Edição 259 | 26 Maio 2008

Em busca da soberania humana. Para onde vamos?

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Patricia Fachin

Para Elena Pulcini, lidar com as tecnologias e o poder humano ainda são os grandes desafi os da humanidade. Para resolver as questões do pós-humano, aconselha, precisamos encontrar “os fundamentos de uma ética do futuro que proteja o mundo dos efeitos indesejados do nosso poder”

“O sujeito moderno se pensou essencialmente como um sujeito soberano, independente, legitimado a dominar a natureza, o corpo, o mundo, em razão da satisfação dos próprios desejos e da própria auto-afirmação. Isso deu origem a uma relação puramente instrumental com o outro”, avalia Elena Pulcini, professora de Filosofia da Università degli Studi di Firenze, Itália. A obsessão pelo pode levar “a humanidade e o mundo vivente ao perigo de uma irreparável degradação, senão à extinção”, alerta a pesquisadora.
Com o avanço das nanotecnologias e a possibilidade do homem perder o controle de suas próprias criações, Pulcini diz que “não podemos deixar a ciência entregue a si mesma, separada da ética, da política, do direito”. E aconselha: “Devemos criar uma interação sempre mais eficaz entre os saberes especializados e o grande público, para podermos estar cônscios daquilo que está de tempos em tempos acontecendo e expressar as nossas legítimas inquietudes”.
Entre suas obras, destacamos L’individuo senza passioni. Individualismo moderno e perdita del legame sociale (Torino: Bollati Boringhieri, 2001); Il potere di unire. Femminile, desiderio, cura (Torino: Bollati Boringhieri,  2003); Umano, post-umano. Potere, sapere, etica nel mondo globale (Roma: A cura di, 2004). A pesquisadora proferirá a conferência “O impacto das nanotecnologias e a sociedade contemporânea. Uma reflexão sociofilosófica”, nesta quarta-feira, 28-05-2008, às 20h.

IHU On-Line – De que modo as nanotecnologias e as outras técnicas criadas pelo homem põem em risco sua própria espécie?
Elena Pulcini
– A técnica sempre produziu riscos. O problema nasce no momento em que o homem perde o poder de geri-los e controlá-los. Pense-se, por exemplo, para mencionar somente alguns, nos riscos produzidos pelo nuclear que, com a bomba atômica, pôs agora irreversivelmente em perigo a própria sobrevivência da humanidade; ou nos riscos intrínsecos às biotecnologias que, através de práticas como a clonagem, podem criar sérios problemas à própria identidade do sujeito e às percepções do próprio corpo; ou nos efeitos da desrealização, produzidos pela revolução informática.

IHU On-Line – A senhora acredita que o homem será realmente superado com as nanotecnologias?
Elena Pulcini
– Indubitavelmente, as nanotecnologias constituem o desafio mais recente e mais forte para a imagem do humano que interiorizamos por séculos. Basta pensar no cenário dos “grey go”, da “peste cinzenta” que as máquinas auto-replicantes (os famosos agregadores) poderiam difundir, alimentando-se com matéria orgânica e destruindo toda forma de vida sobre a terra. Trata-se, por certo, de hipóteses de ficção científica que, no entanto, nos fazem entender, pelo menos simbolicamente, o que está sendo posto em jogo.

A “superação” do homem não está no fato de ele construir um mundo artificial. Isso porque o homem, como dizia a grande antropologia germânica do século XX, é uma criatura “naturalmente artificial”, não vinculável a uma essência fixa e definida de uma vez por todas. 

Sua superação existe, sim, quando o homem não é mais capaz de controlar o que ele mesmo produziu, quando sofre os efeitos imprevistos e indesejáveis daquilo que construiu, tornando-se fatalmente vítima dele próprio.

Esta é a ameaça de nossa época, que nos impele a interrogar-nos sobre qual imagem do homem queremos preservar, a entendermos qual imagem do humano nós amamos e queremos, por isso, salvaguardar.

IHU On-Line – A senhora percebe uma ambivalência quando tratamos de nanotecnologias? Em que sentido isso ocorre?
Elena Pulcini
– A idéia de ambivalência está precisamente no centro da minha reflexão. É importante ter presente que a técnica, em todas as suas manifestações, produz efeitos ambivalentes, ou seja, riscos e benefícios. Não faz sentido, portanto, posicionar-se rigidamente a favor ou contra. Não faz sentido a contraposição entre entusiastas e apocalípticos, porque esta divergência descamba, em ambos os casos, numa desresponsabilização, seja porque se pensa que a técnica resolverá tudo (também os males que ela mesma produz), seja porque se teme que ela destruirá tudo e nos levará à catástrofe.
Com efeito, é muito mais fatigante e complexo procurar entender, distinguir, intervir cada vez, porque isto nos constringe a assumir uma conduta responsável, a nos libertar da nossa indiferença para estarmos atentos ao que acontece.

