Edição 259 | 26 Maio 2008

Nanotecnologia com o auxílio dos fractais, da Teoria do Caos e da Complexidade: busca da descoberta da

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Graziela Wolfart e Patricia Fachin

“De onde vêm as grandes surpresas, as incertezas, as indeterminações, as transmissões instantâneas de informações a distância?”, questiona Ivan Amaral Guerrini. A resposta pode ser encontrada através da Ciência, sugere

Juntos, a Teoria do Caos, os princípios da Física Quântica e as nanotecnologias poderão explicar um dos grandes dilemas da humanidade: como é construído todo o ser humano. Com estudos integrados, o homem poderá compreender melhor o sentido da vida e “descobrir como funcionam as micropartes de um sistema natural para entender como podem funcionar as grandes partes, as comunidades maiores”, assegura Ivan Amaral Guerrini, pesquisador da Universidade Estadual Paulista (UNESP). Em entrevista concedida à IHU On-Line, por e-mail, ele afirma que “quanto mais a nanotecnologia estiver em busca de descobrir a 'vida', os processos auto-organizados que podem existir no mundo micro, melhor para a humanidade como um todo se conhecer e aprender a viver bem e em harmonia”.
Guerrini destaca que nesse cenário surge também uma nova ética “pautada pela incerteza, pelas irregularidades e pela imprevisibilidade dos sistemas naturais”. Isso ocorre, explica, porque hoje “os temas não são mais apenas duais, são complexos”. E acrescenta: “Não podemos mais compactuar com o maniqueísmo ainda arraigado, mas nem por isso podemos fazer qualquer coisa de qualquer jeito”.
Ivan Amaral Guerrini é graduado em Física, pela Universidade Estadual Paulista Júlio Mesquita Filho, mestre em Ciências, pela Universidade de São Paulo (USP), e doutor em Agronomia, pela mesma universidade. O pesquisador ministrará o minicurso “Nano-robôs”, no dia 27-05-2008, terça-feira, às 14h.

IHU On-Line - Como entender o tamanho interesse contemporâneo em sistemas dinâmicos e complexos?
Ivan Amaral Guerrini
- Sistemas Dinâmicos e Complexos são temas centrais da complexidade, assunto que surgiu na ciência nas últimas décadas. Veio em seqüência à Teoria do Caos e à Geometria Fractal, a partir da segunda metade do século XX, mostrando que os sistemas da natureza precisam ser olhados como complexos e não mais como simples. A ciência clássica dá conta de estudar e entender os Sistemas Simples (SS), mas os sistemas naturais são Sistemas Dinâmicos Complexos e Adaptativos (SDCA), como vêm denominando os pesquisadores da Complexidade. Podemos usar as trajetórias para estudar os SS e fazer previsões dessas trajetórias com leis gerais. Porém, essas geralmente não funcionam quando se tratam de experimentos abertos e não mais controlados em laboratórios. São leis que assumem que a natureza é linear e que a maioria das variáveis de um sistema natural pode ser desprezada. Quando se admite que os sistemas naturais são SDCA, levando-se em conta todas as variáveis, há a formação de redes de atuação e não mais de trajetórias. Por isso mesmo a necessidade do uso da Complexidade, que significa “aquilo que é tecido em rede”. Então, precisamos trabalhar com cenários instáveis, padrões dinâmicos de atuação, e aí recorremos aos fractais, principalmente aos naturais, aos princípios da Teoria do Caos e a alguns princípios da Física Quântica. Um bom exemplo é a questão do famoso Efeito Borboleta, a extrema sensibilidade às condições iniciais ou externas, o qual quando ocorre significa que o sistema estudado atua como um SDCA. Outro exemplo é a força sutil da mente em formar padrões concretos de saúde para melhor ou para pior.

Curiosidade

Esses temas alcançaram a população através de livros e filmes recentes, o que faz com que a sociedade busque mais e mais respostas da comunidade acadêmica sobre esses assuntos. Isso vem gerando polêmica dentro da academia, pois os acadêmicos conservadores, os que não conhecem e/ou não gostam desses novos temas, usam jargões conhecidos como “não é científico”, “não há como provar”, “é esotérico”, “é charlatanismo” para desqualificar os debates. Penso que a academia deveria dar mais atenção àquilo que a sociedade está pedindo. Nós, do Laboratório de Caos, Fractais e Complexidade (Lab-Caos), UNESP, Botucatu, estamos trabalhando com a divulgação desses novos temas há 14 anos. 

