Edição 255 | 22 Abril 2008

Passado e presente: tradicional conceito de família perde espaço diante da tecnologia

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Bruna Quadros

Maria Isabel Barros Bellini explica as transformações sociais das famílias contemporâneas, delineando as perdas e os ganhos, a partir do avanço das tecnologias

“A complexidade das relações familiares e das novas tecnologias da informação e comunicação anuncia que o processo de globalização e o avanço dessas tecnologias têm provocado rupturas nas relações familiares e essas rupturas muitas vezes se expressam através da violência, do abandono de rituais, do abandono de tradições.” A afirmação é da Profa. Dra. Maria Isabel Barros Bellini, da Faculdade de Serviço Social da PUC-RS, que, em entrevista por e-mail à IHU On-Line, destacou os novos modelos de família: “O que se encontra em alguns lares são estranhos vivendo sob o mesmo teto, cada qual no seu pequeno mundo (quarto), conectado com o além mar e absolutamente distante do quarto ao lado”. Uma das respostas para este distanciamento está no surgimento das tecnologias, que “provocaram uma alteração no viver e no conviver. Há outros elementos participando agora no cotidiano familiar, através das propagandas, dos programas, da instauração de novas formas de lazer, das possibilidades de construir novas formas de viver a família”, ressalta Maria Isabel, que estará no Instituto Humanitas Unisinos – IHU, no dia 28 de abril para discutir o tema A família na contemporaneidade. A atividade, que será realizada das 17h30 às 19h, na sala 1G119, integra o evento Encontros de Ética, promovido pelo IHU.

Maria Isabel Barros Bellini é doutora em Serviço Social, pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), onde é professora no curso de Serviço Social. Atualmente, também é assistente social do Governo do Estado do Rio Grande do Sul e coordenadora de pesquisa da Escola de Saúde Pública da Secretaria Estadual da Saúde/RS.

IHU On-Line - Em décadas passadas, a tradição pesava muito para que as gerações seguintes continuassem o legado de suas famílias. Por que hoje esta situação não é comum?
Maria Isabel Bellini
- Hoje, mais do que nunca, a tradição, os hábitos, os rituais estão sendo suplantados por toda uma avalanche de informações, pelo acesso à invasão de conteúdos e determinações que chegam via tecnologias da informação e comunicação. No seu pequeno e poderoso reduto, a família é jogada diariamente em um mundo diferente, inovador, moderno e que tanto pode ser humanizador como brutalizador. A complexidade das relações familiares e das novas tecnologias da informação e comunicação anuncia que o processo de globalização e o avanço dessas tecnologias têm provocado rupturas nas relações familiares. Tais rupturas muitas vezes se expressam através da violência, do abandono de rituais, do abandono de tradições. Porém, outras tradições são reeditadas, se retomam antigos hábitos, ou seja, não é possível caracterizar como um processo de uma só direção.

IHU On-Line - Como o seu trabalho, na área de Serviço Social, ajuda a entender os novos modelos de família? Qual é o atual conceito de família?
Maria Isabel Bellini
- Na prática do assistente social, em diferentes espaços, os sujeitos encontram-se em condições de desrespeito a seus direitos. São excluídos de um mundo que disponibiliza tanto conhecimento para alguns e tão pouco ou nenhum para muitos. Além disso, possuem desejos e necessidades que não são atendidos, não são capacitados e qualificados para atividades que possam dar retorno financeiro e que tragam gratificação e muitos não têm garantido condições mínimas de vida. E, especialmente no que se refere ao modelo de família, há um sentimento que se perpetua de que suas famílias não correspondem a um modelo ideal o qual a história mesmo mostra que nunca existiu. Sistematicamente, esse sentimento gera discursos que apregoam as virtudes tradicionais, o que, para A. Giddens, é mais saudosismo do que convicção de que antigamente a vida em família fosse melhor. Nosso trabalho, neste aspecto, incide na valorização das diferentes formas de relação entre os sujeitos como relações em potência, em que modelos e estruturas devem ter a utilidade de unir e não de afastar.

IHU On-Line - Podemos considerar que o contexto familiar na contemporaneidade nos remete a uma idéia de individualização?
Maria Isabel Bellini
- O mundo contemporâneo engendra práticas sociais que apontam possibilidades, conhecimentos e esperanças e, na mesma medida, perigo e violência. Dessa forma, assim como se acendem as luzes de um futuro verdadeiramente extraordinário, com grande progresso da ciência, com o homem viajando cada vez mais longe na galáxia, também esse mesmo homem paga o tributo da exclusão, da devastação humana pela mesma avalanche que produz os avanços das tecnologias. O que se encontra em alguns lares são estranhos vivendo sob o mesmo teto, cada qual no seu pequeno mundo (quarto), conectado com o além mar e absolutamente distante do quarto ao lado. Sabe-se que nos Estados Unidos não são fabricadas mais mesas para jantar. Elas passaram a ser obsoletas, pois as famílias não fazem mais as refeições juntas.

