gastaldo é antropólogo, professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Unisinos e autor dos Cadernos IHU Idéias número 10, intitulado “Futebol, mídia e sociedade no Brasil: reflexões a partir de um jogo”, e número 43, intitulado “Futebol, mídia e sociabilidade. Uma experiência etnográfica”.

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