Edição 262 | 16 Junho 2008

Memórias póstumas e o diálogo entre teologia e literatura

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IHU Online

Alessandro Rodrigues Rocha é doutorando em Teologia Sistemática na PUC-Rio. Em seu mestrado, discutiu a formação do método teológico gerador de discursividades unívocas e propôs caminhos metodológicos abertos ao diálogo da teologia com expressividades humanas, sobretudo com a Literatura. No doutorado, pesquisa Teologia Fundamental, mais especificamente o tema da Revelação, buscando perceber o desvelamento do Real a partir da diversidade das recepções. Nesta entrevista, realizada por e-mail, que se inspira num curso de Teologia e Literatura oferecido pelos departamentos de Teologia e Letras da PUC-Rio, Alessandro fala sobre esse diálogo interdisciplinar a partir de Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis.

IHU On-Line – Quais são as razões para o diálogo entre teologia e literatura?

Alessandro Rodrigues Rocha - Pensar a teologia na dinâmica do diálogo com literatura é, ao mesmo tempo, uma oportunidade e um desafio. É uma oportunidade de ampliar o seu campo semântico, seu universo temático e suas estruturas epistemológicas. No interior dessa oportunidade, se encontra também um desafio: superar o autocentramento sobre o qual a teologia se encontra, fundado sobre os cânones da metafísica. Em função da realidade de seu objeto e da longa tradição univocizante que a teologia percorreu, foi gerado no sentimento de superioridade diante das demais formas de responder à realidade, que colocam a teologia, ao menos aos seus olhos, num lugar de exclusividade frente a outros possíveis discursos sobre questões últimas. Esse autocentramento exclusivista vive uma relação de retroalimentação com estruturas e discursos totalizantes que acabam por colocar a teologia numa dinâmica de fechamento e autoritarismo. Superar esse jogo perverso é fundamental para a teologia no processo de afirmação de sua relevância.

IHU On-Line - Como fazer uma crítica à metafísica, necessária à abertura dialogal da teologia?

Alessandro Rodrigues Rocha - A crítica à metafísica foi amplamente realizada ao longo da modernidade. Contudo, seu estado mais maduro se deu nas proposições de Nietzsche,  que denunciou de uma só vez a estrutura metafísica do discurso teológico e, também, do científico, mostrando que, ao invés de comunicar verdades ditas em continuidade com o real, a teologia e a ciência em geral proclamavam tão somente interpretações condicionadas a esquemas mentais e mediações culturais. Essa crítica nietzschiana à metafísica foi assumida posteriormente por outro filósofo que julgo ser um dos melhores interlocutores para a teologia na tarefa de rever criticamente seus pressupostos. Esse herdeiro do pensamento de Nietzsche, como também do de Heidegger , é Gianni Vattimo . Vattimo parte da tese da “morte de Deus” proclamada no aforismo 125 da A gaia ciência e, diz que exatamente ali está o princípio de pluri-fontização da expressividade da fé cristã. A “morte de Deus” proclama o desaparecimento do conceito de fundamento único da realidade; nesse sentido, realidade não é algo já desde sempre estabelecida, mas aquilo que acontece no devir. A “morte de Deus” é, portanto, a vivificação do discurso possível que se realiza no interior de uma história fragmentada. É a libertação da condição metafórica do discurso teológico que se fundamenta não mais em estruturas “fortes” e unívocas, mas numa dinâmica discursiva plural que se dá a partir do “pensamento fraco”.

IHU On-Line - O que é “pensamento fraco” e que relação ele tem com o diálogo entre teologia e literatura?

Alessandro Rodrigues Rocha - “Pensamento fraco” significa não tanto, ou não essencialmente, uma idéia do pensamento mais consciente dos seus limites, que abandona as pretensões das grandes visões metafísicas e globalizantes, mas, sobretudo, uma teoria do enfraquecimento como traço constitutivo do ser na época do fim da metafísica. O pensamento fraco, portanto, conduz o discurso sobre a realidade, de uma fala unívoca que, fundada sobre a metafísica, pode reclamar extensão e profundidade universais, para uma forma fraca de “experimentar” a realidade, onde história e cultura situam todo discurso, impedindo-o de qualquer pretensão de falar para além do próprio horizonte. Há, portanto, um deslocamento de uma matriz metafísica geradora de um pensamento forte, a uma matriz hermenêutica geradora do pensamento fraco. Esse deslocamento possibilita ao discurso teológico perceber a existência de novos “lugares” de sentido, que juntamente com os “lugares” clássicos (Escrituras, Tradições e Magistérios) podem oferecer à teologia novos horizontes discursivos. Dentre esses novos “lugares”, a literatura é, sem dúvida, um dos mais férteis e promissores. Nesse sentido, o diálogo entre teologia e literatura é, em toda a sua extensão, eminentemente teológico, ou seja, a literatura não é para a teologia somente um celeiro temas e personagens, mas a própria expressão do desvelamento do Real presente em toda expressividade humana.

