Edição 261 | 09 Junho 2008

Cirne-Lima, um filósofo com grande respeito pelas ciências

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Patricia Fachin e Moisés Sbardelotto

Segundo Brito, a grande honestidade de Cirne-Lima para ver os problemas e poder se adaptar às novas alternativas é um excelente exemplo para seus alunos

Discutir o pensamento de Cirne-Lima só é relevante porque houve um pensamento de Cirne-Lima. Essa é a opinião de Adriano Naves de Brito, coordenador do PPG em Filosofia da Unisinos, em entrevista concedida pessoalmente à IHU On-Line na semana em que ocorreu o Colóquio Depois de Hegel. Para Brito, isso é muito raro no Brasil, já que a Filosofia brasileira não valoriza o fato de tomar posições. “A Filosofia brasileira alcançou um patamar de qualidade, em que nós estamos passando da hora de ter os nossos próprios temas. Então, um colóquio dedicado ao pensamento de um filósofo vivo, brasileiro, entre nós, filosofando em português, contribui imensamente para o debate filosófico brasileiro, porque justamente dá a esse debate uma dimensão além da história da Filosofia”, explica. E, segundo ele, é um sinal muito importante para a Filosofia do Brasil. “E é um exemplo fantástico”, define.

Adriano Naves Brito é graduado em Pedagogia, pela Universidade Católica de Goiás (UCG), mestre em Filosofia, pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), doutor em Filosofia, pela Universität Bielefeld, Alemanha, e pós-doutor em Filosofia, pela Universität Tübingen.

IHU On-Line – Qual é a relevância de discutir o pensamento de Cirne-Lima?
Adriano Naves de Brito
– Começamos pelo fato de haver um pensamento de Cirne-Lima. E é isso que torna relevante a discussão da sua obra, porque ele realmente se esforçou para estabelecer uma posição no campo da Filosofia e enfiar a bandeira em um território que seria o do seu próprio pensamento. Isso, por si só, mostra sua relevância, porque a Filosofia vive de discussão de posições próprias. Claro, é preciso fazer o trabalho de história da Filosofia, que ajuda a que possamos entrar no debate, mas a Filosofia realmente se alimenta de posições próprias. Em alguém como Cirne-Lima, então, que tem uma posição, ela deve ser discutida.

IHU On-Line - Em que medida o Colóquio Depois de Hegel contribui para o debate filosófico brasileiro?
Adriano Naves de Brito
– Retomando a primeira pergunta, Cirne-Lima tem uma posição, um pensamento, e por isso merece ser discutido. Ora, isso talvez seja ainda raro no Brasil. A filosofia brasileira não valoriza o fato de se tomar posições. Nós temos uma tradição muito centrada na história da Filosofia. Acredito que a filosofia brasileira alcançou um patamar de qualidade, em que estamos passando da hora de ter os nossos próprios temas. Então, um colóquio dedicado ao pensamento de um filósofo vivo, brasileiro, entre nós, filosofando em português, contribui imensamente para o debate filosófico do país, porque justamente dá a ele uma dimensão além da história da Filosofia. Ou seja, oferece uma dimensão essencialmente filosófica: estamos discutindo temas de Filosofia a partir das nossas próprias posições, o que é muito importante para a filosofia brasileira, além de ser um exemplo fantástico.

IHU On-Line - Como o senhor vê a última produção de Cirne-Lima, Depois de Hegel? Em que medida sua obra apresenta um viés próprio e o desenvolvimento de percepções filosóficas hegelianas não ortodoxas?
Adriano Naves de Brito
– Acho que essa obra é realmente o coroamento de um pensamento que avança já há duas décadas e meia, embora remonte à história intelectual de Cirne-Lima. E ele conseguiu um resultado muito bom em termos de síntese e clareza do que quer dizer. Seu pensamento está definitivamente fora da ortodoxia hegeliana. Poderíamos dizer até mais: ele está, como o título diz, para além de Hegel. Ele estudou Hegel e agora está tentando uma posição na tradição neoplatônica. Ele apresenta a sua posição nessa tradição e tenta dialogar, costurar e estabelecer uma ponte entre duas tradições. E a minha impressão, hoje, é de que Cirne-Lima está no meio dessa ponte. Ele estabeleceu uma ponte, mas seria difícil, por várias posições que defende, classificá-lo, por exemplo, só na escola neoplatônica ou no que é chamado de escola neo-aristotélica. Ele apresenta um viés próprio e, ao estabelecer esse diálogo, pega elementos dos dois lados. E é com essa mistura que cria o seu viés próprio.

