Edição 262 | 16 Junho 2008

“O lugar da fala machadiana é o do Outro, do discurso contra-hegemônico”

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André Dick e Graziela Wolfart

Eduardo de Assis Duarte considera a desconstrução de Machado de Assis irônica, indireta e de uma habilidade a toda prova

Para Eduardo de Assis Duarte, professor de Literatura da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Machado de Assis, aos 21 anos, em seus primeiros escritos, “se opunha ao ‘horror da instituição do cativeiro’, para ficarmos com suas palavras de 1860, muito antes da questão ganhar as ruas. E, ao longo de sua vasta obra, mantém-se firme nesta posição. Foi, portanto, um abolicionista. Não há uma linha sequer em que defenda os senhores ou o direito de propriedade sobre seres humanos. Por outro lado, nunca foi um homem da polêmica, do confronto”. Em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, Eduardo continua: “Machado guarda o devido distanciamento crítico frente aos problemas e personagens que retrata, olha as elites de baixo para cima, com total liberdade”. Ele organizou o volume Machado de Assis afro-descendente: escritos de caramujo (2 ed. rev. e ampl. Rio de Janeiro: Pallas; Belo Horizonte: Crisálida, 2007). É autor, além disso, de Jorge Amado: romance em tempo de utopia (2 ed. Rio de Janeiro: Record, 1996) e Literatura, política, identidades (Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2005).
Eduardo de Assis Duarte possui graduação em Letras pela UFMG, mestrado em Literatura Brasileira, pela PUC-Rio, e doutorado em Teoria da Literatura e Literatura Comparada, pela USP. Trabalha em especial com os seguintes temas: literatura e alteridade; literatura afro-brasileira, romance, história, sociedade, Machado de Assis e Jorge Amado. Também coordena o projeto integrado de pesquisa afrodescendências: raça/etnia na cultura brasileira, com a participação de pesquisadores de diversas Universidades do Brasil e do exterior. Dentre os produtos do projeto, destaca-se o site Literafro, disponível no endereço (www.letras.ufmg.br/literafro).

IHU On-Line - O que as crônicas escritas por Machado de Assis e assinadas por pseudônimo revelam de mais interessante sobre o autor? Como aparece, nesse sentido, o viés político do escritor?

Eduardo de Assis Duarte – Revelam, acima de tudo, o cidadão, o “homem de seu tempo e de seu país”, que já estava devidamente explicitado em forma de projeto estético (e ético) no artigo “Instinto de Nacionalidade”, publicado em 1873. Machado tem uma compreensão absolutamente moderna da imprensa enquanto mídia e vê na crônica a possibilidade de se dirigir a um público mais amplo. O viés político se explicita através do posicionamento crítico do autor a respeito dos problemas que o país atravessava naquele momento de difícil superação do modo de produção herdado da colônia, que misturava capitalismo, escravidão e resquícios feudais.

IHU On-Line - Qual o posicionamento de Machado de Assis em relação à escravidão? Como definir o ponto de vista social na vida e na obra de Machado?

Eduardo de Assis Duarte – Aos 21 anos, já em seus primeiros escritos, Machado se opunha ao “horror da instituição do cativeiro”, para ficarmos com suas palavras de 1860, muito antes da questão ganhar as ruas. E, ao longo de sua vasta obra, mantém-se firme nesta posição. Foi, portanto, um abolicionista. Não há uma linha sequer em que defenda os senhores ou o direito de propriedade sobre seres humanos. Por outro lado, nunca foi um homem da polêmica, do confronto. Temia as soluções de força, tinha sempre em mente a guerra civil norte-americana, e defendia uma saída não-traumática para o problema. Nessa linha, não há em sua obra nenhum líder quilombola, nenhum mártir da causa negra. Seu viés é outro, pois tinha consciência de que escrevia para a elite branca, daí optar por personagens brancos retratados a partir de um olhar irônico, pessimista e profundamente crítico.

IHU On-Line - A que o senhor se refere quando identifica o lado “caramujo” de Machado de Assis?

Eduardo de Assis Duarte – O próprio Machado se autodefine como “o mais encolhido dos caramujos”... E, de fato, seus textos apontam para um projeto estético que estou chamando de “poética da dissimulação”. O autor guarda o devido distanciamento crítico frente aos problemas e personagens que retrata, olha as elites de baixo para cima, com total liberdade. Mas sua desconstrução é irônica, indireta e de uma habilidade a toda prova. Muitas vezes, a insinuação toma o lugar da denúncia explícita, do repto, da acusação bombástica. Ao longo de todo o ano de 1880, por exemplo, ele consegue fazer o cadáver insepulto de Brás Cubas entrar semanalmente, capítulo por capítulo, nas casas dos leitores da Revista Brasileira e ainda ser aclamado por isto! Já nas crônicas, tal postura tem no pseudônimo o disfarce de autoria perfeito para explicitar mais suas posições e colocar os escravocratas contra a parede.

