Edição 347 | 18 Outubro 2010

Um encontro entre Oriente e Ocidente

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Márcia Junges | Tradução Luís Marcos Sander

 

IHU On-Line - Como a metafísica do cristianismo se relacionou com o confucionismo?

Eugenio Menegon - Os jesuítas chegaram à China na década de 1580, num momento especial da história chinesa. A última parte da dinastia Ming foi um período de grande prosperidade econômica e de diversidade e abertura intelectual sem precedentes, mas também uma época de forte polarização social, de desordem governamental, de lutas implacáveis entre facções políticas e de desastres ecológicos devastadores. Em consequência disso, os homens de letras chineses buscavam uma forma de entender seu mundo fragmentado e de reformar o império. Os antigos valores confucianos pareciam estar em crise. Dentre as muitas opções disponíveis para as reformas moral e política, um grupo seleto de homens instruídos de círculos governamentais acharam atraentes as ideias oferecidas por esses novos “Ensinamentos Celestiais” (Tianxue), como eram chamados, que os jesuítas traziam.

O que atraiu esses homens de letras nos Ensinamentos Celestiais dos jesuítas era a natureza orgânica deles. Na Idade Média e no início da Modernidade, o conhecimento era organizado de modo diferente da atualidade. Nós percebemos a história, teologia, filosofia, física, química, etc. como disciplinas separadas. Além disso, dificilmente se veem as ciências humanas em diálogo com as chamadas ciências exatas. Entretanto, este não era o caso no passado. Antes do iluminismo, o conhecimento na Europa era construído numa única hierarquia de disciplinas. Embora algumas disciplinas fossem mais importantes do que outras, todas eram vistas como parte de um corpo unitário de conhecimento. Na hierarquia do início do período moderno, a teologia estava no topo, seguida pela filosofia e depois pelo que chamamos de ciências duras ou exatas, e que eles chamavam, em termos amplos, de filosofia natural. É isto que quero dizer com o termo “orgânico”: todos os ramos do conhecimento estavam inter-relacionados, e as ciências exatas que mediam e descreviam o mundo físico apontavam para a ordem superior da realidade metafísica descrita por filósofos e teólogos.

Conhecimento orgânico

Na China, a situação era semelhante em muitos sentidos. Apesar da existência de diferenças na classificação do conhecimento e na forma como o mundo era concebido, os pensadores chineses também colocavam a metafísica numa posição elevada da hierarquia. Os chineses não separavam o físico do metafísico tão completamente quanto o faziam os ocidentais. Não obstante, eles acreditavam, de maneira semelhante, que todas as formas de conhecimento, incluindo as ciências exatas, visavam a revelar e explicar o padrão oculto, ideal do universo. Como seus equivalentes europeus, eles também perseguiam um projeto de conhecimento orgânico.

É justamente essa crença comum na natureza orgânica do conhecimento, tanto no Ocidente quanto na China, que explica o interesse inicial pelos aspectos religiosos e científicos da missão jesuítica na China. Os jesuítas, como a maior parte das pessoas de sua época, incluindo Galileu e Newton , criam que havia uma hierarquia unificada de conhecimento. Eles pensavam que o conhecimento das realidades metafísicas tinha como premissa o conhecimento da realidade física. No cerne de sua hierarquia, contudo, permanecia um sistema moral centrado num supremo princípio ordenador do universo, o Senhor dos Céus cristão. Alguns dos eruditos da era Ming, em sua busca quase obsessiva de uma forma de reformar sua sociedade decadente através do que chamavam de aprendizado prático, acharam esse sistema moral, religioso e científico bastante atraente, e não incompatível com seus ideais confucianos.

Divindade encarnada

Mas aí também residia a dificuldade: o Deus antropomórfico dos cristãos não é um princípio filosófico, exceto em alguns modelos teológicos rarefeitos. O Deus cristão é uma figura paterna, que gerou um filho concebido por uma mulher mortal. Isto era demais para muitos eruditos chineses que estavam em busca de princípios da ordem universal. Eles tinham sido formados, através das sutilezas do pensamento budista e da cosmologia neoconfuciana, para conceber o princípio supremo como uma força cósmica, difícil de definir, imanente nas coisas, mas certamente sem ter formas humanas. Como poderiam aceitar a divindade encarnada do cristianismo?

Entretanto, um pequeno número de chineses aceitou a ideia. Eles podiam fazer isso definindo criativamente o Deus cristão de formas chinesas, enfatizando seu papel paterno e a ideia de um deus-rei, de um “Senhor do Céu”, de um “Imperador do céu”. Contudo, na década de 1630, nos últimos anos da dinastia Ming, os detentores dos mais elevados graus acadêmicos pararam de se converter ao credo estrangeiro. Desencantados com seus esquemas fracassados para a reforma política e moral, eles viviam num país ameaçado por rebeliões dos camponeses e ataques dos bárbaros, e ficaram cada vez menos interessados em fazer experimentos, com o que percebiam em grau crescente como uma importação estrangeira. A partir de então, a comunidade de conversos cristãos compreendeu principalmente pessoas comuns.

IHU On-Line - Qual é a situação da Companhia de Jesus hoje, nesse país?

Eugenio Menegon - Pelo que vi em minhas viagens à China nas últimas duas décadas, o trabalho que os jesuítas iniciaram nesse país está, de muitas formas, em harmonia com a abordagem de Ricci. Trata-se de uma abordagem de longo prazo, que abre mão de resultados imediatos em favor de um diálogo constante, silencioso. Essa abordagem começa com base em contatos e aspectos comuns em termos culturais e humanísticos, mediante atividades letivas na universidade, o estabelecimento de programas de pesquisa sino-estrangeiros conjuntos e o desenvolvimento de intercâmbios culturais entre intelectuais e estudantes chineses e seus colegas fora da China. Trata-se de uma abordagem que exige paciência e mostra uma fé fundamental na bondade da natureza humana e na importância do diálogo sem camisas de força ideológicas ou religiosas preconcebidas.

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