IHU On-Line - Como a teoria do caos e da complexidade nos ajuda a entender a nanotecnologia enquanto ciência da vida?
Ivan Amaral Guerrini
- Eu diria, em ressonância com conhecimentos muito antigos da humanidade, que aquilo que está no grande está no pequeno, o que está em cima está embaixo. A Geometria Fractal, na sua essência, veio comprovar essa questão em tempos pós-modernos e pós-humanos. O todo não é mais a direta soma das partes, como querem insistir ainda os cartesianos. Porém, há partes dos SDCA que mostram os mesmos padrões que existem no todo, uma certa independência de escala, um princípio holográfico. É dessa forma mais filosófica e perceptiva que eu olho com curiosidade e expectativa de bons resultados o uso da nanotecnologia com o auxílio dos fractais, da Teoria do Caos e da Complexidade. 

IHU On-Line - Como as pesquisas e descobertas na área da nanotecnologia interagem com as leis da natureza (auto-organizadas)?
Ivan Amaral Guerrini
- A grande possibilidade, na minha visão, é descobrir como funcionam as micropartes de um sistema natural para entender como podem funcionar as grandes partes, as comunidades maiores. Um bom exemplo natural é uma colônia de formigas, onde cada indivíduo exerce uma função e emergem padrões de vida da colônia como um todo, uma auto-organização. Bruce Lipton  diz, em seu recente livro The Biology of belief (Carlsbad: Hay House, 2008), que conhecer uma célula humana, como ela age, se organiza e se harmoniza com outras tantas no organismo é, na verdade, conhecer o todo do ser humano. Quanto mais a nanotecnologia estiver em busca de descobrir a “vida”, os processos auto-organizados que podem existir no mundo micro, melhor para a humanidade como um todo se conhecer e aprender a viver bem e em harmonia.

IHU On-Line - Em que medida as novas descobertas da Física Quântica inspiram os debates em torno da nanotecnologia?
Ivan Amaral Guerrini
- A Física Quântica fala de estonteantes descobertas do mundo micro ocorridas na primeira metade do século XX. No meu novo livro Em busca do professor quântico (São Paulo: Editora All Print, 2008), cito nas primeiras páginas as palavras de Niels Bohr:  “Qualquer um que não se sinta chocado com a Física Quântica, ainda não a compreendeu”. Ficar chocado com as descobertas da Física Quântica é, portanto, natural. Porém, ignorar, menosprezar ou ainda desqualificar o assunto porque incomoda não é um caminho coerente. O cientista clássico, além de fazer isso, diz, “para salvar a sua alma”, que a Física Quântica “correta e científica” é somente aquela aceita pelos moldes acadêmicos convencionais, o uso das equações de Schrödinger  para explicar movimentos de elétrons, por exemplo. Há muito mais que isso na Física Quântica desde que o assunto veio à tona nas décadas de 1920 e 1930. Onde ficam as conseqüências filosóficas e epistemológicas das grandes descobertas da Física Quântica? Por que há essa aparente ruptura do mundo macro para o mundo micro? Epistemológica e ontologicamente, de onde vêm as grandes surpresas, as incertezas, as indeterminações, as transmissões instantâneas de informações a distância? Desprezar e dizer que algo que vai além das equações de Schrödinger é esotérico ou místico é uma saída muito fácil e prepotente de quem está com medo de perder o poder. E, se houver mesmo uma ligação da Física Quântica com os princípios da espiritualidade oriental, como Capra  e outros vêm dizendo já há décadas? A ciência não existe para entender a natureza? Por que o medo de descobertas que não cabem nos padrões convencionais? Por que não se mudam os padrões ao invés de se desqualificar as evidências? Toda desqualificação de aplicações da Física Quântica é fruto de um grande medo de descobrir algo que não se quer ver, um resquício arquetípico da inquisição da Igreja, hoje feito por aqueles que estão no poder da academia. Na medida em que a nanotecnologia avança, penso que será cada vez mais difícil evitar esses questionamentos mais profundos sobre o caráter quântico da natureza. Falarei disso no minicurso do Simpósio, apresentando um modelo de mundo mais ampliado, no qual há espaço para todas a visões, incluindo para os SDCA e os fenômenos quânticos, os quais, atuando no mundo micro, revelam aquilo que atua sutilmente no mundo macro.
Chegamos no terceiro milênio e todos são livres para escolher o modelo de mundo em que querem viver. Só não dá mais para conviver com imposições desta ou daquela visão. Isso é coisa de um passado nefasto.     

