Edição 259 | 26 Maio 2008

Nanotecnologias: mais um mito do progresso?

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Patricia Fachin

Para Gilberto Dupas, as nanotecnologias representam os interesses econômicos do mercado e criam “mais produtos na prateleira” do que o aumento da autonomia pessoal do indivíduo

“Estaria a espécie humana, regida pela lógica implacável do capital e do mercado, inventando uma maneira de abolir a si mesma, transformando-se em formas de vida e de inteligência pós-biológicas e digitais?”, questiona Gilberto Dupas, economista e presidente do Instituto de Estudos Econômicos e Internacionais (IEE). Em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, o pesquisador questiona o progresso prometido através das nanotecnologias e sugere regras para regulamentar uso de novas tecnologias. “Essas técnicas genéticas deslocam os limites entre o que somos e o modo como lidamos com essa herança sob nossa própria responsabilidade, entre o acaso e a livre decisão dos homens. Orientações para essa área recomendam muita cautela e moderação”, alerta.
Segundo o pesquisador, há poucos anos o homem era fruto do acaso e das probabilidades e, a partir de agora, “terceiros ou nós próprios poderemos nos determinar biologicamente e nos reconstruir”. Ao tornarem incerta a identidade da espécie, explica, “os desenvolvimentos das tecnologias bionanogenéticas afetam a imagem que havíamos construído de nós mesmos enquanto seres culturais da espécie ‘homem’”. E questiona: “Que efeitos terão na autocompreensão da nossa espécie os implantes de chips e a nanotecnologia, que preparam a fusão do homem com a máquina?”
Dupas é professor visitante da Universidade de Paris II e da Universidade Nacional de Córdoba e membro da Comissão de Ética da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência) e do Conselho Nacional de Avaliação do Ensino Superior (CONAES).  Entre seus livros mais recentes publicados, citamos O mito do progresso (São Paulo: UNESP, 2006) e Espaços para o crescimento sustentado da economia brasileira (São Paulo: UNESP, 2007). Ele irá proferir a palestra “Sociedade pós-humana: fuga ou enfrentamento dos impasses sistêmicos”, no dia 26-05-2008, segunda-feira, às 9h30min.

IHU On-Line - Como o senhor percebe a criação de uma geração de pós-humanos? O que muda nas relações sociais a partir dessa tecnologia? Transformar-se num ser híbrido representa mudanças no comportamento e relacionamento humano? Sentimentos, emoções, conceitos de moral e verdade também correm o risco de serem alterados?
Gilberto Dupas
- É extremamente importante investigar como se afiguraria essa futura civilização que pretende superar o humano pela biogenética e pela eletrônica radicalizadas pelas nanotecnologias. O pós-humano seria a superação do humano que, tal como existe hoje, estaria necessariamente obsoleto. Laymert Garcia dos Santos  nos propõe três alternativas básicas para pensar o pós-humano. Na primeira, o pressuposto é de que o corpo é um hardware falho e ultrapassado; seria preferível fazer um download da nossa mente para um corpo que fosse melhor. A atualização do corpo dar-se-ia aos poucos, modificando o organismo mediante a incorporação de próteses para lidar com as novas exigências. Entre outras razões para essas modificações, estaria a de que o homem precisará viver em ambientes que não são o seu habitat natural, porque nosso próprio modelo civilizacional poderá dar cabo final do ecossistema original da Terra. Com a criação de melhores condições do hardware humano, estaríamos em condições mecânico-biológicas de enfrentar longas viagens espaciais e de viver em outros planetas. Alguns cosmólogos chegam a alegar a nossa responsabilidade para com o futuro da raça humana, se eventualmente formos a única espécie inteligente do universo, perpetuando-nos em outros planetas. Deveríamos, pois, nos preparar para o caso de ocorrer uma catástrofe por fenômenos naturais ou por ação humana que eliminasse todas as condições de sobrevivência da espécie no planeta. A segunda maneira inaugura aquilo que alguns estão chamando de um novo tipo de eugenia. Na eugenia negativa, havia a purificação da raça por meio da eliminação daqueles caracterizados como “humanos deficientes”. Na eugenia positiva, existiria a possibilidade de se “melhorar” o patrimônio genético por meio de transformação nas células, obtendo uma segunda linha de evolução do humano. Há, evidentemente, riscos e impactos de natureza ética e psicossocial profundos nessa questão.