Isto, obviamente, também vale para as nanotecnologias, nas quais podemos constatar benefícios (possibilidades de diagnóstico e terapêuticas no campo médico, produção de materiais dotados de excepcional resistência e durabilidade, desenvolvimento de processos produtivos menos poluentes para o ambiente etc.), mas também riscos (riscos para a saúde, devidos à difusão das nanopartículas no ambiente, riscos de invasão e controle de nossa privacidade, para não falar da enorme potenciação possível na construção de armas de destruição em massa etc.).

IHU On-Line – De que modo o Homo faber e o Homo creator se relacionam na era da técnica?
Elena Pulcini
– O Homo faber representa a própria imagem do homem que, desde suas origens, fabrica e constrói artificialmente o próprio mundo através de instrumentos, utensílios, máquinas tendentes a melhorar suas condições de vida, a permitir-lhe não só a sobrevivência, mas até mesmo a possibilidade de emancipar-se da natureza, produzindo uma “segunda natureza”, não hostil, porém mais familiar e amiga.
O problema nasce, no entanto, quando este fazer, este fabricar perde todo sentido e finalidade, impelindo-o a um agir coativo, segundo o princípio que “o que se pode fazer se deve fazer”. 
O Homo creator, como dizia Günther Anders  há algumas décadas, é aquele que perdeu o sentido e o escopo do próprio agir em razão do fato de que – e este é um aspecto que me compele particularmente a sublinhar – perdeu o contato com sua emotividade, com sua capacidade de sentir, de imaginar, de prever as conseqüências do seu fazer. É deste descolamento, desta cisão “prometéica” entre as faculdades, que tem origem a dimensão ilimitada do Homo creator, cujo agir corre, em última instância, o risco de transformá-lo num inerte “homo materia”, volvendo-se, portanto, contra si mesmo, lesando a dignidade de sua vida e ameaçando sua própria sobrevivência.

IHU On-Line – O que motivou o homem a procurar uma transcendência do corpo e da natureza? Por que a necessidade humana de recriar o homem fora das leis da evolução?
Elena Pulcini
– Há, provavelmente, na origem do homem, uma tendência a transcender os próprios limites, devida a uma espécie de hybris, de vocação à onipotência que o desenvolvimento vertiginoso da técnica acaba por alimentar, fazendo com que ele perca a memória do limite, da própria finitude.

Quando isto acontece, tudo o que representa o sinal mais autêntico do humano – a imperfeição, o sofrimento, a morte, ou seja, numa palavra, o corpo – se torna uma espécie de “peso morto”, do qual é necessário libertar-se para aceder às regiões imateriais da perfeição e da imortalidade.

Nesta perspectiva, também podemos ler o desenvolvimento vertiginoso das manipulações do corpo. Este, de fato, vem sempre mais sendo tornado objeto de manipulações que o transformaram de “corpo vivido”, no qual se encarna e se exprime a integridade da pessoa, em “corpo carne”, num conjunto de órgãos a decompor, desmembrar ou reproduzir.

Esta vocação “criativa” pode, em suma, ser interpretada como a resposta à própria fragilidade e vulnerabilidade, àquela espécie de vergonha – diria ainda Anders – da própria natureza humana que impele os homens a tentar constantemente transcendê-la.

IHU On-Line – O ser humano procurou a perfeição e tentou através das técnicas libertar-se de alguns defeitos e limites. Entretanto, como fica o conhecimento através da humildade, sabedoria, respeito e interação com o outro?
Elena Pulcini
– Se é verdade o que eu acabo de dizer acima a propósito da vocação do homem ao ilimitado, então a única resposta possível, ou pelo menos a primeira resposta possível, é aquela de recuperar o sentido da própria imperfeição, de aceitar, e de valorizar a própria vulnerabilidade.

É, acima de tudo, o sujeito moderno que removeu este aspecto, valorizando somente a liberdade, a autonomia, mesmo às custas do domínio da natureza, perdendo, assim, a percepção do limite. Ou seja, o sujeito moderno se pensou essencialmente como um sujeito soberano, independente, legitimado a dominar a natureza, o corpo, o mundo, em razão da satisfação dos próprios desejos e da própria auto-afirmação. Isso deu origem a uma relação puramente instrumental com o outro.