IHU On-Line - Vamos falar da aplicação desse exercício teórico sobre o diálogo da teologia com a literatura. Por que Machado de Assis e por que o tema da escatologia?

Alessandro Rodrigues Rocha - A razão para a escolha de Machado de Assis é notória. Além da grandeza como escritor, sua compreensão da mentalidade de seu tempo lhe possibilitou retratar em suas obras os aspectos mais profundos da condição humana. E é exatamente aí onde pode ser percebido de forma mais clara o desvelamento do Real. Já o tema da escatologia não foi propriamente escolhido, antes, ele se impôs em função do romance de Machado que escolhi. Em Memórias póstumas de Brás Cubas, o horizonte teoliterário é escatológico. Escatologia aqui precisa, porém, ser compreendida em sua intuição mais importante: ela é capítulo da teologia que trata da vida plenificada. O escatológico é, portanto, a afirmação da plena vitalidade humana. Essa compreensão, no entanto, aparece em discursos teológicos mais cristalizados, de maneira bastante divergente à forma apresentada no drama de Brás Cubas. Enquanto para a teologia dos manuais e das sacristias a plenificação da vida há de se realizar tão somente no porvir, para Brás Cubas (que já se encontra em tal instância etérea), tal plenificação só tem um lugar: nosso mundo e suas delícias. A sede de vitalidade dessa personagem machadiana o faz buscar o caminho da morte à vida como qualquer outro devoto cristão, só que ele o faz de modo inverso: enquanto uns querem ir do mundo ao céu, Brás Cubas deseja vir do céu aos braços macios do mundo, do mundo de Marcela e de Virgília. 

IHU On-Line - Qual exemplo você poderia dar dessas duas representações da escatologia?

Alessandro Rodrigues Rocha - Para ilustrar o que estou dizendo vou fazer um paralelo entre trechos do uma canção presente num cancioneiro clássico do cristianismo protestante, com passagens de Memórias póstumas:

...Da linda pátria estou mui longe,
Triste eu estou;...
...afigurou-se-me que era o último som que chegava a meus ouvidos...
...Meu coração está com pressa,
Eu quero ao céu voar...
...Viver somente, não te peço mais nada...
Não quero aqui ficar!
Eu quero ao céu voar.
Eu quero ir;
Eu quero ao céu subir.
...encarei-a com olhos súplices, e pedi por alguns anos.
Viver somente, não te peço mais nada...
   

O lugar de realização escatológica da canção litúrgica e do romance machadiano retrata com clareza horizontes socioculturais distintos, afirmando, porém, um mesmo desejo de fundo: a afirmação da vida. Essa vitalidade é o teológico comum aos mais diversos “lugares” de sentido onde a teologia pode fazer-se enquanto discurso. Esse propriamente teológico presente nas mais variadas e diferentes representações discursivas é que de fato possibilita o diálogo entre a teologia e a literatura, porque ambas captam aspectos do Real e o representam a partir de seus distintos traços culturais.

IHU On-Line - Há, portanto, algo teológico no desejo de vitalidade de Brás Cubas? Qual seria ele?

Alessandro Rodrigues Rocha - Claro que sim! Mas não seria ele, seria ela, ou melhor, elas: Marcela e Virgília. Pensando a narrativa de Brás Cubas na perspectiva de uma escatologia secularizada, onde o mundo é lugar de plenitude de vida, fica evidente como a arte (nesse caso literária) lida com temas últimos, numa abordagem não dogmática, e, portanto, aberta aos apelos da cultura e da história. O sagrado – e a teologia (mesmo aquela marcada pelo dogmatismo) também crê nisso – é a vida. O último, o incondicional, é a vida realizada. Se no limite da existência ou no extrapolamento desta rumo a uma essencialidade pretendida, é um problema para dimensão metodológica da teologia. O que podemos dizer, partindo da abordagem vatimaniana que assumimos, é que a narrativa de Brás Cubas assume uma dimensão teológica à medida que propõe como fio condutor de seu enredo um tema de interesse último e incondicional. Brás Cubas anseia ver um “novo céu e uma nova terra”, porém ele deseja isso olhando do fim para o começo. O “novo céu e a nova terra” constituem a nova possibilidade de sorver uma gota a mais da vida perdida. Esse desejo de vitalidade é escatológico. Enfim, a jornada escatológica de Brás Cubas chega ao seu ponto ômega. Como toda jornada, a dele também foi marcada por sucessos e fracassos. Longe de ser um herói de páginas sagradas, ele viveu fiel ao seu coração. Um coração lascivo que via na vida o único caminho de plenitude. Certamente, não há tantos feitos para contar acerca desse cultivador da vitalidade, porém um será continuamente lembrado. Diante da “impassibilidade egoísta” da “Natureza” ele teve coragem de suplicar: “Viver somente, não te peço mais nada”.

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