Edição 259 | 26 Maio 2008

Nanotecnologia para aumentar a habilidade humana

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Graziela Wolfart

Eric Drexler acredita que os benefícios das nanotecnologias claramente superam os riscos pequenos e controláveis que elas podem provocar

Eric Drexler é considerado por muitos o pai da nanotecnologia. Ele participa, esta semana, na Unisinos, do Simpósio Internacional Uma sociedade pós-humana? Possibilidades e limites das nanotecnologias, com a conferência “Os nanosistemas. Possibilidades e limites para o Planeta e a sociedade”, no dia 27-05-2008, terça-feira, às 9h. Em entrevista concedida por e-mail para a IHU On-Line, antes da sua viagem ao Brasil, ele fala sobre as pesquisas na área da nanotecnologia para um futuro próximo e um outro mais distante, refletindo sobre os limites e os desafios que essa nova área da ciência comporta. Em 1980, Drexler popularizou o termo nanotecnologia através do livro Engines of creation (Motores da criação) e tornou-se o dono do primeiro PhD em nanotecnologia do mundo. Engenheiro e nanotecnólogo, Drexler escreveu seu primeiro artigo sobre o tema na revista Proceedings of the National Academy of Sciences, em que fala sobre a possibilidade de reproduzir mecanicamente a atividade biológica celular. Durante todos estes anos, Drexler vem estudando as amplas possibilidades que as nanotecnologias podem propiciar para o desenvolvimento dos sistemas das sociedades. Para o professor da Universidade de Massachusetts, as nanotecnologias permitirão a fabricação de produtos complexos de forma mais limpa, eficiente e barata.

IHU On-Line – Quais são os maiores avanços e os principais limites da nanotecnologia hoje?
Eric Drexler
- As diretrizes mais importantes na nanotecnologia são as que aumentam a habilidade dos seres humanos para criar e construir estruturas complexas com precisão atômica – estruturas nas quais cada átomo tem um lugar definido. Pequenas moléculas são exemplos simples disso, e o desafio é construir estruturas que sejam maiores e mais complexas. Isso leva a máquinas em nanoescala, chamadas de “nanosistemas produtivos”, que utilizam informação digital para dirigir um processo de fabricação que combina moléculas simples para criar produtos atomicamente precisos. Existem exemplos dentro de células vivas: ribossomos e polimerase de ácido nucléico, por exemplo, os quais usam informação genética para direcionar a fabricação de proteínas, DNA e RNA – o que, por sua vez, provê os componentes para fazer essas máquinas. O grande desafio para os anos vindouros será avançar a tecnologia nessas direções. Um marco recente foi o desenvolvimento do “origami de DNA”, o que possibilita aos pesquisadores a criação de estruturas contendo milhões de átomos precisamente organizados, e que façam centenas de bilhares deles. Notadamente, isso pode ser feito em alguns dias sem equipamento e suprimento de laboratório muito ordinários.

IHU On-Line - Na sua opinião, as nanotecnologias podem oferecer mais benefícios, ou mais riscos/perigo à humanidade?
Eric Drexler
- Os tipos de nanotecnologia que vemos hoje, e que estarão em laboratórios e fábricas pelos próximos anos, não apresentam nenhum perigo além da possibilidade de que alguns dos novos materiais sejam tóxicos. Isso requer estudo e regulamentação, um processo que está ocorrendo. Os benefícios substanciais claramente superam esses riscos pequenos e controláveis. Nanotecnologias avançadas, do tipo que o campo irá, eventualmente, alcançar, serão bem diferentes e transformadoras. Os benefícios potenciais são enormes, em todas as áreas em que seres humanos possam fazer coisas, ou usar coisas que tenham feito: a perspectiva é melhorar muito produtos com grandes reduções de custos, tanto em termos financeiros quanto em se tratando de impacto ambiental. Essa capacidade pode ser usada para criar um mundo inteiro para um alto padrão de vida material, enquanto se reduz consumo de recursos e realmente remove CO2 da atmosfera. Como em toda poderosa tecnologia, no entanto, essas capacidades estão sujeitas a potencial abuso. Desenvolvimento e aplicação não controlados de tecnologias militares e de vigilância são exemplos que vejo como os mais importantes, nesse sentido. A propósito, existe uma fantasia generalizada de que a nanotecnologia avançada será baseada em enxames de nanobugs. Isso dá em excitantes e assustadores histórias, mas não é realista. Processos de manufatura molecular usarão maquinário de fábrica, não bugs, e histórias de terror sobre nanobugs são uma distração dos reais e sérios problemas que acabei de mencionar.

IHU On-Line - Como foi e tem sido a sua trajetória pessoal nas pesquisas com nanotecnologia? O que o faz ser considerado o “pai da nanotecnologia” no mundo?
Eric Drexler
- Me interessei na ciência e no futuro da tecnologia quando jovem, e entendi, enquanto estava na faculdade, que as tecnologias de manufatura molecular poderiam ser desenvolvidas e seriam muito poderosas. É fácil compreender os fatos básicos: são tão simples quanto problemas em um caderno da faculdade, e são baseadas na mesma e familiar física e química. Descrevi esse quadro do futuro alguns anos depois, em um periódico científico, o Proceedings of the National Academy of Sciences (EUA). Isso foi em 1981. Continuei a estudar e a relatar esses tópicos, em artigos e livros (em 1986, um livro não-técnico, Engenharias da criação, e em 1992, um livro de física aplicada baseado em minha dissertação no MIT ). Esse trabalho levou à primeira empolgação generaliza da sobre “nanotecnologia”, um termo que comecei a usar em meados dos anos 1980.
 
IHU On-Line - O que o senhor prevê para o futuro da nanotecnologia? Como os nanosistemas podem contribuir para a solução dos problemas climáticos do planeta Terra?
Eric Drexler
- Uma das mais importantes aplicações das nanotecnologias avançadas será fazer grandes rolos de material solar fotovoltaico que seja fino, durável/forte e barato. Junto com outros produtos de baixo custo de manufatura molecular, esses podem ser usados para produzir energia elétrica (e disso, combustíveis) a baixo custo e sem emissões de carbono. O que é mais importante são sistemas de grande escala desse tipo que podem ser usados para remover CO2 e outros gases estufa da atmosfera a uma taxa que removeria as emissões do último século em 10 anos. Isso pode remover a causa do aquecimento global.

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