IHU On-Line - A criação em um âmbito familiar é considerada a melhor saída para a formação. Neste sentido, o que leva pessoas que tiveram uma boa base familiar a seguir caminhos contrários como, por exemplo, comportamentos violentos?
Maria Isabel Bellini
- Esta essa é uma pergunta muito complexa e perigosa, pois pode gerar preconceitos, rótulos. O psiquiatra Luís Carlos Osório afirma que, embora “seja no seio da família e a partir de certas interações ‘patológicas’ entre seus membros que as primeiras manifestações de violência comparecem, decididamente, não se pode afirmar que haja um protótipo de família que gere indivíduos violentos. Em corroboração a tal assertiva tem-se a constatação de que em determinadas famílias só um dentre vários filhos desenvolve tendências ao comportamento violento”. Desta forma, essa questão não está respondida de uma forma conclusiva, porém, com certeza, o que se sabe é que não se pode generalizar ou aprisionar famílias a partir da experiência de alguns de seus membros.

IHU On-Line - E qual é a sua visão sobre a decisão dos filhos de deixar ou de permanecer na casa dos pais? Em que medida se pode ganhar ou perder, de acordo com o posicionamento?
Maria Isabel Bellini
– No ciclo vital da família, existe uma fase denominada “ninho vazio”, caracterizada pela saída dos filhos da casa dos pais para viver de forma independe. O fenômeno contrário, chamado por alguns de “ninho cheio”,  tem sido objeto de voyerismo por parte de alguns pesquisadores. As explicações são muito diversas e incluem desde a violência externa, o desemprego, a falta de energia e de projeto de vida de uma geração, a falta de autoridade dos pais. São variáveis que atingem a família como um todo e os membros individualmente. A permanência pode significar não “emancipar-se financeiramente e emocionalmente dos pais”.  Nas famílias em situação de vulnerabilidade, pode significar acolher aqueles que ainda não puderam lançar-se por falta de oportunidade, de melhores condições de vida, de não acesso ao mundo do trabalho.

IHU On-Line - Como a senhora avalia os casos de violência intrafamiliar, dentro de casa, quando mulheres e crianças são as principais vítimas? O que provoca estas situações e como fica a estrutura familiar?
Maria Isabel Bellini
- Nas relações de violência na família, existem pontos de resistência que se expressam de diferentes formas. Na relação com o avanço da tecnologia, o questionamento incide sobre os pontos de resistência e submissão da família no contexto atual. Freqüentemente, coloca-se a família na condição de subjugada pelo processo de globalização e domesticada pelas novas tecnologias. É necessário lutar contra essa simplificação e buscar complexificar essa discussão, deixando de lado derrotados e vencedores, e privilegiar relações entre sujeitos que se constroem em um novo mundo. A violência, por sua vez, é um fenômeno que está diretamente associado ao aprofundamento do avanço tecnológico e pode expressar-se de inúmeras formas, materializando-se em agressões físicas, violência simbólica, psicológica, sexual, negligência, maltrato, abandono, atingindo a estrutura familiar e atingindo as “vítimas preferenciais” como as crianças e as mulheres, muito embora elas não sejam as únicas.

IHU On-Line - A globalização e a evolução tecnológica podem ser fatores de transformação nas famílias contemporâneas?
Maria Isabel Bellini
- As novas tecnologias provocaram uma alteração no viver e no conviver. Há outros elementos participando agora no cotidiano familiar, através das propagandas, dos programas, da instauração de novas formas de lazer, das possibilidades de construir novas formas de viver a família. Qual uso será dado às tecnologias não é um dilema do homem contemporâneo. A questão mais importante, talvez, seja como garantir o uso humanizado destas tecnologias. Face à implementação das tecnologias intelectuais na sociedade, enfrenta-se novamente decisões dilemáticas sobre seu impacto na vida humana. Desde a sociedade oral primária, todo um aparato tecnológico intelectual evidenciava-se como parte do cotidiano. A palavra, artefato principal de então, era o estofo da memória social. Conforme a carga emocional contida nos relatos, estes sustentavam memórias que sobreviviam longamente. O impacto e o uso desta tecnologia persiste até os dias atuais e se mantém vinculado à forma de viver cotidianamente, pois a maior parte das habilidades humanas transmitiram-se oralmente ou por imitação. Pierre Lévy refere uma nova cultura que vem sendo criada a partir de todo o crescimento tecnológico e aporta importantes conhecimentos sobre o cotidiano do cidadão. Afirma ele: “Dominamos a maior parte de nossas habilidades observando, imitando, fazendo, e não estudando teorias na escola ou princípios nos livros”.  Na sociedade da palavra e da escrita, o alfabeto e a impressão tiveram seu papel fundamental de transmissores de formas de viver, pensar, construir conhecimento, comunicação. Isso tudo impactando as relações entre os homens e, conseqüentemente, as relações familiares.

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