É esta idéia de soberania que deve ser novamente posta em discussão, para valorizar, então, a constitutiva condição de vulnerabilidade e de dependência que caracteriza o humano.
É preciso pensar um sujeito em relação: vale dizer, sempre dependente de um outro diverso de si (seja isso a natureza, o corpo, o Outro) que “o chama”, diria Levinas  a responder, que o interpela e que lhe resiste, impelindo-o à responsabilidade.

Responsabilidade quer dizer, em primeiro lugar, responsabilizar-se pelas conseqüências das próprias ações, e, em segundo lugar, responder ao chamamento que provém do outro, ao qual estamos ligados por vínculos indissolúveis.

A possibilidade de se conformar, hoje em dia, à responsabilidade pode derivar, em outros termos, somente do fato de estarmos cônscios de nossa vulnerabilidade e do reconhecimento de nossa recíproca dependência, do nosso estar em relação. Somente quando nos tornamos cônscios de nossa própria vulnerabilidade somos capazes de tomar cuidado do outro (seja este o mundo vivente, o corpo, seja as gerações futuras).
Paradoxalmente, os riscos produzidos pela técnica podem constituir um instrumento eficaz de destituição, podem reativar o impulso para sairmos da ilusão da própria soberania e segregação e restituir-nos o sentimento de nossa interdependência.

IHU On-Line – De que modo você percebe as possibilidades dos cientistas de modificar um embrião humano, criando um embrião híbrido (humano-animal)? Essas mudanças também compõem o novo mundo pós-humano?
Elena Pulcini
– Há quem diga que nós somos desde sempre híbridos e que, por conseguinte, se trata somente (hoje) de diferenças quantitativas. No entanto, temos a clara sensação de que estamos atravessando limiares precedentemente impensáveis, e que, sobretudo, estamos dando origem a processos irreversíveis, dos quais, como a história da ciência nos ensina, não se volta mais atrás.
O problema está, ainda uma vez, no sentido. A ciência, por si só, como já Max Weber havia sublinhado, não produz sentido, é “a-simbólica”. E, por isso, cabe ao sujeito restituir o sentido às descobertas e às conquistas da ciência, interrompendo seu automatismo.

Não podemos mais deixar a ciência entregue a si mesma, separada da ética, da política, do direito. Devemos, sim, criar uma interação sempre mais eficaz entre os saberes especializados e o grande público, para podermos estar cônscios daquilo que está de tempos em tempos acontecendo e expressar as nossas legítimas inquietudes.

No caso das nanotecnologias, isto é tanto mais necessário, como eu acenava acima, por causa de sua invisibilidade e por causa do fato de ser muito difícil reconhecê-las, localizá-las, individuar suas aplicações. Estas, afinal, são infinitas e dizem respeito a todos os setores da vida.

IHU On-Line – Quais são as implicações éticas deste processo? Podemos encarar estas mutações como parte da evolução humana? Ou estas alterações nos conduzem a uma crise no futuro, da qual não saberemos mais o que será ou não o humano?
Elena Pulcini
– Nós estamos diante de um desafio terrível porque, como Hans Jonas havia entendido muitos anos atrás, por causa do nosso ilimitado poder, podemos expor a humanidade e o mundo vivente ao perigo de uma irreparável degradação, senão à extinção. Devemos, portanto, encontrar os fundamentos de uma ética do futuro que proteja o mundo dos efeitos indesejados do nosso poder.
No entanto, não podemos esperar por um apelo ao dever, ou seja, não se pode responder com regras abstratas e formais à vocação prometéica ao ilimitado. Podemos somente obter êxito com a recordação da própria vulnerabilidade, que restitua aos homens o sentido da própria pertença à humanidade e ao mundo vivente e a percepção de sua dependência recíproca.

Mas não só. Hoje, temos uma tarefa ainda mais árdua: a de decidir quais as formas do humano que queremos salvar, que imagem do humano queremos prefigurar para imaginar uma vida que, para retomar a expressão de Habermas, seja “digna de ser vivida”.

Há aspectos do humano, pelo modo como o conhecemos até aqui, que amamos, aos quais estamos afeiçoados porque nos restituem, precisamente, o sentido de uma vida que ainda gostaríamos de escolher, de um mundo no qual ainda gostaríamos de habitar.

Mais que o dever, é preciso ativar a nossa imaginação, porque é a única faculdade que nos permite prever cenários possíveis. É preciso reconduzir nossa imaginação à altura do nosso poder de fazer, para reencontrar o sentido e a finalidade do nosso agir.

E talvez somente o amor, o amor pelo mundo que Hannah Arendt  nos ensinou tão bem, que pode ajudar-nos nesta tarefa: um amor que se acorda, segundo um elementar mecanismo psicológico, diante do espectro da perda, diante do perigo de perder o objeto do nosso amor.

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