Edição 259 | 26 Maio 2008

Fluidos magnéticos: uma alternativa para doenças pulmonares

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Patricia Fachin

Para o pesquisador Ricardo Bentes de Azevedo, as nanotecnologias podem amenizar efeitos colaterais. Entretanto, as pesquisas precisam ser cautelosas

Em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, o pesquisador Ricardo Bentes de Azevedo explica que nanopartículas serão imersas em um líquido e, então, toda a solução passa a ser magnética. “A idéia é acoplar fármacos a estes fluidos e, usando um imã externo, levar as nanopartículas para a área de interesse, como, por exemplo, o tórax”, explica. Pelo fato das pesquisas na área serem recentes, Azevedo afirma que é preciso ter cautela já que ainda não se pode afirmar se esta nova tecnologia será uma “solução ou um problema” na área da saúde.
Ricardo Bentes de Azevedo possui graduação em Ciências Biomédicas, pela Universidade Federal do Pará (UFPA), e mestrado e doutorado em Ciências, pela Universidade de São Paulo (USP). Atualmente, é professor da Universidade de Brasília (UnB). No simpósio, ele ministra o minicurso “Aplicações de fluidos magnéticos no tratamento de doenças pulmonares”. O encontro ocorre na quarta-feira, 28-05-2008, às 14h.

IHU On-Line - Como o senhor percebe a atuação da nanotecnologia na área da saúde? Pesquisadores estão prometendo a cura de muitas doenças através dessa nova tecnologia. Entretanto, há riscos nos possíveis tratamentos? É necessário agir com cautela?
Ricardo Bentes de Azevedo
- Como em toda nova tecnologia, principalmente em se tratando de vida, precisamos ter cautela. Não existe nenhum tratamento com risco zero. A cautela é necessária para que se minimizem esses riscos.

IHU On-Line - Como os fluidos magnéticos podem ser utilizados no tratamento de doenças pulmonares?
Ricardo Bentes de Azevedo
- Os fluidos magnéticos são formados por partículas muito, muito pequenas (na escala nanométrica), que chamamos de nanopartículas magnéticas, e que, como o próprio nome diz, possuem magnetismo, como os imãs. Estas nanopartículas são imersas em um líquido e então, toda a solução passa a ser magnética (por isso, o nome fluidos magnéticos). A idéia é acoplar fármacos a estes fluidos e, usando um imã externo, levar as nanopartículas para a área de interesse, como, por exemplo, o tórax.

IHU On-Line - Como o tratamento através das nanotecnologias funcionará? Como as substâncias utilizadas para a cura serão implantadas nas células sadias e infectadas?
Ricardo Bentes de Azevedo
- Um exemplo do funcionamento está citado na pergunta anterior. O tratamento, em geral, não se dará na célula, mas no órgão ou tecido como um todo.

IHU On-Line - Quais são as principais diferenças entre os medicamentos tradicionais e os produzidos a partir das nanotecnologias? A isoniazida, utilizada para o tratamento da tuberculose, e a anfotericina, utilizada para PB Micose, causam fortes efeitos colaterais nos pacientes. Os fluidos magnéticos e nanomedicamentos poderão ajudar nesse sentido?
Ricardo Bentes de Azevedo
- Na realidade, no caso da utilização dos fluidos magnéticos no tratamento de doenças pulmonares, a grande vantagem será levar estes fármacos principalmente para o pulmão, o que em tese poderá fazer com que possamos diminuir a dose, freqüência, e, em conseqüência, os efeitos colaterais ao paciente. É preciso ficar claro, que, no caso do nosso projeto, os fluidos magnéticos não promovem a cura; eles apenas são “instrumentos de entrega de drogas”.

IHU On-Line - O tratamento em nível molecular já é uma realidade? Há projeções de quando esse tratamento estará disponível a população?
Ricardo Bentes de Azevedo
- Estamos tratando muito mais de biologia molecular do que nano. Como disse anteriormente, o tratamento de cada célula, até onde sei, ainda não existe, e está longe de ser uma realidade.

IHU On-Line - Como o mercado farmacêutico tem percebido o tratamento à base de fluidos magnéticos? As pesquisas nessa área estão se desenvolvendo com eficiência?
Ricardo Bentes de Azevedo
- O mercado farmacêutico ainda não está utilizando os fluidos magnéticos para tratamento. No entanto, já está utilizando para aumento de contraste em aparelhos de ressonância magnética. Quanto às pesquisas, existem diversos grupos no mundo trabalhando nessa direção. Mas pesquisa sempre demora, exatamente porque as respostas não são tão simples. Além disso, é necessário ter muito cuidado em saber se esta nova tecnologia é solução mesmo ou problema.

IHU On-Line - Como a nanobiotecnologia poderá delinear mais qualidade de vida aos pacientes?
Ricardo Bentes de Azevedo
- Diminuindo os efeitos colaterais dos fármacos, o tempo e até mesmo necessidade de internação, além do tempo de tratamento e a freqüência de aplicações.

IHU On-Line - Segundo informações da OMC (Organização Mundial da Saúde), o Brasil ocupa o 16º lugar em notificações de casos de tuberculose no mundo. Com o desenvolvimento de pesquisas nessa área, o Brasil tem condições de ficar independente da importação de fármacos do mercado internacional?
Ricardo Bentes de Azevedo
- Não sei, hoje, qual é a dependência do Brasil em relação aos fármacos para o tratamento de tuberculose, mas, com certeza, as pesquisas científicas, não necessariamente em nano, sempre podem e trazem independência tecnológica. Basta ver o exemplo das grandes potências mundiais.

IHU On-Line - Uma possível produção nacional poderá trazer benefícios para os pacientes do SUS, por exemplo, ou o acesso e esse tipo de tratamento ainda será restrito? Quais são as vantagens para a população?
Ricardo Bentes de Azevedo
- Isso depende da política adotada pelo governo. A princípio, poderá beneficiar a todos, será mais barato e poderia ser um dos tratamentos oferecidos pelo SUS.

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