IHU On-Line - Entre tantas contribuições para o PPG em Filosofia da Unisinos, que considerações o senhor faz da participação de Cirne-Lima enquanto educador e filósofo na universidade?
Adriano Naves de Brito
– Começo pelo educador, porque acredito que seja a figura que Cirne-Lima encarna hoje. Além disso, ele é um exemplo fazendo o que ele faz, tendo uma grande honestidade intelectual, refletida nas posições filosóficas que adota. Porque se algo não tem alternativa, eu posso, mesmo na contramão daquilo que venho estudando há muito tempo, procurar alternativas em outros campos. Então, Cirne-Lima possui uma grande honestidade para ver os problemas e poder se adaptar às novas alternativas. Além disso, por estar muito interessado em questões e temas filosóficos, o modo como ele leva a Filosofia para os alunos é vivo, interessado. Cirne-Lima é capaz de despertar a paixão filosófica porque sempre se está discutindo boa filosofia com ele. Eu acho que ele desempenhou esse papel nas instituições em que deu aula, e também na Unisinos, e continua a desempenhar.

O outro aspecto é o pessoal, ou seja, o Cirne-Lima como pessoa. Ele é nosso pesquisador mais sênior no PPG em Filosofia. Então, é uma figura que orienta muito, nos ajuda a enxergar e a fazer discernimentos, embora não o faça querendo exercer alguma liderança. Cirne-Lima, já há algum tempo, disse: “O meu trabalho é como professor, e eu dou a minha colaboração”. Mas ele pertence àquele grupo de conselheiros que podem ajudar a avançar. De qualquer modo, tem consciência de que não lhe cabe mais fazer esse processo. Então, seu papel é muito enriquecedor para nós. Com o título de professor emérito agora, ele decidiu se aposentar, então se afasta da universidade, mas como professor ordinário. E a concessão do título, para nós, facilita muito a continuidade da contribuição com a universidade. Ele pode fazê-la sem nenhum ônus, apenas com as vantagens da sua atividade, pois chegou a um ponto em que a universidade não tem nada mais a lhe oferecer. Esta, no entanto, tem muito ainda a receber dele. E Cirne-Lima pode fazer isso, então, em uma posição de tranqüilidade, que é a de um colaborador, não mais no sistema ordinário de docência. E é isso que esperamos que continue a fazer.

IHU On-Line - O debate filosófico sempre esteve presente na centralidade da vida de Cirne-Lima. Entretanto, ele sempre manifestou preocupação em relacionar a Filosofia com as demais ciências, a fim de expandir os debates contemporâneos e encontrar respostas para as variadas questões. Como o senhor percebe essa capacidade de estabelecer um debate interdisciplinar?
Adriano Naves de Brito
– É um outro aspecto muito importante do pensamento de Cirne-Lima é o fato de ele ter um grande respeito pelas ciências. Talvez muitos filósofos – e quem sabe a maioria – não tenham respeito pelas ciências. Mas eu valorizo muito tal aspecto, porque tenho muito respeito pelas ciências, e me agrada muito esse traço em Cirne-Lima. Nesse ponto, ele também foi um bom orientador. Cirne-Lima acredita que a Filosofia não substitui as ciências; no entanto, ela pode ser complementada por aquelas. Então, existe, aqui, um processo de complementação dos dois lados. Cirne-Lima está sempre muito atento ao que está se passando na ciência em nosso tempo. Pode-se conversar com ele e saber que está acompanhando a discussão sobre a atual Biologia, por exemplo. Portanto, Cirne-Lima não tem um respeito protocolar pelas ciências, mas, sim, um respeito realmente de interesse, que o leva a estudá-las. Eu acredito que isso seja muito bom. Faz com que ele possa, a partir da posição também de filósofo, localizar os debates em torno dos quais se pode fazer a discussão interdisciplinar, com suas costuras. E, portanto, aponta, nessa questão, algo a que a Filosofia pode se prestar: facilitar e mediar a discussão entre as diferentes disciplinas em torno de problemas, incluindo a si mesma. Definitivamente, não é fácil fazer debate interdisciplinar. Não é uma questão só de “tenho agora vontade”, “estou aberto” ou “vou fazer”. Não, é preciso ter conhecimento para isso. E acho que essa disposição o levou a fazer experiências importantes, nas quais ele aprendeu muitas coisas. Agora ele nos ensina muitas outras, sobre a possibilidade de fazer o debate e o diálogo interdisciplinares, relacionando, por exemplo, diferentes teorias.

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