Edição 262 | 16 Junho 2008

Uma coletânea inédita de Machado

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A obra de Machado de Assis é síntese e corolário do processo histórico evolutivo da literatura nacional e eixo de um equilíbrio dinâmico da própria língua literária brasileira, considera o professor Mauro Rosso

Mauro Rosso é pesquisador de literatura brasileira, além de ensaísta e escritor. A partir de uma pesquisa sobre os contos de Machado de Assis, organizou o livro Contos de Machado de Assis: relicários e raisonnés, ainda no prelo pelas Edições Loyola e que pretende ser uma edição histórica. Organizado em dois blocos, o livro traz, no primeiro deles, quatro contos inéditos do escritor, localizados e reunidos após uma exaustiva investigação. No segundo bloco do livro, um estudo histórico bibliográfico-editorial da produção contística machadiana. É sobre o seu envolvimento com a obra de Machado de Assis e o trabalho de investigação empreendido para reunião e catalogação dos contos do escritor, que ele nos fala na entrevista que segue, concedida por e-mail.

IHU On-Line - Como se deu seu envolvimento com a literatura de Machado de Assis?

Mauro Rosso - Obviamente pelos mesmos caminhos e pelas mesmas injunções de todo pesquisador e estudioso - diria até que de todo admirador - da literatura brasileira. Na atividade de professor de literatura brasileira e ensaísta, não houve como deixar de aprofundar-me cada vez mais e melhor na obra de Machado, síntese e corolário do processo histórico evolutivo da literatura nacional e eixo de um equilíbrio dinâmico da própria língua literária brasileira. Daí incrementou-se ao longo do tempo – e nisso refiro-me aos últimos 19 anos – o inevitável labor da pesquisa para as diversas nuances da obra machadiana. Em especial, intriga e seduz o fato de um escritor do século XIX, vivente numa sociedade imperial defasada em termos de progresso, escravocrata e de rígidos padrões sociais e morais, poder ter adquirido tamanha estatura universal – ser, em suma, o exemplo mais bem acabado, o emblema personalizado do conceito de “idéias fora do lugar” de Roberto Schwarz.

IHU On-Line - Suas atividades, de pesquisador, ensaísta e autor mostram um privilegiar do conto e da crônica machadianos. Por quê?

Mauro Rosso - Com relação aos contos, antes de tudo pela altíssima qualidade literária da narrativa curta machadiana, comparável aos grandes mestres do gênero de todas as épocas. Depois, porque estranhamente – melhor dizer, paradoxalmente – são colocados como que  “subalternos” aos romances, que concederam, e ainda concedem, a maior fama a Machado. Mas ele foi essencialmente um incomparável criador de contos, aos quais conferiu, no Brasil, status de gênero literário por excelência. O conto lhe consente a compenetração na psicologia - comportamental, social, moral etc. - da sociedade brasileira do século XIX, ao mesmo tempo em que a medida, o formato e as características próprias do conto permitiram uma forma de expressão bastante condizente com a verve ficcional machadiana (com as “tintas” da ironia, da sátira, do pastiche, da anedota) e sua adequação a relatos de relações amorosas, afetivas, familiares, sociais e até mesmo políticas e a retratos psicológicos e intimistas – que é o tom, tônus e timbre de toda a ficção machadiana. Os contos de Machado carecem não apenas de edições adequadas, mas também, e principalmente, de estudos condizentes com sua relevância literária, que inclusive forneçam uma visão completa de seu conjunto.

IHU On-Line - O escopo de sua pesquisa passa sempre pela diferenciação, haja vista as edições de crônicas referentes à economia e à política, e muito especialmente a edição que ora vem sendo preparada e cujo pilar é o conto inédito recuperado. Explique-nos o processo.

Mauro Rosso - Toda a obra de Machado é plena de peculiaridades e nuances, o que a faz diferenciada – e esse cunho de diferenciação, a rigor, há de ser observado pelo pesquisador, pelo estudioso, pelo ensaísta, por todo aquele que se proponha, enfim, a escrever sobre Machado. É o que procuro atender: sempre fazer da diferenciação o elemento norteador de meus projetos, quer de pesquisa, quer de publicação. Assim foi, por exemplo, para efeito da composição das crônicas sobre finanças e sobre política, fruto de uma pesquisa completa de todos, rigorosamente todos, os escritos machadianos em periódicos, da mesma forma com relação aos contos, buscando todas suas publicações ao longo do tempo, das originais às mais recentes. Isso propiciou o pleno resgate do conto dado como desaparecido, até então inédito, a descoberta por assim dizer de certas nuances na criação contística de Machado – como, por exemplo, contos que, publicados em anos e periódicos distintos, tiveram duas versões textuais, ou contos que receberam títulos diferentes em períodos e veículos distintos, mas conservando o mesmo texto – e, sobretudo, a reconstrução do histórico bibliográfico dos contos de Machado consubstanciado nas matrizes-raisonnés que integram essa edição. Aliás, vale informar que na organização da coletânea de crônicas versando sobre política também encontrei textos inéditos de Machado, e mais: a pesquisa efetuada nesse campo, deflagrada pela coleta e recolha das crônicas, induziu-me ao levantamento e organização de um conjunto a que intitulei “A ficção política de Machado de Assis”, abrigando contos, poemas e peças teatrais. A par de elementos de ineditismo e resgate, a edição ainda tem a particularidade de promover certas correções na própria bibliografia contística de Machado, excluindo, por exemplo, “O sermão do diabo” e “A cena do cemitério” do elenco de contos e apontando-os como crônicas que na verdade são, da mesma forma não considerando “Madalena”, quase sempre incluído no elenco contístico, por tratar-se a rigor de uma novela, e não conto, e tudo indicar ser uma tradução e não criação original de Machado – rigorosamente ao contrário de “Bagatela”, que abriga todos os indícios de criação machadiana, e não tradução, e assim por diante.

IHU On-Line - Há muito ainda a se conhecer acerca de Machado?

Mauro Rosso - Sim, muito a descobrir, revelar, pesquisar, estudar e publicar, em especial para desfazer equívocos e omissões na própria recepção da obra machadiana e uma enorme dificuldade de definir e classificar a produção de Machado dentro de chaves críticas existentes. Vem à mente, de imediato, o exemplo de Queda que as mulheres têm para os tolos, em seguida o propalado alheamento de Machado às questões de seu tempo, seu “aburguesamento” (sic), a ridícula “denegação das origens” conferida à sua obra, a ausência de um “herói negro” em sua ficção – como se isso fornecesse convincente e taxativo certificado de consciência política, como se fosse elemento imprescindível na construção de romances e contos de qualidade. Por outro lado, fértil é a galeria das surpresas-mistérios de Machado, não fosse ele o mestre desses expedientes. Outro aspecto absolutamente relevante reside em sua fantástica atualidade: avançadíssimo para seu próprio tempo, projetou-se absolutamente atual, por exemplo, antecipando temas da ficção hodierna, no aprofundamento psicológico, no questionamento da forma narrativa do romance, no cultivo ao ceticismo típico do denominado pós-modernismo, dotando muitos de seus contos de temas clamorosamente contemporâneos.

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