Edição 257 | 12 Mai 2008

O sentido da vida: primeira e grande lição dos índios ao homem branco

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Graziela Wolfart e Moisés Sbardelotto

Para Egon Heck, os índios de Raposa Serra do Sol constituem um povo heróico, um exemplo de cidadania para o Brasil

“Estamos num embate muito forte de lógicas diferentes, de sistemas de pensamento e ideologia diversos, que se confrontam, seja nos pequenos espaços das terras indígenas, seja nos grandes debates em nível nacional e continental hoje, nos quais o movimento dos quilombolas, dos sem-terra e tantos outros estão, cada vez mais, convencidos da necessidade de uma mudança profunda na maneira de ver e relacionar-se com a terra. Caso contrário, se estará condenado, fadado, a médio e longo prazo, a um processo de destruição, que poderá comprometer a vida no planeta.” É essa a visão de Egon Heck, conselheiro do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), no Mato Grosso do Sul, sobre a origem dos conflitos de terras entre índios e homens brancos. Na entrevista que segue, concedida por telefone à IHU On-Line, Heck, emocionado, aponta que “vivemos numa realidade em que grupos de pessoas obcecadas pela acumulação, pelo sistema de acumulação da terra, da produção, da renda, do capital, se desumanizam de tal forma a não reconhecer e enxergar no outro, no índio, na outra sociedade, no diferente, no pobre, o direito de viver com dignidade.”.

IHU On-Line - Como os índios lidam com o conflito de culturas (a deles e a do homem branco), principalmente em relação ao cultivo da terra?
Egon Heck
- Podemos dizer que hoje, desde o monte Roraima ao Chuí, dos Macuxi e Wapichana de Roraima aos Charrua, Kaingang e Guarani do Rio Grande do Sul, os povos indígenas estão num processo muito dinâmico e muito forte de afirmação de sua cultura como estratégia de conquista dos seus direitos. Isso acontece juntamente com a mobilização social e a organização dos próprios povos, em aliança com setores excluídos e oprimidos da sociedade brasileira e em sintonia com o pulsar do coração da nova América, que vai se forjando nos diferentes países a partir de suas raízes nativas. Esse movimento ganha força com novos valores, mais fundamentados nos direitos das pessoas, nos valores sociais, do que na acumulação, no consumo, no individualismo. Então estamos, assim, percebendo que toda essa dinâmica continental e nacional se reflete desde as aldeias, onde os povos indígenas se constroem, no seu dia-a-dia, e procuram sobreviver a partir de seus valores, de seu jeito de se organizar, de pensar, de reagir, sentir e viver. É a partir dessa base, que vem das aldeias e que se reflete de uma forma mais ampla, que vemos esse difícil enfrentamento na questão da terra. Porque, em primeiro lugar, a mentalidade do sistema capitalista de transformar a terra em mercadoria tem feito com que a grande maioria dos povos hoje ou não esteja mais de posse de seus territórios, ou tenha seus territórios reduzidos, muitas vezes destruídos pela dinâmica de ocupação econômica, ou invadidos pelos interesses dos recursos minerais, madeireiros, geopolíticos e outros. Infelizmente, a grande maioria dos povos indígenas hoje se debate numa luta muito desigual, na perspectiva de conquistar o direito sagrado de poderem reconstruir suas bases, as bases das suas economias, nos seus valores profundos, na sua sabedoria, na relação com a terra, que é considerada não como objeto de produção, de venda, de troca, mas como espaço sagrado, como a mãe que dá sustentação, possibilidade de vida às pessoas. Estamos num embate muito forte de lógicas diferentes, de sistemas de pensamento e ideologia diversos, que se confrontam, seja nos pequenos espaços das terras indígenas, seja nos grandes debates em nível nacional e continental hoje, nos quais o movimento dos quilombolas, dos sem-terra e tantos outros estão, cada vez mais, convencidos da necessidade de uma mudança profunda na maneira de ver e relacionar-se com a terra. Caso contrário, se estará condenado, fadado, a médio e longo prazo, a um processo de destruição, que poderá comprometer a vida no planeta.