Mas há uma terceira linha, a mais complexa e intrigante. Ela considera essas duas anteriores e constrói, ao lado da aceleração tecnocientífica e da nova dinâmica econômica capitalista, uma espécie de grande narrativa da obsolescência do humano e do futuro pós-humano. Quais as relações existentes entre o humano e o não essencialmente humano, no sentido do hardware e do software? E em que consiste o essencialmente humano? Que tipos de transformações ainda podem ser atualizadas nesses hardwares e softwares, mantendo-se essa condição essencialmente humana? E quais seriam os riscos adicionais de se ir além?

IHU On-Line - O senhor diz que mais inquietante do que os perigos nucleares são os riscos decorrentes da microbiologia e da genética. O que o senhor atesta de tão assustador nessas áreas? Quais seus dilemas éticos e morais?
Gilberto Dupas
- Como a revolução da informática e as telecomunicações a partir dos anos 1970, as nanotecnologias terão imensos impactos na sociedade, gerarão enormes lucros com produtos e serviços revolucionários e provocarão imensos riscos. Os patronos dessas técnicas garantem, para um futuro próximo, nanorobôs  circulando pelo sangue humano para reparar células, capturar micróbios ou combater cânceres; todo o acervo das bibliotecas mundiais contido num dispositivo do tamanho de um torrão de açúcar; materiais dez vezes mais resistentes e cem vezes menos pesados que o aço; e armas e aparelhos de vigilância milimétricos e potentíssimos. Anunciam a implantação de nano chips no organismo humano para substituir ou adicionar células ou competências, abrindo espaço para uma primeira geração de pós-humanos. E seus oráculos mais delirantes prometem a completa regeneração celular; no limite, a imortalidade. Mas já se alerta sobre o risco de poluição ambiental incontrolável por partículas muito pequenas flutuando no ar, viajando a grandes distâncias e sem controle porque as barreiras naturais não podem lhes impedir; nanocomponentes acumulando-se na cadeia alimentar com conseqüências não conhecidas, e nanodispositivos que podem modificar e controlar a mente humana. Em suma, incríveis possibilidades e altíssimos riscos. Estruturaram-se mitos em torno das maravilhas dessas técnicas, criando ambiente favorável para poder lançar o quanto antes produtos que serão convertidos em objeto de desejo. Os riscos e conseqüências ficam para depois. No entanto, pesquisadores do US Environment Protection Agency (EPA) já reportaram nanopartículas encontradas em fígado de animais de laboratório, vazamento para células vivas e o risco de novas bactérias desconhecidas atingirem a cadeia alimentar. E a Sociedade Americana de Química anunciou, em agosto de 2007, que algumas novas formas de carbono (nanotubos) em produção já estão causando sério impacto ambiental com a emissão de substâncias tóxicas e cancerígenas.

IHU On-Line - Hoje as nanotecnologias representam o ápice do desejo humano de conquistar a imortalidade? Por que o homem vive em busca do progresso?
Gilberto Dupas
- Precisamos tentar antecipar que avaliação retrospectiva nossa civilização fará, em algum momento do futuro, sobre a nanotecnologia e a eugenia liberais reguladas apenas pelo lucro e pelas leis de mercado. Terá sido um progresso ou uma aventura trágica? Erwin Chargaff , que elevou a biologia molecular  ao grau de ciência principal e foi essencial para decifrar a hereditariedade, é um dos mais duros críticos do conceito ingênuo do progresso científico-técnico. Ele retoma a pergunta de Kant  “que posso saber?” e mostra os riscos de um processo civilizatório carente de valores e de perspectiva crítica. Chargaff fala dos falsos caminhos que seguem uma metafísica travestida de ciência, intitulando-se agente do bem-estar, da saúde e do progresso. Para ele, não colocar limites no impulso livre das tecnologias e no gosto de investigar é converter a superstição em lei motora das ciências. No interesse da integridade humana e do bem-estar da sociedade, ele propõe fixar os limites do saber; reconhece que isso não pode ser integralmente feito no plano jurídico, mas julga ser um dever cultural essencial para uma sociedade que não queira deixar-se levar por caminhos que possam destruí-la. A visão neoliberal do desenvolvimento das biociências e, agora, das nanotecnologias, está longe dessas preocupações. Para ela, o conhecimento é a esperança de redenção e ele só ocorre em ambiente de ampla liberdade, devendo a sociedade assumir todos os riscos inerentes em função de ganhos futuros que terá. Os raros discursos éticos disponíveis ou são dogmáticos e moralistas – como o predominante em algumas doutrinas religiosas –, ou movem-se em meio a um mundo de idéias dominado pela visão empresarial do lucro.

