Edição 259 | 26 Maio 2008

Invenção - Tarso de Melo

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André Dick

Editoria de Poesia

Nascido em Santo André (SP), em 1976, o poeta Tarso de Melo, que realiza doutorado em Direito, pela Universidade de São Paulo (USP), vem publicando poesia seguidamente há mais de uma década. É autor de Odisseu sandeu (1996) - publicado em edição independente -, Mimos mínimos (Santo André: Alpharrabio Edições, 1997), além de A lapso (Santo André: Alpharrabio Edições, 1999), Carbono (São Paulo: Nankin, 2002; Santo André: Alpharrabio Edições), Planos de fuga e outros poemas (São Paulo: Cosac Naify; Rio de Janeiro: 7Letras, 2005) e Lugar algum com uma teoria da poesia (Santo André: Alpharrabio Edições, 2007). Além disso, está para ser lançado também seu livro Exames de rotina (Jaraguá do Sul: Editora da Casa, 2008).

Trata-se de um poeta que volta seus olhos para o desencontro urbano, o que não fica tão claro em seu livro de estréia, A lapso, apesar de alguns poemas remeterem a esse aspecto, mas se aprofunda sobretudo a partir de Carbono. Neste, Tarso começa a enfocar como se dá a presença do indivíduo, hoje, na cidade grande. De certo modo, ele se alia a alguns de seus pares contemporâneos, mas se destaca por não procurar exatamente razões para a situação existente, resignando-se por meio da construção lingüística que guarda sempre um tom amargo e de certa discordância (e mesmo distância) em relação à realidade. O sujeito, nesse caso, sente-se perdido, sem saber para onde se dirigir – como Tarso escreve no poema “Quarto”, de A lapso: “procurar / nunca encontrar”. Desse modo, ele sempre é abalado pelo crescimento da cidade que não pode parar, ao contrário do que gostaria. Vejamos, por exemplo, o poema “Monumento (2)”: “há quem chore diante, dentro, até distante de / suas colunas; um ou outro pode até sentir / a tentação de ceder a seu convite imenso, / explícito, violento para orar – eu, contudo, / apenas choro: não pelo cimento, pelo vidro, / pela madeira, pelo empenho de mão-de-obra, / aço, tinta, terra, papel, plantas, talvez preces, / broncas, pregos, carne, ar, ossos, parafusos, / dias, noites, alicerces, água, fogo e alumínio, / lágrimas, álibis – o universo que se recolheu / para erguer esse monumento (sólido, rápido, / pingente a mais na paisagem já combalida / dessas esquinas), não é por ele que choro, / mas pela simples ocupação mal-humorada / (e definitiva) do terreno dos circos eventuais”. Seus poemas, ao mesmo tempo, registram movimentos do cotidiano aos quais não se daria importância, como em “Guapé” (de A lapso): “entre a rua e meus / óculos, janela / e algumas grades / - nuvens atrás - / a tarde fria / segura, secas / guias por onde / meninos passam”, observando, por fim, “os dias gravados / no muro / com a cor indecisa / das tintas ausentes”. Outros versos, escapando ao sossego da reclusão, revelam a violência da sociedade, como em “Deserto 21” (de Carbono): “talvez bala, talvez atrope- / lamento – jornais sobre o sangue / e o céu do sábado / à tarde / imperfeito adere ao asfalto”.

No aspecto estrutural, não raramente os poemas de Tarso apresentam torções lingüísticas que tornam as imagens referenciais elípticas e desfocadas, pelo menos no que se refere ao que se vê como claro na poesia. Do mesmo modo, o sujeito se constrói de maneira enviesada, às vezes não aparecendo de forma clara no verso, mas sendo detectado em certos enunciadores e referências principalmente poéticas e filosóficas.

Em seu livro Lugar algum, há a presença, por exemplo, de um traço metalingüístico, em versos como “(a poesia não passa / de uma esquina) / viela das letras adentro”, “dali se estuda / a letra fria das tardes, / a letra morta dos sonhos, / a gramática das guias” e “o verso acaba no muro / [...] / figuras desta rua, / fria metáfora de asfalto”. Um traço que já havia num poema como “Ver” (de A lapso, livro de estréia): “atmosfera de algum livro, / lugar sem distâncias”. No entanto, cabe ressaltar que essa espécie de escrita metalingüística não implica uma tentativa de mera releitura dos procedimentos modernistas, uma espécie de culto ao poema interpretativo, mas os próprios limites do sujeito que deseja emergir do caos por meio de breves fissuras poéticas em seu discurso. 