IHU On-Line - Quais são os principais pontos de divergência entre a elite do agronegócio e os índios, falando dos Guarani do Mato Grosso do Sul? Como entender tanto ódio contra os índios? Como está a situação da violência contra os Guarani?
Egon Heck
- Aqui no Mato Grosso do Sul, infelizmente, continuamos vivendo uma situação extremamente grave. Podemos atribuí-la a uma conjugação de fatores, dentre os quais se destaca a questão da visão e ocupação com relação à questão da terra e ao sistema de produção, propriamente falando. Os índios produzem para viver, e a produção deles significa a possibilidade de viver melhor. Ao passo que o nosso sistema de concentração, da monocultura, não é somente agressivo à terra, mas acumula nas mãos de uns poucos a fortuna e os privilégios do poder. Enquanto isso, temos, cada vez mais, à margem dessa sociedade, grandes partes da população sendo enxotadas, passando fome nos barracos, na beira das estradas, acampando em algum ermo restante, em geral, entre a cerca e o asfalto. Ou, então, elas são mandadas para outras regiões do país, como o Norte, para as novas frentes de desmatamento. Elas seguem o caminho de como são tratados os pobres dessa terra. Eles mesmos são obrigados a serem algozes da natureza, destruidores do meio ambiente. Temos, aqui no Mato Grosso do Sul, em torno de 30 municípios, que têm uma população inferior à da população da terra indígena de Dourados, de 12 mil pessoas. Ou seja, temos belos asfaltos para os bois, para a soja e para a cana e, ao mesmo tempo, não temos espaço para viver. As populações trabalhadoras do campo, os pequenos camponeses, por meio da agricultura familiar, não conseguem produzir alimentos. Por conseqüência, mal conseguem sobreviver. Os assentamentos feitos são depois jogados a uma competição desonesta e desigual com a cana, com os grandes usineiros, com os grandes proprietários. Então, estamos submetidos aos rigores de um capitalismo, por um lado, altamente sofisticado, com grandes maquinários, e, por outro, a uma negação da terra e do trabalho digno no campo, principalmente da produção de alimentos.

Os cortadores de cana

Eu gostaria de lembrar a questão do trabalho com a cana. Tive a possibilidade de visitar, há poucos dias, os trabalhadores de uma usina. É deprimente o quadro que se vê. Chegamos ao meio-dia. Eles estavam engolindo um pouco de alimento na beira de um ônibus que fica estacionado no meio da cana. E, logo depois de uma hora de intervalo, voltam com seus machetes, seus facões, suas ferramentas, e vão inalando aquela cinza que levanta cada vez que cortam. Esse mesmo gesto é repetido umas quantas mil vezes por dia. Em geral, ficam agachados, prejudicando, portanto, a coluna, os pulmões. Isso desgasta rapidamente a vida, pois a possibilidade de trabalho fica em torno de 10 a 12 anos, não mais do que isso.

IHU On-Line - A que o senhor atribui os suicídios que os índios vêm cometendo? O que pode motivar a vontade de morrer de índios, em geral, os mais jovens? Há um conflito entre as raízes culturais e as mudanças percebidas no cenário contemporâneo?
Egon Heck
- O aumento expressivo dos suicídios vem de um agravamento da situação, do fechamento do horizonte, principalmente para os jovens. Nesse ponto, poderíamos elencar uma série de fatores que levam, principalmente, à violência ou a uma situação em que não é mais perceptível o sentido da vida. Se houvesse principalmente um horizonte de terra em que se pudesse reconstituir, do ponto de vista cultural, a base dos valores que integram a sociedade Kaiowá-Guarani... É só lembrarmos que essa é uma sociedade extremamente religiosa, que tem uma profundidade de raiz e de resistência que os possibilitou chegar até hoje. E nos perguntamos: o que está acontecendo de tão grave hoje que não acontecia em tempos passados? Então, me parece bastante evidente que um dos fatores é a desintegração quase total dos laços de coesão, de tecer as relações sociais da família, da aldeia, da comunidade maior, o que dá o sentido e a alegria da vida. Isso praticamente desapareceu. Então, o que aparece pela frente? Submeter-se ao trabalho semi-escravo nas usinas. E os que o conseguem são os jovens na grande maioria, que desgastam sua vida rapidamente. Quando voltam para a comunidade, o que os recebe ali? Uma comunidade totalmente dependente, inclusive da alimentação de fora, uma comunidade onde os próprios jovens são submetidos aos rigores aliciadores, como a droga e o alcoolismo. Tudo isso é agravado, às vezes, por disputas internas políticas, religiosas, econômicas. Existe uma desestruturação psicológica tal que, muitas vezes, o fio entre o sentido da vida e o do não-viver é muito tênue, e isso faz com que aumentem os números de suicídio, de violência e de assassinatos.

