Edição 264 | 30 Junho 2008

''Somos mais iguais aos nossos concidadãos do que pensávamos'

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Graziela Wolfart

Para Maria Izabel Noll, a valorização dos partidos políticos ainda é um traço bastante presente na cultura do povo gaúcho

A professora e coordenadora do PPG em Ciência Política da UFRGS, Maria Izabel Noll, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, reflete sobre a identidade do povo gaúcho a partir da crise política que o estado vive. Em suas respostas, ela afirma: “O que provavelmente está sendo vivenciado pelos gaúchos é uma crise de auto-estima já que o Rio Grande do Sul tem sido visto como um estado politizado, participativo e celeiro de grandes lideranças como Getulio Vargas, João Goulart ou Leonel Brizola, para citar apenas alguns mais evidentes. Muitas dessas construções passam a fazer parte de nossa cultura política, mas nem sempre correspondem à realidade dos dias presentes”.
Noll possui graduação em História, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, mestrado em Ciência Política, pela mesma instituição, e doutorado em Ciência Política, pela École des Hautes Études en Sciences Sociales de Paris, onde foi também professora visitante. Tem trabalhos na área de ciência política, com ênfase em estudos eleitorais e partidos políticos, atuando principalmente nos seguintes temas: partidos políticos, democracia, eleições, poder legislativo e elites.

IHU On-Line - A partir da história da política rio-grandense, como compreender a crise que vivemos hoje no governo do estado?

Maria Izabel Noll - A crise que estamos vivendo não é uma decorrência exclusiva da CPI do Detran ou de eventuais questões políticas acontecidas nos últimos meses. Ela vem se gestando a longo prazo e tomou formas mais concretas a partir da posse da governadora Yeda Crusius.  De um lado, é preciso pensar que o estado vem sofrendo um desgaste muito grande com o esgotamento de sua matriz econômica assentada na agropecuária de exportação. Não é de hoje a constatação de que a metade sul está estagnada e que o crescimento se concentra nas regiões industrializadas (centro-nordeste) e na zona do agronegócio (noroeste). Portanto, a ausência de recursos para investimento não é um fato novo. O que provavelmente é novo é o fato de que a governadora se elegeu através de um partido que não possui tradição no Rio Grande do Sul, um partido pequeno, e que necessitou de uma ampla base de sustentação de outros partidos para formar um governo. A tradicional oposição PMDB X PT, fortalecida ao longo dos anos 1990, constituía governos articulados em torno de sólida base partidária. Isso não foi possível com o atual governo. Ele é dependente de uma ampla gama de partidos políticos, com interesses diferenciados. Não estamos afirmando que os partidos não devam constituir amplas alianças para governar, porém ser um partido minoritário dentro de uma vasta aliança pode ter um custo alto.

IHU On-Line - Como entender que um estado que formou tantas lideranças políticas nacionais tenha chegado ao ponto que chegou? 

Maria Izabel Noll - São dois problemas diferentes. Um estado pode construir lideranças importantes e, ao mesmo tempo, viver momentos de crise. O que provavelmente está sendo vivenciado pelos gaúchos é uma crise de auto-estima já que o Rio Grande do Sul tem sido visto como um estado politizado, participativo e celeiro de grandes lideranças como Getúlio Vargas, João Goulart ou Leonel Brizola, para citar apenas alguns mais evidentes. Muitas dessas construções passam a fazer parte de nossa cultura política, mas nem sempre correspondem à realidade dos dias presentes. Os povos tendem a construir e reverenciar seu passado como algo mítico, com heróis e passagens gloriosas. Os gaúchos puderam fazer isto porque tiveram um passado de guerras, de revoluções, decorrentes do fato de sermos uma fronteira – durante muito tempo a única fronteira viva do Brasil. Fomos brasileiros por opção. Poderíamos ter sido um país independente ou sermos parte da Argentina ou um território unido ao Uruguai. Mas somos brasileiros. Isso nos diferenciou bastante dos demais estados. Temos uma identidade regional muito marcada e constantemente reforçada. O que parece estar presente no momento, e que se verifica numa possível dificuldade de entender o que acontece, é que somos mais iguais aos nossos concidadãos do que pensávamos.

IHU On-Line - Como aparece a herança da cultura latina no jeito gaúcho de fazer política? Há ainda resquícios do castilhismo?  

Maria Izabel Noll - Esse é um traço ainda presente, mas que também sofre com algumas mudanças nas últimas conjunturas. O modo platino de fazer política na realidade corresponde a uma visão polarizada do campo político. Aquilo que nos argentinos tem sido identificado como a oposição entre peronistas e radicais ou no Uruguai entre blancos e colorados, e que no Rio Grande do Sul se traduzia entre republicanos (pica-paus) e federalistas (maragatos) e mais tarde entre PTB e anti-PTB. Tínhamos, até a eleição de Yeda Crusius, a presença eleitoral dessa oposição, configurada no enfrentamento entre PMDB X PT, mas houve uma certa diluição das forças políticas com o crescimento de alguns grupos, o que poderíamos chamar de terceira força (seja o PDT, o PTB ou o PP). Configurou-se mais claramente um sistema multipartidário, apesar de ainda permanecer um bloco centrado no PT, mais à esquerda, e outro orbitando junto ao PMDB, mais à direita. Quanto ao Castilhismo , podemos dizer que deixou marcas muito fortes na cultura política do estado. Elas estiveram muito presentes no ideário do antigo PTB de Getulio, Jango e Brizola , com a valorização da educação, do nacionalismo e da ideologia trabalhista. Deixou também uma cultura autoritária, de centralização política e ênfase no Executivo.

