Edição 258 | 19 Mai 2008

Biombustíveis não prejudicam a produção de alimentos

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Patricia Fachin

Para José Goldemberg, a produção de energia através da agricultura deve ser ampliada

Defensor da produção de combustível através da cana-de-açúcar, José Goldemberg diz que essa fatia do mercado ocupa apenas 4 dos 60 milhões de hectares brasileiros, e não pode ser responsabilizada pela crise alimentícia mundial. “A crise fundamental é a desigualdade de renda”, justifica. Em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, o ambientalista afirma que, além de substituir os resíduos fósseis, o etanol reduz as emissões de gás carbônico. Questionado sobre as implicações do corte e a queima de canaviais, Goldemberg é enfático: “O CO2 será reabsorvido na próxima safra”.
Goldemberg é pós-doutor em Física, pela Universidade de São Paulo (USP). Atualmente, é docente da Universidade da mesma universidade e membro do Projeto BASIC da University of Sussex. Entre suas obras, destacamos Energia, meio ambiente e desenvolvimento (São Paulo: Edusp, 2003) e World energy assessment overview 2004 update (New York: United Nations Nations Development Programme, 2004).

IHU On-Line – A produção de alimentos mundial continua aumentando, mas esbarra no problema da distribuição. A repartição de renda desigual ainda pode ser considerada um fator imprescindível para justificar essa crise alimentar? Em que o senhor argumenta sua posição?
José Goldemberg
- Até recentemente não havia crise alimentar. A produção de alimentos tem sido suficiente para atender as necessidades mundiais e não havia fome no mundo. O problema é o acesso aos alimentos que custa dinheiro que os pobres não têm. A crise fundamental é a desigualdade de renda. Mais recentemente, o consumo da China e da Índia cresceu tanto que provocou uma “corrida” aos alimentos e conseqüente aumento de preços. Os mais pobres com menos poder aquisitivo são os que mais foram atingidos.

IHU On-Line – O senhor diz que o preço dos cereais e de alimentos tem caído ao longo das últimas décadas (conferir artigo publicado na Folha de S. Paulo, em 18-02-2008). Então, a especulação das commodities, por parte do mercado financeiro, justifica a elevação dos preços de alguns alimentos nos últimos meses?
José Goldemberg
– O preço das commodities em geral tem caído ao longo dos anos, mas também tem flutuado bastante, devido a diversos fatores, tais como secas e inundações, mas, também, claro, devido à especulação.

IHU On-Line – O Banco Mundial já financiou empréstimos para colocar matadouros na Amazônia. Com o desmatamento de algumas áreas para a ocupação da pecuária, alguns ambientalistas dizem que roças podem ser iniciadas e, conseqüentemente, aumentar a plantação de soja nessas áreas. Esse ciclo precisa ser controlado? Torna-se necessário controlar, além do desmatamento da Amazônia, o controle da pecuária?
José Goldemberg
– O problema do desmatamento da Amazônia é muito complexo. É claro que a pecuária pode ser expandida bem como as plantações de soja, mas fazer isto às custas do desmatamento, que tem conseqüências muito negativas para o futuro do clima, não é a solução. Metade do Pará já foi devastado. O que seria preciso fazer é reaproveitar certas áreas degradadas antes de desmatar mais.

IHU On-Line – Dizem que o etanol de cana-de-açúcar ajudará a reduzir os gases do efeito estufa. Entretanto, quais são os impactos ambientais da queima do canavial? Essa solução é ambígua, uma vez que pode gerar outro problema?
José Goldemberg
– O etanol da cana-de-açúcar, ao substituir a gasolina, reduz as emissões de gases de “efeito estufa”. Este não é um “rumor”, mas um fato científico. A queima do canavial para facilitar o corte da cana emite CO2, mas ele é reabsorvido na próxima safra.

IHU On-Line – Se a produção de biocombustíveis gera energia mais limpa e ajuda na diminuição das emissões de carbono, que medidas se tornam necessárias para garantir essa possibilidade juntamente com a produção de alimentos?
José Goldemberg
– A produção do álcool usa uma área pequena no Brasil (cerca de 4 milhões de hectares), num total de 60 milhões de hectares, usados para outras culturas. Além disso, existem 200 milhões de hectares de pastos degradados nos quais as plantações da cana-de-açúcar poderiam se expandir. Para a produção de biodiesel, a idéia é usar mamona e pinhão manso que não são comestíveis. Se o biodiesel for feito com soja – como está ocorrendo –, ele compete com a produção de alimentos e deve ser desencorajado.

IHU On-Line – Especificamente no caso brasileiro, a produção de energia limpa pode ser positiva. Entretanto, é correto dizer que esse processo de produção de energia através da agricultura pode ser negativo, já que crescem as monoculturas e se intensifica a concentração de renda? Que medidas são necessárias para resolver esse impasse?
José Goldemberg
– Monocultura e concentração de renda são características de produção agrícola em larga escala e não apenas na produção de álcool de cana-de-açúcar. Era assim com café e ainda hoje com laranja. Não é o uso de produtos agrícolas para a produção de energia que está causando a concentração de renda e monocultura.

IHU On-Line – Joachim von Braun, diretor do Instituto Internacional para a Pesquisa de Políticas de Alimentação, defende uma moratória sobre a produção de combustíveis à base de grãos ou derivados de oleaginosas e diz que essa medida poderá reduzir o preço do milho em 20% e do trigo em 10% entre 2009 e 2010. Como o senhor percebe essa proposta?
José Goldemberg
– As maiores fontes de poluição existentes hoje no mundo são o petróleo e o carvão. Talvez o Dr. von Braun devesse propor também uma moratória para o uso destes combustíveis.

IHU On-Line - Essa moratória pode ser útil para os biocombustíveis produzidos a partir da cana-de-açúcar? Parte da alimentação dos bovinos, suínos e aves é composta por insumos utilizados na produção de biocombustíveis. Ou seja, se não houver um limite para a plantação de cana-de-açúcar, por exemplo, pode ficar mais caro alimentar esses animais e conseqüentemente esse aumento será repassado aos produtos finais? 
José Goldemberg
– As conseqüências do uso de pequena parte da produção agrícola para produção de energia são exageradas e a solução será ampliar a produção e não reduzi-la.

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