IHU On-Line - Se as terras são homologadas, destinadas por lei aos índios, como entender que a “lei” do agronegócio expulse-os do próprio chão? Como o senhor avalia o papel do Estado nesse sentido?
Egon Heck
- Nós temos aí, de fato, um quadro de complexidade. Vivemos numa realidade em que grupos de pessoas obcecadas pela acumulação, pelo sistema de acumulação da terra, da produção, da renda, do capital, se desumanizam de tal forma a não reconhecer e enxergar no outro, no índio, na outra sociedade, no diferente, no pobre, o direito de viver com dignidade. Isso é revoltante e fruto de um sistema intrinsecamente perverso. Não há como entender que as pessoas fiquem tão obcecadas que não consigam humanamente enxergar – e se o conseguem, não consigam reconhecer – o direito dos outros e minimamente se colocar na perspectiva de resolver essa questão da terra. Por parte do governo, principalmente da União, é difícil entender uma omissão que tem durado tanto tempo, que tem causado tanto sofrimento, e caracterizado esse quadro de genocídio tantas vezes denunciado. Ou seja, o governo não tem se empenhado, até o momento, para resolver a questão. Parece que, felizmente, o Ministério Público Federal está pedindo prazos para que essas terras sejam regularizadas. Esperamos que isso aconteça. Esse é um dever de consciência, de civilidade, de obediência a legislações que existem, em termos nacionais e internacionais, de resolver essa questão. Esperamos que, muito em breve, possamos começar um processo de reversão desse quadro, o que evidentemente não significará resolver o problema, porque a destruição feita até aqui sobre a população Kaiowá-Guarani, e mesmo Terena, certamente exigirá décadas, gerações, para que volte a se estabelecer um equilíbrio maior.

IHU On-Line - E no caso de Roraima, na reserva de Raposa Serra do Sol?
Egon Heck
- Eu estive várias vezes lá. É um povo heróico. Penso que seja um exemplo de cidadania, de brasilidade, o que aqueles Macuxis, Wapichana, Tauretang e Patamona estão dando para o Brasil. Há 30 anos eles vêm lutando. Mais de 30 lideranças foram assassinadas, centenas de casas destruídas, com inúmeros companheiros deles sendo presos, espancados, torturados. Depois de tanto tempo, depois que as próprias leis observam que finalmente se deveria resolver através da retirada dos não-índios, o mínimo seria devolver as condições de paz e de vida novamente àquela população. Mas é inacreditável, um absurdo, o que tem acontecido. Lembro-me do tuxaua Jaci, que me chamou ao acampamento Terra Livre, e disse: “Olha, não temos mais em quem acreditar”. Isso é uma punhalada que eles recebem pelas costas, ficando atordoados. Se durante tanto tempo sempre depositaram confiança de que o direito, de que as leis, de que os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário tivessem a hombridade de reconhecer a sua terra, parece que o momento chega a um extremo e que esse tênue fio da esperança talvez esteja se esvaindo. Mas acreditamos ainda que eles tenham essa sabedoria milenar que certamente os levará a enfrentar mais essa situação, e que possam efetivamente um dia celebrar a paz e a vida digna na relação com a sociedade de Roraima. Com certeza, eles serão solidários e aliados a todos aqueles que hoje são excluídos e serão, ao mesmo tempo, respeitadores daquilo que a lei lhes determina. Temos uma confiança muito grande nisso, nesse povo. Por tê-lo defendido, sofri ameaças e fui agredido fisicamente a facadas lá na região. E neles eu deposito, em grande parte, aquilo que eu vivo, que eu acredito e pelo que eu luto (se emociona).

