Edição 262 | 16 Junho 2008

Em busca de rastros de natureza religiosa e teológica na obra de Machado de Assis

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Paulo César Silva de Oliveira

Ao relacionar teologia e literatura em Machado de Assis, Douglas Rodrigues da Conceição destaca a autocompreensão antropológica que a literatura machadiana é capaz de criar

“Se a imagem de Deus emergida da estética machadiana deixa de ser o centro de toda experiência última é porque as fissuras abertas pelas ambigüidades da vida e pelo nosso senso de finitude mais profundo e mais radical permanecem.” A reflexão é do professor Douglas Rodrigues da Conceição, que completa: “talvez a experiência religiosa e incondicional vivida pelo ser humano da estética machadiana (não a experiência de Bentinho, mas a de Brás Cubas) nos sirva de espelho! E por que não?”. Douglas Rodrigues da Conceição é doutor em Ciências da Religião, pela Universidade Metodista de São Paulo, onde também realizou o mestrado em Ciências da Religião. Atualmente, é professor da Universidade do Estado do Pará (UEPA), no Departamento de Filosofia e Ciências Sociais, que está vinculado ao Centro de Ciências Sociais e Educação. Durante o mestrado e o doutorado, desenvolveu pesquisas no campo da interface Religião versus Filosofia e Literatura versus Teologia. Em 2004, publicou Fuga da promessa e nostalgia do divino: a antropologia de Dom Casmurro de Machado de Assis como tema no diálogo entre teologia e literatura (Rio de Janeiro: Horizonal, 2004), obra voltada para a questão de Deus no romance Dom Casmurro de Machado de Assis. A entrevista que segue foi concedida a Paulo César Silva de Oliveira (doutor em Poética pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e professor de Teoria Literária da Universidade Iguaçu/RJ), com quem Douglas Rodrigues da Conceição dialoga sobre questões de teologia e literatura tendo como cenário a obra machadiana.

IHU On-Line - Por conta da comemoração dos cem anos da morte de Machado de Assis, qual é o legado machadiano? O senhor recebeu este legado e o reinterpretou, incorporando à fortuna crítica machadiana uma novidade interpretativa que distende o espólio do bruxo. Qual o sentido desta herança e seus efeitos sobre a posteridade? De que modo a relação defendida pelo senhor entre teologia e literatura contribui para a criação de um novo campo de estudos acerca da obra de Machado de Assis?

Douglas Rodrigues da Conceição - Quando me aproximei da literatura machadiana, momento em que minhas pesquisas se encontravam em estágio embrionário, fazia muitas visitas à biblioteca da Academia Brasileira de Letras, com o objetivo de rastrear obras referenciais que me permitissem encontrar rastros de questões de natureza teológica e religiosa a partir da obra de Machado de Assis. Em relação a essa busca inicial, a principal dificuldade que eu encontrava, naquele momento, se enraizava nas interpretações quase que “canônicas”, que, por um lado, cristalizavam os temas mais visíveis emergidos da literatura de Machado de Assis e, por outro, impediam a criação de novas escavações em torno do legado do bruxo. Não quero dizer com isso que, depois de pouco mais de um século de esforço crítico sobre o legado machadiano, o problema da religião não estivesse ainda sido levantado. Mesmo fazendo críticas a Hugo Bressane Araújo, a Afrânio Coutinho  e a Raimundo Faoro, é preciso reconhecer que, se não fossem pelas mãos desses intérpretes, penso eu, a questão da religião e suas implicações teológicas teriam sido praticamente silenciadas do legado crítico machadiano.

Então eu precisava, antes de tudo, dialogar com essa tradição e encontrar os problemas nas interpretações teológicas realizadas por essa mesma tradição. Optei por fazer referência apenas ao trabalho de Hugo Bressane Araújo, visto que seu livro, intitulado O aspecto religioso da obra de Machado de Assis (Rio de Janeiro: Cruzada da Boa Imprensa, 1939) se concentrava num biografismo do autor de Dom Casmurro. Portanto, não me interessava saber se Machado de Assis se circunscrevia ou não de modo devocional ao catolicismo do século XIX. Eu rejeito o trabalho de Hugo Bressane Araújo porque tenho a convicção, se me for permitida, de que os aspectos religiosos e as questões teológicas que podem emergir de um texto literário devem, antes, responder a uma questão que me era e é muito cara: o que é que só a literatura e nenhuma teologia conceitual será capaz de dizer e expressar eficazmente? Depois das minhas digressões iniciais, talvez essa “pergunta-proposição” de Jean-Pierre Jossuá  consiga fazer com que eu responda parcialmente sua bem elaborada pergunta. Faço uma advertência: o que convencionalmente chamamos de diálogo entre teologia e literatura nem sempre – ressalto – se dá de modo pacífico. De um lado, porque os defensores da literatura comumente a consideram profana demais para tratar de temas religiosos e questões teológicas. Por outro lado, os que se ocupam com a reflexão teológica ainda se perguntam por que a literatura se abre como um campo de exploração do trabalho teológico e por que ela e não os antigos sistemas teológicos rígidos.