IHU On-Line - O senhor pode explicar sua teoria sobre as influências afrodescendentes na obra de Machado de Assis? Por que isso não aparece explicitamente?
Eduardo de Assis Duarte
– Não sei se o termo influência é o mais correto. Em primeiro lugar, no século XIX, o eurocentrismo imperava e as culturas africanas não eram consideradas como parte da civilização. Por outro lado, o escritor ocupava cargo de confiança no governo imperial e tinha plena consciência da censura existente à livre expressão. Viu intelectuais serem perseguidos por suas posições políticas. Além disso, Machado sofreu um processo de embranquecimento de sua imagem, que vai desde os muitos retoques nas fotos até sua europeização literária, que o coloca como mero discípulo de Sterne e outros, uma espécie de Eça de Queiroz dos trópicos. Esse processo tem ainda um lado perverso, calcado nas muitas acusações de omissão e indiferença frente aos problemas sociais de seu tempo, especialmente quanto à escravidão. O fato é que, no tocante às relações entre brancos e negros, Machado não pensa e não se posiciona como o branco racista de seu tempo: não adota nem o discurso cristão do bom senhor e do escravo contente, que tantas Mães Joanas e Pais Joãos nos legou; nem o discurso do Positivismo ou do cientificismo darwinista, que rebaixa negros e mestiços como “raça inferior” e sofre pesadas críticas em várias obras suas (basta ver o “filósofo” Quincas Borba, a Eugênia, de Memórias póstumas ou o Simão Bacamarte de “O Alienista”); nem adota em seus textos os estereótipos que rebaixam e aprisionam os afrodescendentes em imagens deturpadas e preconceituosas. O lugar da fala machadiana é o do Outro, do discurso contra-hegemônico, e sua ficção, sobretudo os romances, constrói a alegoria da decadência patriarcal e escravista.

IHU On-Line - A partir de seu livro Machado de Assis afro-descendente: escritos de caramujo, como identificar o posicionamento do escritor em relação aos negros nas suas obras e na sua linguagem sutilmente irônica e dissimulada?

Eduardo de Assis Duarte – Nas crônicas e poemas como “Sabina” e “13 de maio”, ou nos contos “Pai contra mãe”, “Mariana”, “O caso da vara” ou “Virginius”, a elevação dos afro-brasileiros a uma posição de dignidade e respeito é mais evidente. O mesmo ocorre em algumas cenas de Brás Cubas, Helena e outros. Diria que tais textos funcionam quase como exceções. A poética da dissimulação comanda a construção da maioria dos escritos, voltados para a carnavalização e desconstrução das elites brancas e de seus pontos de vista. E, nesse contexto, ganha destaque a recorrência do tema da morte do senhor, presente em vários romances como indicador da decadência do patriarcado escravista.

IHU On-Line - Quais são as diferenças entre o Machado das crônicas, dos contos, da poesia e dos grandes clássicos (Dom Casmurro, Memórias Póstumas de Brás Cubas e Quincas Borba)?

Eduardo de Assis Duarte – Creio que isto já mais ou menos respondido acima. A grande diferença para Machado estava no meio de comunicação. Na arena ideológica de seu tempo, utilizou-se bastante da imprensa como arma formadora de opinião. Mas tinha consciência da perenidade do produto jornalístico. Muitos dos textos escritos no calor da hora dos acontecimentos e publicados segundo o ritmo imposto às redações ficam de fora das coletâneas mais tarde editadas em livro. Basta dizer que, das centenas de contos veiculados em jornais ou revistas, só setenta e sete foram por ele editados em livro. Machado era dotado de um rigoroso critério de qualidade, a meu ver excessivo, e separava com muito zelo jornalismo de literatura.

IHU On-Line - O que faz de Machado de Assis um autor ainda contemporâneo?

Eduardo de Assis Duarte – O Brasil. Em grande medida, “ainda somos os mesmos”, para citar aqui a letra de “Como nossos pais”, do Belchior. Nenhum país vive impunemente mais de três séculos de escravidão. Hoje, ainda estamos sob o longo day after da abolição, um 14 de maio que se repete a cada dia. E, com isso, permanecem a corrupção, a desigualdade, a impunidade, a hipocrisia e tantos outros males herdados da colônia. Nossas elites se consideram acima da lei e a sucessão de escândalos, e sua diferenciada repercussão na mídia, é bom que se diga, prova a atualidade de Machado e a necessidade permanente de sua releitura.

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