IHU On-Line - O senhor é bastante pessimista quanto ao progresso humano. Isso quer dizer, como afirmava Merleau-Ponty, que caminhamos e não progredimos?
Gilberto Dupas
- Jürgen Habermas  clamou no deserto ao tentar fazer as elites contemporâneas e as poderosas corporações globais, que determinam a direção dos vetores tecnológicos a partir do objetivo do lucro, compreender que a programação genética contém um elemento irreversível, estreitando consideravelmente o espaço de liberdade dos homens. Quase desistiu. As teorias atuais da justiça e da moral trilham caminhos próprios, de modo diferente das da ética, deixando apenas espaço para certas “éticas especializadas”. Precisaremos resolver se as novas e imensas margens de decisão que as nanotecnologias abrem ao homem terão que ser exercidas segundo considerações normativas inseridas na formação democrática das sociedades, ou de maneira arbitrária, regidas unicamente por preferências subjetivas individuais e pelas regras liberais de mercado. Intervir no genoma humano ou implantar nano chips no cérebro humano para modificá-lo é algo que precisa ser normativamente regulamentado, ou deixaremos essas ações ao sabor de preferências dos mercados oferecidas sem nenhuma limitação?

Apesar de resistências aqui e acolá, essas novas técnicas de manipulação da natureza e do homem, livres de restrições, vão se instalando firmemente, ainda que passíveis de temíveis riscos e longe de qualquer princípio de precaução mais sólido. Não se deve proteger o direito a uma herança genética sem manipulação? Afinal, essas técnicas genéticas deslocam os limites entre o que somos e o modo como lidamos com essa herança sob nossa própria responsabilidade, entre o acaso e a livre decisão dos homens. Orientações para essa área recomendam muita cautela e moderação. Concordo com Habermas quando afirma que apenas os membros de uma determinada comunidade podem se impor mutuamente obrigações morais e esperar uns dos outros um comportamento conforme suas normas. No sentido jurídico e moral, a “dignidade humana” se constrói sobre uma simetria das relações. Ela exige esclarecimento máximo, reconhecimento recíproco e certa liberdade das pessoas em relação aos sistemas que as cercam.
Ao tornarem incerta a identidade da espécie, os desenvolvimentos das tecnologias bionanogenéticas afetam a imagem que havíamos construído de nós mesmos enquanto seres culturais da espécie “homem”. Que efeitos terão na autocompreensão da nossa espécie os implantes de chips e a nanotecnologia, que preparam a fusão do homem a maquina? Já se prometem microrobôs capazes de se autoduplicar, que circulariam pelo corpo humano unindo-se aos tecidos orgânicos para deter processos de envelhecimento ou estimular funções do cérebro. Essas inteligências superiores pretendem superar o que chamam de “limitações do hardware humano”. O corpo humano futuro, acham eles, estará repleto de próteses destinadas a aumentar o rendimento ou a inteligência. Para onde esse processo nos conduzirá? É essa a direção que a humanidade aspira como valor futuro ou ela está nos sendo imposta como resultado de uma ciência colocada a serviço da acumulação de lucros?

IHU On-Line - Aonde essa obsessão pela evolução nos levará? Poderá o homem ter controle absoluto sob suas próprias criações? Vivemos então, como o senhor diz, o mito do progresso?
Gilberto Dupas
- Esse é o grande desafio para a compreensão contemporânea de liberdade. Devemos, por exemplo, garantir que a combinação imprevisível de duas seqüências diferentes de cromossomos continue a determinar o direito de vir a ser por meio da lógica da natureza? Ou aceitaremos que o arbítrio de alguém, que deseja um design apropriado de um novo ser, com nanopróteses e chips, possa interferir nos fundamentos somáticos e na liberdade ética de uma outra pessoa que ainda não existe e não pode ser consultada? De uma forma ou de outra, todos os cidadãos terão por genitores ou co-genitores a ciência; ou, num caso mais extremo, um Estado totalitário que tutele e determine o perfil biológico de seus cidadãos. Éramos frutos do acaso e das probabilidades, uma espécie de loteria biológica que nos protegia contra a arbitrariedade. A partir de agora, terceiros ou nós próprios poderemos nos determinar biologicamente e nos reconstruir (ou construirmo-nos diferentes).