IHU On-Line – Quais são os valores que permanecem na cultura do povo gaúcho, de forma geral, mas principalmente no âmbito da política?

Maria Izabel Noll - Creio que um traço bastante permanente, apesar das crises, é a valorização dos partidos políticos. Mesmo com uma dose muito grande de críticas à conduta de alguns políticos, o partido como instituição ainda é valorizado. Nem políticos nem eleitores mudam radicalmente de posições políticas, quer dizer, os partidos, com todos os problemas decorrentes do jogo político, possuem conteúdo programático diferenciado e os eleitores se posicionam dentro do espectro político com relativa estabilidade. Aliás, essa é uma das características tradicionalmente apontada para o nosso sistema partidário: a estabilidade. Outro elemento que poderíamos lembrar é a participação. Votar é um ato de cidadania que está relacionado à presença de valores cívicos. Como já foi lembrado, a própria história do Rio Grande do Sul está muito construída em cima desta idéia de participação na vida política. Deu-se por meio de guerras e revoluções no passado e se dá pelo enfrentamento de forças políticas no momento atual.

IHU On-Line - Em que medida a estrutura política atual (representativa, partidos etc.) contribui para os problemas que temos acompanhado no governo gaúcho (desvio de verbas, corrupção, falta de ética)? Que alternativas podemos vislumbrar nesse sentido?

Maria Izabel Noll - Não me parece que o formato institucional tenha alguma dose de culpa na atual crise. Parece estar mais relacionado a formas de atuação de grupos dentro do aparelho do estado do que um defeito das instituições. Não apenas a burocratização, a terceirização de serviços (no bojo da reforma do estado e redução de seu escopo) e a baixa qualificação de quadros (decorrente dos baixos salários) são evidentemente mais culpadas pelos desvios constatados, como a maior transparência das atividades e respectivos gastos públicos, que hoje existe permite uma visualização mais clara dessas mazelas. A corrupção não ocorre apenas no Rio Grande do Sul ou no Brasil. Ela está presente em todas as sociedades modernas e desenvolvidas. O que não temos são mecanismos de controle efetivos e atuação da justiça para que os processos não se esgotem na denúncia e no espetáculo midiático. A presunção da impunidade é o elemento mais corrosivo em termos políticos.

IHU On-Line - Getúlio Vargas pode ser visto como um ícone da política gaúcha? Qual é a importância do varguismo para a formação política de nosso estado?

Maria Izabel Noll - Não resta a menor dúvida de que Getulio Vargas foi o maior político brasileiro do século XX. Sua atuação não se restringe ao Rio Grande do Sul, mas tem um significado mais amplo para o país como um todo. Sob sua condução se realizaram as maiores mudanças que o Brasil viveu. Deixou de ser um país agro-exportador, rural e oligárquico para ser uma nação industrializada, urbana, com condições de construir uma verdadeira sociedade democrática de massas. Sua importância para a formação política do estado pode ser medida pelo peso que até hoje as idéias ligadas ao trabalhismo, trabalhadores, inclusão social, modernização, importância do estado como condutor do desenvolvimento econômico e educação são receptivas à boa parte dos eleitores. 

IHU On-Line - Como a senhora avalia o eleitor gaúcho? Qual é o sentimento comum do povo gaúcho diante da crise política atual?

Maria Izabel Noll - O eleitor gaúcho tem um comportamento político bastante estável, pelo que têm demonstrado os estudos nesta área. Talvez estejamos vivendo um período em que a clara oposição entre dois campos – que tem caracterizado o jogo político ao longo do tempo – esteja sofrendo um processo de “re-acomodação”, mas o eleitorado tende a se polarizar, com uma estreita margem de centro que termina decidindo o processo eleitoral. As mudanças não são radicais e, com exceção do fenômeno Yeda nas últimas eleições, os partidos mais importantes são os criados com a reforma eleitoral do fim do regime militar. Conforme tem sido noticiado e veiculado pela mídia, o eleitor reage às denúncias de fraude e corrupção com um duplo sentimento. O primeiro é o natural, de crítica à classe política. O segundo refere-se mais à constatação de que a imagem construída sobre a superioridade política gaúcha estava assentada sobre um terreno pouco sólido. Dada a extensão da crise e o montante dos valores envolvidos, logicamente há uma frustração muito grande e a quebra de uma imagem sempre é algo traumático em termos coletivos.

IHU On-Line – Qual é o perfil dos partidos políticos no Rio Grande do Sul hoje? Como entender as coligações feitas? 

Maria Izabel Noll - O perfil dos partidos no Rio Grande do Sul mostra um sistema articulado, com bastante estabilidade, com uma migração pequena, principalmente em termos comparativos com outros estados. O número de partidos com representação efetiva, mesmo nos municípios, não excede quinze partidos, com um peso real dos chamados grandes partidos (PMDB, PT, PP, PDT, PTB). O PSDB, um grande partido nacional, nunca expandiu sua base no Rio Grande do Sul. O espaço ideológico deste partido já estava ocupado pelo PMDB, o que dificultou sua implantação. As coligações feitas nas últimas eleições reproduzem, com pouca variação, a oposição já apontada anteriormente. Inclusive, a prática das coligações só se efetivarem no segundo turno tem sido um elemento de fortalecimento e expansão de pequenos e médios partidos.

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