Mais espaço ao legado machadiano

Acredito que a força da literatura machadiana, ao permitir reflexões dessa natureza, pede mais espaço ao seu legado crítico. Não é por acaso que Alfredo Bosi  afirma, ao pé de uma das páginas de O enigma do olhar (São Paulo: Ática. 1999), que “ainda está por se fazer um estudo sem preconceitos das imagens diversas com que o agnóstico Machado de Assis representa as múltiplas faces do homem religioso”. Interessante notar que quando publiquei Fuga da promessa e nostalgia do divino, fruto de minha dissertação de mestrado, ainda não havia tido contato com essa obra de Alfredo Bosi. Interessante notar mais uma vez – longe de me pôr à altura de Alfredo Bosi – que tanto ele quanto eu tivemos uma mesma preocupação: tocados pelas implicações religiosas, demos centralidade a uma espécie de auto-compreensão antropológica que a literatura machadiana é capaz de criar. Se, porventura, a sua pergunta central parte dos possíveis incômodos que o tema da religião traz ao legado “canônico” machadiano, diria aos mais incomodados que o espaço que a literatura ocupa e sempre ocupará não é o espaço da norma, do consenso, do modo comportado de ser, mas sim o espaço da transgressão e da subversão, mesmo que estas últimas sejam vistas sob o viés da religião.

IHU On-Line – Qual é a importância para sua trajetória intelectual do diálogo com alguns pensadores da religião? O senhor reconhece sua dívida para com o pensamento de Paul Tillich, mas afirma que Machado, de certa forma, supera a dívida de Tillich com a “matriz soteriológica construída pela tradição cristã”. O senhor poderia aprofundar esse tema?

Douglas Rodrigues da Conceição - Reconheço ter muitas dívidas para com Paul Tillich . A mais cara tem a ver com a noção que Paul Tillich imprime sobre o conceito de Incondicional. Para Tillich, a resposta à pergunta que se abre e que está implícita na finitude do ser humano encontra em Deus seu ponto final. Uma outra questão tem relação com o monopólio criado pela teologia sobre os símbolos mais profundos que os seres humanos são capazes de admitir. Por exemplo, o simbolismo da vida eterna, segundo Tillich, é extraído da estrutura categorial que compõe a finitude. Deve ficar claro que o sentido evocado pelo simbolismo da vida eterna está circunscrito ao domínio da teologia cristã. Se o trabalho de instrumentalização dos textos literários servir apenas para o enquadramento das noções de homem, de Deus e de salvação aos discursos teológicos da tradição cristã, por exemplo, então meu esforço e o de tantos outros seria inútil. A tarefa hermenêutica a qual submeti o texto machadiano me faz apresentar a seguinte questão: qual é a função da literatura machadiana ao exercer o mesmo esforço que é imposto pela teologia e também pela filosofia quando problematizam as mesmas questões (questões como a finitude, por exemplo) e quando apresentam as respostas exigidas pelos dilemas humanos que são travados em sua dimensão propriamente estética? Para mim, literatura e teologia são formas autônomas de decodificação dos símbolos universais de onde emergem os aspectos essenciais da vida do ser humano. O modo que cada uma tem para desenvolver o seu próprio trabalho de decodificação pode fazer com que elas se “co-respondam”, se distanciem, se aproximem ou se superem. Portanto, quando a estética machadiana aponta uma outra forma de problematizar a questão da finitude, por exemplo, não vejo um motivo para mantê-la nos domínios da matriz soteriológica construída pela tradição cristã. Por que a experiência de Cubas com o amor, com suas amantes (belas amantes) e com a própria vida tem que ser necessariamente uma experiência que salva? Essa experiência tem uma expressão religiosa porque é incondicional e não porque obedece a uma matriz teológica definida. É neste ponto que me permiti divergir de Paul Tillich. Apesar de ser um importante teólogo da cultura (talvez o mais importante), Tillich nunca se despiu totalmente da função de teólogo e por isso ainda se manteve preso à noção de Deus como resposta para as ambigüidades da vida. Se a imagem de Deus emergida da estética machadiana deixa de ser o centro de toda experiência última é porque as fissuras abertas pelas ambigüidades da vida e pelo nosso senso de finitude mais profundo e mais radical permanecem. Eis a porta para um salto em direção a um abismo que em profundidade pode ultrapassar aquilo que outrora chamamos de Deus. Talvez a experiência religiosa e incondicional (assim a chamo) vivida pelo ser humano da estética machadiana (não a experiência de Bentinho, mas a de Brás Cubas) nos sirva de espelho! E por que não?

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