Parece que Tarso, ao contrário de outros poetas que tentam privilegiar o social, investigando a linguagem do povo – sob um olhar superior, de querer representá-lo por meio de versos –, sabe que não há saída mesmo nessa representação, e acaba voltando ao plano inicial do desalento que convém à criação, à escritura. O seu ofício, com isso, parece sempre um fracasso, ao contrário do que se quer fazer crer: de que o poeta possa salvar a humanidade. Nesse sentido, o que lhe resta é o mundo “pós-utópico” de Haroldo de Campos, a quem Tarso rendeu uma homenagem em “Commedia de Haroldo”, de Planos de fuga.

Seu poema “Ready-made”, que ele enviou especialmente à IHU On-Line, lida exatamente com o bombardeio da mídia – cercada também pelo vazio. No caso, ele faz uma colagem de frases, colhidas em jornais e revistas, que remetem à presença extensiva na mídia da modelo inglesa Naomi Campbell.

 

 

READY-MADE
Tarso de Melo

Naomi Campbell faz tour gastronômico em SP. Naomi Campbell encontra ginecologista e infectologista em consultório. Naomi Campbell retirou cisto do ovário, segundo amigo brasileiro da top. Para não falar com a imprensa, Naomi Campbell deixou o local de helicóptero. Naomi Campbell almoça com namorado e vai ao médico em SP. Naomi Campbell recebe alta médica em São Paulo. Naomi pode ter sido operada devido à infecção, diz colunista. Naomi manda bloquear telefone e proíbe enfermeiras de entrarem em seu quarto. Médico de Naomi diz que pretende dar alta para a paciente até sábado. Após cirurgia, Naomi Campbell passa bem e descansa. Mídia internacional destaca internação de Naomi Campbell em SP. Naomi é atrevida e destrói tudo, diz Nany People. Naomi recebe cachê para internacionalizar Carnaval. Naomi Campbell afirma que mundo da moda ainda é muito racista. Naomi Campbell marcou presença no Carnaval de Salvador. Ator teria usado drogas com Naomi Campbell. Jornal especula suposto romance entre Hugo Chávez e Naomi Campbell. Naomi Campbell entrevista o “anjo rebelde” Hugo Chávez. Naomi Campbell visita projeto social em Cuba. Homens-armário vigiavam sala em que Naomi Campbell jantava no Bhudda. Naomi Campbell chega com botas para realizar serviço comunitário. Naomi Campbell vira faxineira. Naomi Campbell confirma presença no GP Brasil. Naomi Campbell fará desfile para ajudar vítimas de inundações. Naomi Campbell reaparece em leilão em Mônaco. Naomi Campbell diz que faxina lhe deu mais determinação. Naomi Campbell agrada em seu primeiro dia como faxineira. Naomi Campbell começa a cumprir pena de limpar chão em NY. Naomi Campbell faz aulas de ioga para controlar raiva. Naomi Campbell diz que combate à cocaína deve focar traficantes. Naomi Campbell defende indústria da moda em debate sobre anorexia. Jornal conta ligação de Naomi com seita brasileira “bizarra”. Naomi Campbell é considerada culpada por agredir empregada. Naomi Campbell admite ter agredido empregada. Naomi Campbell é presa por agressão. Naomi Campbell processa jornal britânico por difamação. Naomi Campbell é acusada de agredir funcionária pela quarta vez. Naomi Campbell paga camareira para evitar processo. Naomi Campbell vai torcer pelo Brasil na Copa. Naomi Campbell quer ser mãe, diz tablóide inglês. Naomi Campbell processa cirurgião francês. Naomi Campbell viverá diabo em filme. Naomi Campbell fará vídeo contra tráfico de mulheres. Naomi Campbell bate em atriz italiana em Roma. Naomi Campbell é acusada de agredir melhor amiga por vestido. Naomi Campbell assume na TV uso de drogas. Naomi Campbell é convidada a presenciar matança de focas. Naomi pode ser multada por abandonar trabalho na Turquia. Naomi Campbell afirma que Nelson Mandela é seu confidente. Modelo Naomi Campbell fará papel de stripper em novo filme. “The Essential Naomi Campbell” vai ao ar no próximo domingo.

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