Edição 257 | 05 Mai 2008

Transumanismo e tecnologia molecular

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Celso Candido Azambuja

O artigo que segue é de autoria de Celso Candido Azambuja, mestre em Filosofia, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), e doutor em Psicologia Clínica, pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Atualmente, é coordenador do curso de Filosofia da Unisinos.

O Simpósio Internacional Uma sociedade pós-humana? - possibilidades e limites das nanotecnologias nos desafia e permite refletir sobre um tema que certamente ocupará a agenda política e intelectual do século XXI. O tema é extremamente complexo e relativamente novo na filosofia acadêmica e também na sociedade civil em geral. A literatura sobre os dois termos principais desta discussão – pós-humano e nanotecnologia - no Brasil é ainda bastante escassa.

Em todo caso, estamos no terreno do admirável, e isto nos remete desde logo ao plano da filosofia. E a filosofia é domínio da especulação lógico-racional que, quando se coloca um problema, “não se detém diante de nada”, abrindo-se para uma discussão interminável. Imediatamente, ela abre questões de toda sorte. Quais são as implicações éticas e políticas das nanotecnologias? Que humano é este que agora se pretende chamar pós-humano? Que tipo de ciência é esta a Nanociência e quais são seus pressupostos epistemológicos?

Mas tão logo acerca-se da complexidade destas questões a filosofia se dá conta de que somente em uma perspectiva que envolva outras ciências poderá tentar esclarecer e responder às questões implicadas neste debate espantoso! Deixaremos de ser humanos para ser pós-humanos? Mas de que se trata afinal este pós-humano? E de que humano mesmo estamos falando? E nanotecnologia? De que se trata exatamente, se nem mesmo ainda temos certeza que conseguimos responder ao que entendemos por tecnologia?

Assim, se a filosofia pode nos ajudar a refletir sobre e elaborar os conceitos e fundamentos do transumano e da nanotecnologia, certamente, ela terá que se apoiar e se articular com outras áreas do conhecimento para compreender a complexidade dos problemas em questão, o que só pode ser feito na perspectiva de um pensamento transdisciplinar.

A filosofia é tradicionalmente reconhecida como uma ciência que tem suas origens na Grécia Antiga. Ao menos, o certo é que ali um grande cultivo da filosofia floresceu de modo singular e único. A filosofia – a ciência das ciências, na medida em que todas as disciplinas, áreas de conhecimento, mesmo aquelas que os mais geniais gregos não teriam pensando de certa forma, direta ou indiretamente - está na base, orienta a evolução e a tradição das demais ciências.

A pergunta a partir da qual nasce aquilo que ainda hoje chamamos de filosofia não era pouco ambiciosa. Tratava-se de perguntar sobre o princípio de tudo aquilo que existe. Qual seria, portanto, a arké da physis? Existe um princípio, uma causa essencial de todo o existente? Qual a essência do cosmos? De que são feitas todas as coisas?

Entre as respostas, a tradição reconhece em Leucipo e seu discípulo Demócrito, filósofos de Abdera, aqueles que postularam como o princípio de todas as coisas, aquilo sem o qual nada e nenhuma coisa existiria era precisamente o átomo. A unidade última indivisível. Átomo, em grego, significa sem divisão. Pois, diria Demócrito, o que poderia existir se tudo fosse divisível até o fim?

Mas logo a filosofia grega se coloca uma outra grande questão: quem é o homem? Esta nova questão, cujo movimento tem suas origens na filosofia de Sócrates e dos chamados sofistas, na medida em que situa no centro das questões filosóficas mais importantes o anthropos. “O humano é a medida de todas as coisas” – dizia o honorável sofista Protágoras –, que teria implicações éticas, políticas e epistemológicas consideráveis. “Conhece-te a ti mesmo!” - insistia Sócrates ainda na sua autodefesa ante o tribunal civil que iria fazê-lo tomar a cicuta - foi uma das máximas filosóficas e religiosas mais importantes e cultivadas no mundo grego antigo.


“Nano”, que em grego originalmente significa “anão”, trata-se de uma dimensão invisível ao olho, mas que, no entanto, está no princípio de tudo o que existe. Desde a perspectiva grega pelo menos até o século XX, a ciência tratou de reconhecer, primeiro, a necessidade de existência do mundo atômico, depois, a de decifrar os segredos destas mínimas partículas da vida. Atualmente, a ciência, através da nanotecnologia, ocupa-se em manipular e criar novas formas. Tratou-se sempre de desvendar os mistérios da natureza, hoje trata-se também de alterar, interferir e criar formas de vida. Uma mudança tão radical cujas conseqüências mal estamos começando a perceber.


Assim como o trans, de transdisciplinaridade, o do transumano, remete à idéia do ir além, do estar entre, do articular, do transcender, do transitar... humano. O conceito de transumanismo aqui evocado filia-se explicitamente à venerável tradição iluminista e humanista greco-ocidental, em especial àquela que emerge no contexto do renascimento e suas utopias e que, em linhas transversais, se estende por toda a modernidade, atravessando, entre outros, os ideais de esclarecimento e autonomia, os ideais coletivistas e liberais, situando-se nos grandes princípios de igualdade e liberdade da modernidade européia e americana e nos ideais, ditos pós-modernos ou hipermodernos, de respeito e cultivo da diferença e preservenção ambiental.


A história da civilização humana está inextrincavelmente associada ao desenvolvimento tecnológico. Diria-se que, a cada passo da tecnologia, acontece um passo da civilização. Nem sempre, é claro, as inovações tecnológicas fazem avançar o conjunto da civilização, muitas vezes aumentando as contradições e injustiças sociais; e mesmo é preciso considerar que algumas técnicas são explicitamente, outras imperceptível e inconscientemente destrutivas. Não há dúvidas de que a civilização é também permeada pela barbárie. Em todo caso, em um e outro caso, o saber técnico é a expressão clara da condição humana e de sua vontade de domínio e expansão. As tecnologias, para o bem e para o mal, não são senão extensões das habilidades e faculdades humanas.


A nanotecnologia molecular diz respeito à manipulação das dimensões mais elementares da vida, tais como os átomos e as moléculas. Trata-se de inventar, a partir de um engenheiramento destas partículas invisíveis ao olho humano – mas que estão atuando o tempo todo em toda a natureza - de máquinas e técnicas moleculares, cujas finalidades podem as mais diversas, desde a recriação artificial de formas já existentes na natureza até aquelas formas ainda não existentes. Isto afetará o conjunto de todas as relações humanas, econômicas, sociais e políticas. Mas afetará também em uma nova dimensão a própria condição humana.


O transumano refere-se a uma humanidade turbinada, a uma nova e espantosa forma do humano em simbiose com suas próprias criações tecnológicas. Na tensão de todas as suas contradições mais ou menos dramáticas, o transumano ou pós-humano não significa, portanto, uma superação da humanidade, mas um reconhecimento de que a natureza humana consiste na sua transformação incessante, na recriação de si e do meio ambiente. Revela-se aqui, sobretudo, um conceito de natureza humana cuja determinação essencial consiste em criar novas formas, novos eidos e novos artifícios para perpetuação e afirmação de si, aperfeiçoamento da espécie e superação de seus limites biológicos.


O transumanismo seria, assim, o novo humanismo contemporâneo que desvela para o humano sua natureza essencialmente criadora.

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