A autonomia da pesquisa privada é hoje garantida na prática no Estado liberal. Do ponto de vista sociológico, a aceitação social para uma expectativa de uma vida mais cômoda e mais longa é incontrolável. Desde operações feitas no coração e no cérebro, passando pelo transplante de órgãos naturais e artificiais e chegando agora à terapia genética e às nanopróteses, sempre se discutiu se já não se havia alcançado o limite ético em que mesmo fins terapêuticos não poderiam mais justificar outras “tecnicizações do homem”. Nenhuma dessas discussões e tentativas de intervenções legislativas deteve a técnica e os interesses econômicos por detrás dela. Do ponto de vista liberal, essas novas habilidades são “mais produtos na prateleira” à disposição da liberdade do homem e do aumento da autonomia pessoal.

IHU On-Line - O senhor diz que as nanotecnologias contribuem também para elevar os impactos ambientais. Entretanto, o senhor acredita na possibilidade das nanotecnologias criarem maneiras de combater os desequilíbrios naturais?
Gilberto Dupas
- O futuro dessa nova evolução tecnológica pode ser analisado a partir de duas de suas vertentes críticas: o impasse ambiental e as dimensões civilizacionais do “pós-humano”, resultado das aplicações de ferramentas nanotecnológicas. Há uma vertente comum a ambas as questões: as próteses e os homens-robôs como instrumentos de um dos cenários possíveis para a preservação da espécie a partir das conseqüências trágicas da própria ação predadora humana sobre o Planeta.

O preço do padrão atual de desenvolvimento econômico é a eventual contaminação definitiva deste Planeta. Alguns acham que este é um risco que vale a pena em função do tamanho da nova aventura humana e da possibilidade de conquistas de novos espaços cósmicos. Eles pensam no ser humano como um hardware precário que contém um software insuficiente. Os avanços notáveis da ciência e da técnica – nanotecnologias, robótica e próteses profundas - revolucionarão o organismo do homem, criando um pós-humano habilitado a imensas conquistas cósmicas, deixando no planeta Terra envenenado aqueles que não se adaptarem aos novos tempos. Certamente, não haverá lugar para muitos nesta grande aventura. Os que não puderem embarcar nela serão, infelizmente, parte de uma seleção natural como tantas outras que a civilização humana já promoveu, desta vez apenas mais radical. Os inúmeros críticos dessa posição, entre os quais me incluo, perguntam-se se não estaria a espécie humana, regida pela lógica implacável do capital e do mercado, inventando uma maneira de abolir a si mesma, transformando-se em formas de vida e de inteligência pós-biológicas e digitais.

IHU On-Line - Será o pós-humano uma superação do homem ou uma aniquilação da natureza humana?
Gilberto Dupas
- A questão central é como equilibrar os benefícios dos novos vetores tecnológicos definidos exclusivamente pelo setor privado, incluindo agora nanotecnologias, genética e robótica com os seus riscos que podem desencadear desastres que comprometam irremediavelmente a existência terrena de muitas gerações futuras. Em suma, a nanotecnologia – cujos vetores e direções estão, mais uma vez, exclusivamente controlados pelas grandes corporações e pelos interesses do capital - radicaliza dramaticamente os instrumentos do homem para intervir na natureza, criando potencialidades e riscos imensos: da “pós-natureza” ao “pós-humano”; de produtos fantásticos à possibilidade de um definitivo colapso ambiental. A sociedade civil está de novo à margem dessa nova revolução, a ela assistindo em geral como espectador maravilhado sob efeito da imensa propaganda global positiva que já se iniciou. Considerações de ordem ética que poderiam iluminar e controlar melhor esses caminhos são muito necessárias, mas quase inexistentes. Como Merleau-Ponty,  entenderemos o progresso apenas como uma longa e imprevisível caminhada, e não como um mito renovado por um aparato ideológico interessado em nos convencer que a história tem destino certo e glorioso; no caso, garantido pelas espetaculares técnicas nanotecnológicas. E, com Walter Benjamin , lembramos que a evolução social não é um fruto inexorável do progresso econômico, técnico e científico. Quando o trem da história humana parece caminhar em velocidade desenfreada e à beira de um abismo, é fundamental acionar o seu freio de emergência e refletir sobre o sentido ético das direções que esse progresso quer nos impor. O futuro da civilização humana dependerá de exercitarmos os graus de liberdade que ainda possamos utilizar enquanto sociedade, em direção aos valores que nos parecem prioritários. 

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