IHU On-Line - Os índios, além de tudo isso que o senhor relatou, sofrem ainda com o preconceito da sociedade. Qual é a origem desse preconceito com relação aos índios? Por que a sociedade olha para eles com desprezo ou com pena?
Egon Heck
- Nós temos aí toda uma história de colonização, de ocupação, de invasão, de exploração dos recursos naturais, que sempre obedeceu a critérios de acumulação. Devemos começar a rever algumas ideologias. Uma delas é a ideologia do trabalho, do endeusamento do trabalho, como se este em si fosse um ato de felicidade, mesmo que seja um trabalho escravo, mesmo que eu enriqueça com alguém pisando em cima de mim, devendo sempre me orgulhar porque estou trabalhando. Mas o que é isso? Isso é ideologia pura, veiculada, do ponto de vista religioso, social e cultural. Todos aqueles que são diferentes e não pensam da mesma forma são inferiores, indignos, malvados. Esse preconceito, esse ódio arraigado, mostra a nossa estreiteza, a nossa pequenez de pensamento, uma incapacidade social de pensar o diferente, de pensar a pluralidade e a beleza da riqueza da diversidade cultural e de pensamentos no mundo. Isso é fascismo, racismo, preconceito. Precisamos superar essa idéia, antes que sejamos destruídos por esses tipos de pensamentos e ideologias.

IHU On-Line - O que fazer para que a identidade indígena do índio seja mantida, e mantida com orgulho?
Egon Heck
– Estamos vivendo um momento muito bonito da história. Deixa-me fazer uma pequena digressão mais continental. Fiquei muito animado quando, há algumas semanas, Fernando Lugo venceu as eleições no Paraguai. Parece que o Paraguai-Guarani finalmente começa a superar o genocídio da Tríplice Aliança, da guerra de extermínio que Brasil,  Argentina e Uruguai moveram contra ele. E começam a levantar a cabeça e buscar um novo rumo de dignidade, de autonomia, de soberania. Isso não só se dará na língua guarani, mas no próprio povo, nas próprias raízes, sejam elas indígenas, mestiças, caboclas ou paraguaias. Isso acontece em diversos países do continente. Surge uma esperança muito grande de que uma América diferente será possível. No entanto, é evidente que nesse processo as culturas indígenas estão sendo muito dinâmicas. Mais do que nunca, depois de 500 anos, elas começam a entrar num ritmo de mudanças e de consolidação tão grande, que nos dá a certeza de que o futuro passará com a agregação de inúmeros valores dessas populações nativas do continente.

Os índios no Brasil

O Brasil tem uma peculiaridade pela diversidade de situações, desde índios sem nenhum contato voluntariamente com a sociedade ocidental e brasileira, até grupos que reassumem suas identidades, ressurgem praticamente das cinzas e passam a lutar por vida, dignidade e terra. Talvez a metade dos 230 povos tenha menos de mil pessoas. Mas, mesmo assim, assistimos a uma dinâmica social, organizativa e cultural muito grande, que surpreende e que faz com que todos aqueles que projetavam um Brasil sem índios hoje tenham que admitir não só a presença física e a luta desses povos, mas principalmente a contribuição, a garra e a dignidade com que eles nos mostram caminhos diversos de relação com a natureza.

IHU On-Line - Na sua opinião, quais são as principais lições que os povos indígenas podem dar ao homem branco?
Egon Heck
- A primeira e a grande lição é realmente a do sentido da vida. A nossa sociedade é consumista, se amesquinhou, acreditando que a felicidade está em comprar quinquilharias, em amontoar coisas dentro de casa, em ostentar jóias e outras coisas mais, desvirtuando totalmente aquele sentido profundo da solidariedade, da convivência, da harmonia, da dignidade das pessoas. Essa é a primeira grande lição que eles nos deixam, no sentido de rever o sentido da própria vida. A segunda é rever o sentido da convivência entre as pessoas e das pessoas com a natureza. O planeta Terra só vai ter futuro se conseguirmos, em termos de humanidade, reencontrar um sentido de harmonização da nossa vida, do nosso sistema de produção, dos nossos valores com aquilo que a natureza, a terra, a água e o universo nos oferecem. Essa harmonia e essa integralidade da vida são necessárias, urgentes, não só aqui no Brasil, mas no Planeta. Vemos, nas notícias mais recentes, que a fome começa a galopar em várias regiões do mundo. Os alimentos somem para que os tanques não se esvaziem. Vemos aí a perversão de valores, de sistemas. Os índios nos mostram como reencontrar o sentido simples de viver. Nós nos afogamos. Quando construímos uma casa, construímos um presídio, porque os nossos bens que ali dentro queremos acomodar e a nossa segurança de vida têm que estar em muros e cercas elétricas. Perdemos realmente a noção de uma vida simples, de uma convivência harmônica e de uma solidariedade que esteja baseada na justiça e nos valores maiores. 

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