Edição 262 | 16 Junho 2008

O ceticismo como filosofia dos personagens de Machado

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Graziela Wolfart

José Raimundo Maia Neto destaca a importância do personagem observador para mostrar que nas obras de Machado de Assis a reflexão é mais importante do que a ação

Ao falar sobre o ceticismo e o cientificismo em Machado de Assis, o professor José Raimundo Maia Neto considera que é na obra Memórias póstumas de Brás Cubas que o escritor melhor apresenta suas reservas quanto ao entusiasmo da elite intelectual brasileira sobre o positivismo, o naturalismo e o evolucionismo do fim do século XIX. “Machado se distancia deste entusiasmo ao adotar uma perspectiva mais alargada da história humana, onde uma sucessão e contraposição de doutrinas mostram a vaidade e a precipitação dos que têm a pretensão de acharem que a humanidade finalmente encontrou a verdade e com ela poderá resolver todos os seus problemas”. Jose Raimundo Maia Neto possui graduação em Ciências Sociais, pela Universidade Federal Fluminense, mestrado em Filosofia, pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, e doutorado em Filosofia, pela Washington University in Saint Louis. Atualmente, é professor da Universidade Federal de Minas Gerais e atua na área de História da Filosofia Moderna, desenvolvendo pesquisas sobre as correntes céticas do século XVII. A entrevista que segue foi concedida por e-mail para a IHU On-Line.

IHU On-Line - O que o senhor destacaria de mais interessante na obra de Machado de Assis, sob o ponto de vista de um observador, relembrando sua dissertação de mestrado?

José Raimundo Maia Neto - Como se sabe, a grande obra de Machado começa com Memórias póstumas de Brás Cubas. Para marcar este salto qualitativo, costuma-se dividir a obra de Machado em duas fases: antes e depois desse livro. Pois bem, uma das principais novidades que surgem na ficção de Machado a partir de Memórias póstumas é a caracterização de um personagem observador. Este observador passa a ser o personagem central de quase todos os romances da segunda fase. Isto significa que o foco do romance já não incide sobre a trama em si, mas sobre um determinado olhar distanciado sobre a trama. A reflexão passa a ser mais importante do que a ação.

IHU On-Line - Como o ceticismo e a questão da crença aparecem na obra de Machado? Esses elementos estão ligados, por exemplo, ao pessimismo de algumas de suas narrativas e a uma certa melancolia ligada ao cientificismo? Qual a especificidade de Machado, nesse sentido, se comparado a outros clássicos da literatura brasileira?

José Raimundo Maia Neto - O ceticismo é a filosofia deste observador que surge na segunda fase dos romances de Machado. Ele problematiza o acesso à verdade a partir de uma reflexão sobre a teia das relações sociais, que encobrem a subjetividade dos atores. A questão da crença recebe um tratamento bastante sofisticado em Dom Casmurro. Ela é apresentada como inteiramente precária, sem fundamento na verdade das coisas, mas ao mesmo tempo como inevitável e determinante na vida das pessoas. Quanto ao cientificismo, é, sobretudo, em Memórias póstumas que Machado apresenta suas reservas quanto ao entusiasmo da elite intelectual brasileira sobre o positivismo, o naturalismo e o evolucionismo do fim do século XIX. O que dizia acima sobre a importância do observador vale aqui também. Machado se distancia deste entusiasmo ao adotar uma perspectiva mais alargada da história humana, onde uma sucessão e contraposição de doutrinas mostram a vaidade e a precipitação dos que têm a pretensão de acharem que a humanidade finalmente encontrou a verdade e com ela poderá resolver todos os seus problemas. Neste ponto, podemos falar do pessimismo de Machado, que é evidente, sobretudo, em Memórias póstumas, escritas pelo defunto-autor com a pena da galhofa e a tinta da melancolia.

IHU On-Line - Como o diálogo entre Machado e a tradição cética aparece em suas obras de ficção?