IHU On-Line - Qual é a importância das discussões éticas em torno das evoluções na área da nanotecnologia? Qual o papel da educação nesse sentido?
Ivan Amaral Guerrini
- Uma nova ética surge com os SDCA e com a Física Quântica. Eu diria que é uma ética pautada pela incerteza, pelas irregularidades e pela imprevisibilidade dos sistemas naturais. Precisamos de uma nova lógica para isso, a lógica do transdisciplinar, ou Lógica Quântica, introduzida por Stéphane Lupasco,  físico do século passado que estudou muito as questões filosóficas e epistemológicas da Física Quântica. Não se pode mais ficar na lógica aristotélica do certo/errado para trabalhar a ética neste novo milênio. Há que se avançar muito, mas sempre com responsabilidade. Vejo que fica mais difícil tomar decisões com a nova ética, porque os temas não são mais apenas duais, são complexos. Não podemos mais compactuar com o maniqueísmo ainda arraigado, mas nem por isso podemos fazer qualquer coisa de qualquer jeito. Usar as idéias de V. Frankl  sobre liberdade com responsabilidade me parece ser um bom caminho. Outra possibilidade é usar a educação libertadora de Paulo Freire  e Leonardo Boff. 

IHU On-Line - Existem transparência e abertura da ciência oficial para a sociedade, em relação às suas descobertas? Quais os riscos de uma utopia em torno de uma ciência “milagrosa”, mas que pode oferecer riscos também?
Ivan Amaral Guerrini
- Na minha maneira de ver, há muito pouco contato da ciência oficial com a sociedade. Quando descobri isso, fui fazer divulgação científica, anos atrás. Parece-me que a ciência oficial quer manter o status quo a qualquer preço, e abrir espaço para os leigos é sempre um risco grande. É algo muito semelhante ao que ocorreu e ainda ocorre na Igreja. Se abrir muito o diálogo pode ser perigoso. A cúpula da Igreja não é democrática, como também não é democrática a cúpula da ciência clássica. Por essa última, entendam-se como integrantes, com algumas exceções, os cientistas e pesquisadores renomados que publicam bastante, aqueles que são aceitos por seus pares e ocupam os primeiros lugares nos órgãos de fomento e em órgãos diretivos das universidades. Sem saber disso conscientemente, formam uma nova versão da Caverna de Platão. Há exceções, claro, e sou otimista, achando que o número dessas exceções cresce cada vez mais. Agora, vejo também que é sempre um risco a abertura da ciência para as grandes e inquietantes descobertas do século XX, e é baseado nesses riscos que os donos do poder fazem o que fazem. Porém, viver é correr riscos, não? Punir ou desqualificar quem fala diferente e desinstala não é o caminho, mas ainda é o que mais acontece. Quem faz assim, repete a Igreja ao execrar as idéias de Leonardo Boff, Hans Küng  e Uta Ranke-Heinemann.  Um dia o espelho desses doutores da lei vai mostrar além das aparências.    

IHU On-Line - Em que sentido a “nova ciência” está relacionada ao pós-humano?
Ivan Amaral Guerrini
- No novo modelo de mundo que vou apresentar em meu minicurso no Simpósio Internacional Uma sociedade pós-humana? Possibilidades e limites das nanotecnologias, vou mostrar que o pós-humano está inserido na faixa do não convencional do humano, ou seja, bem além do aceito pelos padrões de um humano puramente racional. As idéias para formular esse novo modelo vêm dos princípios da Física Quântica e da Teoria do Caos e da Complexidade, vêm também de alguns filósofos pouco conhecidos do século XX, dos quais falarei no encontro, e igualmente das idéias de alguns pesquisadores menos ortodoxos que surgiram nas últimas décadas, como os físicos D. Bohm,  F. D. Peat,  D. Zohar,  F. Capra, os biólogos R. Sheldrake  e B. H. Lipton, o bioquímico I. Prigogine,  os educadores E. Morin,  P. Demo , H. Assmann  e o médico P. Paul, dentre vários outros. Porém, é bom salientar que esse é apenas um modelo proposto. A questão principal que coloco como critério de escolha é que o modelo que escolhemos deve ser aquele que nos permite viver bem e de forma integrada com a natureza neste período de pós-humanismo. Você é feliz e se realiza sendo quem é e fazendo o que faz? Se a resposta for sim, há boas chances de você ter escolhido bem seu modelo de mundo. Esse é um teste pessoal que eu recomendaria para o período de pós-humanidade em que vivemos.

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