José Raimundo Maia Neto - A tradição cética começa na Antigüidade, mas é mais influente durante o Renascimento e o século XVII, sobretudo na França. É com esta corrente cética francesa que Machado dialoga. Dois filósofos franceses são cruciais: Pascal  e Montaigne . Machado dialoga primeiro com Pascal. Com efeito, é notável a influência de Pascal em Memórias póstumas. A visão do homem miserável de Pascal se faz fortemente presente nesse livro, mas sem a alternativa da fé. Este pascalianismo somente parcial é insatisfatório. Machado busca então no diálogo com Montaigne um ceticismo mais humanista, sem a nostalgia perturbadora de uma verdade absoluta, que aparece em Dom Casmurro, Esaú e Jacó e no Memorial de Aires.

IHU On-Line - Pode explicar por que o senhor coloca o ceticismo como o fundamento da obra machadiana?

José Raimundo Maia Neto - Não se trata de um ceticismo importado de Pascal ou Montaigne. Machado não é filósofo. O ceticismo é o fundamento porque está ancorado na estrutura formal do romance da segunda fase. É a perspectiva do observador que surge a partir de Memórias Póstumas e se torna o foco narrativo do romance. Como observador situado, sua perspectiva é necessariamente restrita, sem qualquer onisciência.

IHU On-Line - Esse ceticismo estaria ligado, por exemplo, com o humanitismo, apresentado pelo mendigo-filósofo Quincas Borba, em Memórias póstumas de Brás Cubas?

José Raimundo Maia Neto - Um erro que se costuma cometer é identificar a doutrina do humanitismo com a filosofia de Machado. O humanitismo é o objeto de crítica e refutação nos dois romances em que aparece. As Memórias póstumas de Brás Cubas são uma refutação cabal do otimismo do humanitismo. Cada episódio da vida do Brás refuta a doutrina do Quincas. O humanitismo é uma caricatura das filosofias da história supostamente científicas que encantavam a elite intelectual da época de Machado. A caricatura realça justamente os traços dogmáticos destas filosofias: pretensão descabida de ter encontrado a verdade, desconsideração do mal na vida humana etc. Os céticos sempre apontaram estes aspectos nas filosofias dogmáticas que refutavam. O romance Quincas Borba é também uma demonstração da loucura da filosofia dogmática, dramaticamente vivenciada pelo protagonista do romance e discípulo do filósofo dogmático Quincas Borba.

IHU On-Line - O ceticismo ajuda a explicar o sucesso de Machado de Assis? O que essa característica (ceticismo) revela sobre a visão de mundo, sociopolítica, literária, filosófica etc. de Machado de Assis?

José Raimundo Maia Neto - O ceticismo contribuiu para que Machado tenha sido reconhecido com o grande escritor que foi. O pensamento brasileiro até recentemente foi muito marcado pela influência de filosofias dogmáticas. Machado é, assim, uma exceção neste padrão, e uma exceção de altíssimo nível em função do seu talento excepcional como escritor. Mas muitos reconhecem o valor de Machado apesar do seu ceticismo, que é visto como mero pessimismo, negação da vida. Acho que este juízo negativo decorre em parte do desconhecimento da tradição filosófica cética, que foi um dos movimentos intelectuais que impulsionaram o pensamento ocidental.

IHU On-Line - O senhor pode falar um pouco sobre a história do ceticismo, no sentido de situarmos o interesse de Machado de Assis por essa escola de pensamento?

José Raimundo Maia Neto - O ceticismo surgiu no chamado período do helenismo, que vai da morte de Aristóteles até o século II depois de Cristo. A escola ressurge no renascimento e tem um papel importante no desenvolvimento da filosofia moderna. Neste período moderno, ele se associa a uma visão da precariedade do ser humano, alimentada pela visão cristã que todo ser e verdade estão em um Deus transcendente. Na visão pascaliana, o homem é miserável neste mundo de lágrimas e pouco pode fazer para reverter a situação exceto levar uma vida pia na esperança de receber a graça salvadora. Na visão montaigneana, a tarefa do ser humano é se adaptar a este contexto limitado, abandonando a expectativa de poder possuir a verdade e o bem, e se contentando com sua finitude. É esta visão que termina por preponderar nos romances de Machado de Assis. 

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